Quando o estresse do gato vira doença física: o que é a Cistite Idiopática Felina

Diferente das infecções urinárias comuns em humanos, que são majoritariamente bacterianas, a CIF em gatos não possui uma causa infecciosa aparente na maioria

Quando o gato se sente ameaçado ou estressado, o sistema nervoso libera substâncias que aumentam a permeabilidade da parede da bexiga, permitindo que a urina irrite os tecidos internos e cause dor severa

A Cistite Idiopática Felina (CIF) é um dos maiores desafios diagnósticos e terapêuticos na clínica veterinária. Diferente das infecções urinárias comuns em humanos, que são majoritariamente bacterianas, a CIF em gatos não possui uma causa infecciosa aparente na maioria. Trata-se de uma inflamação da bexiga, ligada à forma como o sistema nervoso do felino processa o estresse ambiental.

A ciência moderna não enxerga mais a CIF apenas como uma doença localizada, mas como parte de um distúrbio maior chamado Síndrome de Pandora. Tony Buffington, professor emérito da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, e uma autoridade no tema, explica essa conexão em publicação:

“Gatos com cistite idiopática têm um sistema de resposta ao estresse que é ‘hiperativo’, eles têm uma comunicação alterada entre o cérebro e a bexiga. Quando o gato se sente ameaçado ou estressado, o sistema nervoso libera substâncias que aumentam a permeabilidade da parede da bexiga, permitindo que a urina irrite os tecidos internos e cause dor severa”.

Essa irritação ocorre porque a camada de glicosaminoglicanos (GAGs), que deveria proteger o epitélio da bexiga, torna-se deficiente sob estresse, expondo os nervos sensoriais diretamente à urina ácida.

Um dos maiores problemas da CIF é o tutor interpretar o sintoma como uma “vingança” ou “mau comportamento”. O gato passa a urinar fora da caixa, muitas vezes em superfícies geladas como pias ou azulejos, ou em locais macios como camas e sofás.

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A International Society of Feline Medicine (ISFM) destaca em seus manuais de boas práticas que os sinais clínicos são claros e dolorosos:

“O tutor deve estar atento à periúria (urinar fora do local), disúria (dificuldade e dor ao urinar) e hematúria (presença de sangue). Em gatos com cistite idiopática, o comportamento de lamber excessivamente a região genital também é comum, pois o animal tenta aliviar o desconforto uretral.”

De acordo com o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), em suas orientações sobre o bem-estar de espécies domésticas, o gato é um animal que preza pela previsibilidade. Quando essa rotina é quebrada, o corpo do animal responde de maneira sistêmica.

Como a causa não é uma bactéria, o uso indiscriminado de antibióticos é ineficaz e perigoso. O tratamento moderno baseia-se na Modificação Ambiental Multimodal (Memo). Este protocolo visa reduzir a carga de estresse sobre o gato, “desligando” a resposta inflamatória da bexiga.

Archivaldo Reche Junior, referência em medicina felina no Brasil, enfatiza a importância do ambiente:

“O tratamento da cistite idiopática é 80% manejo ambiental e 20% medicamentoso. O gato precisa de recursos básicos distribuídos de forma que ele não se sinta ameaçado. Isso inclui a regra do ‘n+1' para caixas de areia (uma caixa para cada gato, mais uma extra) e locais de refúgio onde ele possa se esconder e observar o ambiente de cima.”

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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