Bertha Maakaroun | Quais são os penduricalhos ilegais do funcionalismo público suspensos por Dino?

Ao analisar ação de procuradores municipais da cidade paulista de Praia Grande, que queriam receber acima do teto, o ministro determinou a suspensão em todos os três Poderes

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu o pagamento de penduricalhos ao funcionalismo público

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que os Três Poderes – Judiciário, Legislativo e Executivo - , suspendam os “penduricalhos” ilegais do serviço público. Quer entender que penduricalhos são esses? Um dos mais polêmicos é a chamada “licença compensatória por trabalho extraordinário”. Funciona assim: imagine que você pudesse acumular licença compensatória de um dia para cada três dias de trabalho extraordinário de modo que, quando alcançasse 30 dias, você escolheria entre gozar o mês adicional de férias ao ano ou converter o pagamento em dinheiro. No popular, você “venderia” esses dias acumulados de “trabalho extraordinário”. Algo como uma escala 3 por 1, com a vantagem de que, sobre ela, não haveria incidência de impostos.

O Congresso Nacional aprovou esta semana, em regime de urgência, dois projetos que concedem reajustes para servidores da Câmara e do Senado e também criam essas gratificações de desempenho que podem alcançar o equivalente a 100% do salário-base dos funcionários. O impacto estimado dos dois projetos no orçamento de 2026 será de R$790 milhões.

Esse é um valor superior, por exemplo, àquele destinado às despesas discricionárias - de manutenção da máquina e investimentos - do Ministério das Mulheres. Essa licença compensatória para o servidor efetivo é um dos pontos mais polêmicos tanto do PL 6070/2925, aprovado pelo Congresso para os servidores do Senado – e já enviado à sanção presidencial – quanto o PL 179/2026, aprovado pela Câmara, que altera o desenho remuneratório e combina reajuste do vencimento básico com essas mudanças em gratificações e adicionais. O PL 179/2026 ainda será votado pelo Senado Federal.

Hugo Motta (Republicanos-PB), que assumiu a presidência da Câmara prometendo aprovar – assim como os seus antecessores – uma reforma de peso, como a administrativa, vai em outra direção. O relator da matéria, deputado Alberto Fraga (PL-DF), sustentou que o impacto fiscal projetado é “baixo” e que a execução caberá ao orçamento já existente, sem necessidade de créditos adicionais.

A chamada “farra de penduricalhos”, como proposta nos dois projetos não está restrita aos servidores legislativos, que poderão ser beneficiados caso não sejam vetados pela Presidência da República. A elite do funcionalismo brasileiro no Judiciário e no Ministério Público já incorporaram esse penduricalho à sua rotina de trabalho e de rendimentos. Flávio Dino comprou a briga contra a farra dos penduricalhos. E a ironia é que a decisão dele foi tomada quando analisava uma reclamação de procuradores municipais da cidade de Praia Grande, em São Paulo, que querem receber acima do teto de sua categoria.

A liminar determinando a suspensão dos penduricalhos concedida por Flávio Dino atinge a todo o funcionalismo do Judiciário, Legislativo, governo federal, estados e municípios. A decisão liminar já valendo até que seja julgada pelo plenário da Corte, que poderá confirmar ou não a posição de Flávio Dino. Entre os penduricalhos que o ministro menciona em sua decisão estão a licença compensatória de 1 dia para cada 3 dias; a gratificação por acúmulo de função; gratificações de acervo processual (premia quem acumula muitos processos); auxílio-combustível; auxílio-educação, auxílio-saúde.

Mas não apenas esses incidem sobre essa elite do funcionalismo que já ganha, como no caso de magistrados e promotores, em média duas vezes acima do teto constitucional de R$ 46.366,00. Em todo o serviço público, há penduricalhos e bônus para dar e vender. Em São Paulo, por exemplo, a procuradoria-geral do município permite que procuradores recebam até R$ 22 mil para adquirir computadores, celulares e outros itens eletrônicos. É o chamado “auxílio iphone”. Os natalinos também são curiosos: “auxílio-panetone” e “auxílio-peru”, são denominações que viram piada, mas nada têm de engraçadas. São inconstitucionais e quem paga essa farra são os contribuintes.

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Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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