Cães em coleira retrátil podem correr mais risco do que tutores imaginam; entenda

Profissionais de saúde e comportamento animal recomendam substituir a guia retrátil por uma guia fixa de comprimento médio ou guias longas de treinamento em locais controlados

A segurança no passeio depende da previsibilidade

Para muitos tutores, a coleira retrátil parece a solução ideal, pois oferece ao cão uma sensação de liberdade e a oportunidade de explorar o ambiente, mantendo-o, teoricamente, sob controle. Mas o que parece um acessório de conveniência é alvo de críticas severas por parte de veterinários, adestradores e órgãos de segurança animal.

Isso porque o uso inadequado desse equipamento pode resultar em lesões graves, tanto para o animal quanto para o condutor, além de comprometer o treinamento do pet.

A Associação Brasileira de Adestradores de Animais (ABAA) e diversos especialistas em comportamento alertam que o mecanismo de “tensão constante” da guia retrátil ensina o cão a puxar. Como explica o educador canino e especialista em comportamento, Dante Camacho, em diretrizes de manejo:

“A guia retrátil é uma das ferramentas que mais geram confusão na comunicação entre o humano e o cão. Diferente da guia fixa, onde o cão entende o limite físico, a retrátil ensina que, para chegar onde quer, ele deve colocar pressão e puxar. Isso anula o aprendizado da caminhada com guia frouxa e aumenta o nível de ansiedade do animal durante o passeio.”

A Itatiaia traz dois pontos de atenção para considerar antes de adquirir uma guia retrátil:

Riscos de lesões por impacto

Um dos maiores perigos está no impacto súbito quando a corda atinge o seu limite máximo. Se o cão corre e a trava é acionada bruscamente, a força do impacto é concentrada inteiramente na coluna cervical do animal se estiver usando coleira de pescoço.

“Vemos casos frequentes de microlesões nas vértebras cervicais e até colapso de traqueia em raças pequenas devido ao tranco seco das guias retráteis”, diz Mônica de Souza, médica veterinária com especialização em ortopedia.

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“O impacto não é distribuído, e a força cinética de um cão de 10 quilos correndo pode causar um trauma equivalente a uma queda ou colisão, gerando dor crônica e problemas neurológicos a longo prazo”.

Controle do pet em situações de perigo

Em situações de risco, como a aproximação de um carro ou um encontro agressivo com outro animal, a guia retrátil falha em oferecer uma resposta rápida. O Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) frequentemente reforça em campanhas de conscientização que o controle direto é a base do passeio seguro.

A dificuldade reside no fato de que o tutor não consegue “trazer” o cão de volta apenas puxando a guia, já que a corda é fina demais para ser segurada com as mãos sem causar queimaduras.

O manual de segurança para tutores da People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), explica que muitos acidentes de trânsito ocorrem porque o cão avança na via enquanto a guia está estendida.

“O tempo de reação para travar e recolher o animal é muito superior ao de uma guia fixa de um metro e meio. No momento do pânico, o tutor tende a segurar a corda com as mãos, resultando em cortes profundos e até amputações parciais de dedos”, alerta o documento.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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