Bertha Maakaroun | Como a migração de Caiado do União para o PSD afeta a sucessão mineira?

Saída do governador de Goiás da legenda se alinha com articulação de Davi Alcolumbre para liberar a legenda nos estados, optando entre o apoio a Lula ou a Flávio Bolsonaro

Ronaldo Caiado deixou o União Brasil e desembarcou no PSD de olho nas eleições presidenciais

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado deixou o União porque quer ser candidato à Presidência da República e em momento algum teve sustentação tanto dentro do União quanto do PP, partidos federados.

União e PP estavam de acordo em apoiar a candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, ao Palácio do Planalto. Mas quando a escolha do ex-presidente Jair Bolsonaro se formalizou com o anúncio de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é o nome com o respaldo do pai, no União e no PP as resistências internas se tornaram públicas.

União e PP estão divididos entre o apoio a Flávio Bolsonaro e o apoio a Lula. As duas legendas federadas têm uma característica comum: internamente se organizam em feudos, com diferentes interesses na sucessão presidencial, vinculados à lógica das disputas políticas em cada estado brasileiro. Há governadores que estão alinhados ao governo Lula; e há outros que integram a oposição ao governo federal e ainda decidem se apoiam a Flávio Bolsonaro.

Para alguns líderes, entre eles Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Congresso Nacional, a melhor posição do União na disputa presidencial é não ter candidatura alguma à Presidência da República, o que libera, nos estados, cada grupo político para fazer a coligação e composição política que atenda aos seus interesses. Para Davi Alcolumbre, a saída de Ronaldo Caiado se alinha com esse propósito.

Ao mesmo tempo em que Ronaldo Caiado saiu do União, nesta sexta-feira, 30 de janeiro, Davi Alcolumbre articulou a filiação ao seu partido do governador do Amapá, Clécio Luís, aliado dele, hoje, no Solidariedade. Clécio estará no palanque de Lula no Amapá, que conta também com o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo e o próprio Alcolumbre.

De olho em Minas Gerais, Davi Alcolumbre também está à frente da articulação para a filiação do senador Rodrigo Pacheco (PSD) ao União. Assim como Lula, Alcolumbre quer convencer Rodrigo Pacheco a concorrer ao governo de Minas. Para isso, contudo, Pacheco precisaria ter o controle do União Brasil em Minas Gerais, que hoje é comandado pelo deputado federal Marcelo de Freitas (União), que apoia o vice-governador Mateus Simões. Simões se filiou ao PSD em outubro, em gesto de enfrentamento político a Pacheco, que está na legenda desde outubro de 2021.

Caiado no PSD também tem consequências para a candidatura do governador Romeu Zema (Novo) à Presidência da República. Com essa filiação, o presidente nacional Gilberto Kassab unifica a terceira via, mantendo o controle sobre três dos quatro governadores de oposição que se colocam como pré-candidatos ao Planalto: Ratinho Junior, do Paraná, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul e agora Ronaldo Caiado.

Diante desse cenário, Romeu Zema segue com duas opções: isolado com a sua candidatura à Presidência da República com o pior desempenho entre os governadores de oposição nas pesquisas de intenção de voto; ou adere à chapa que sairá para a corrida presidencial do gabinete de Gilberto Kassab. Se optar por reforçar a chapa de Kassab, como há quatro nomes, dois vão sobrar.

Zema poderá ser vice ou apenas dar apoio, decisão que está fortemente associada tanto à evolução de seu desempenho na disputa presidencial quanto ao desempenho do próprio Mateus Simões na sucessão estadual. Na hipótese de Zema aderir à chapa de Kassab apenas como apoiador, restaria-lhe como alternativa, concorrer ao Senado Federal. Diria Maquiavel: em política, as circunstâncias mudam rapidamente, e quando isso ocorre, ainda mais rapidamente muda a disposição dos homens.

Leia também

Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

Ouvindo...