Presa por pichar estátua em BH diz que ato foi ‘manifestação política, artística e espiritual’

Thabata Pinheiro Campos, que se apresenta como Thata Borun Xonin (etnia indígena da qual faz parte) escreveu na base da estátua da Praça da Estação a inscrição “O Brasil é terra indígena“

Manifestante concedeu entrevista após audiência nesta segunda-feira (15)

A manifestante presa ao pichar a estátua “Monumento à Terra Mineira”, na Praça da Estação, Centro de BH, durante um protesto contra o PL da Dosimetria no último domingo (14), concedeu entrevista coletiva nesta segunda-feira (15) e disse que o ato foi uma manifestação de ancestralidade contra a discussão sobre o marco temporal das terras indígenas em curso no Supremo Tribunal Federal (STF).

Thabata Pinheiro Campos, que se apresenta como Thata Borun Xonin (etnia indígena da qual faz parte) escreveu na base da famosa estátua da Praça da Estação a inscrição “O Brasil é terra indígena”. Em audiência no Juizado Especial Criminal de Belo Horizonte, ela reclamou da truculência das forças de segurança e afirmou que a manifestação foi feita com tinta lavável.

“Foi uma manifestação política, artística e espiritual efêmera. Porque eu sou filha da terra e jamais faria algo para prejudicá-la. A tinta que eu usei foi de spray de cabelo biodegradável a base de água. Ontem, quando eles me prenderam violentamente, eu fui dentro da cadeia cantar pros meus ancestrais para pedir que eles limpassem tudo que tinha que ser limpado”, afirmou.

A promotoria ainda não apresentou denúncia contra a manifestante e o caso foi movido para a área ambiental, onde são julgados os crimes relacionados à pichação.

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Thata está solta desde o domingo pois não foram constatados motivos para converter a prisão em flagrante para prisão preventiva. A defesa da manifestante pediu uma absolvição sumária de sua cliente, alegando, entre outros motivos, que a tinta utilizada é de fácil remoção e foi lavada com a água da chuva que sucedeu a manifestação.

Uma nova audiência será marcada, ainda sem previsão de data.

Sob análise dos ministros do STF, a tese do marco temporal foi aprovada pelo Congresso em 2023 e prevê que os povos indígenas só tenham direito a reclamar seu direito sobre uma terra que já ocupavam em 1988, no momento da assinatura da Constituição Federal.

As críticas à tese apontam que ela desconsidera os séculos de expulsão dos povos indígenas de suas terras originais ao determinar o ano de 1988 como o período determinante para lhes garantir a demarcação.

Thata argumenta que seu protesto contra o estabelecimento do marco temporal é legítimo e cita suas origens indígenas para defender a validade do ato.

“O Brasil é terra indígena. Nossos povos vêm sendo assassinados há 525 anos e eu fiz isso como uma manifestação política, artística e espiritual. Porque a gente está passando por um momento em que temos um Congresso que quer votar o marco temporal [..] Estou honrando a minha ancestralidade quando me manifesto dessa forma para que a gente não continue sofrendo todo o apagamento e toda a violência contra os povos originários, porque o Brasil é um território indígena, depois que eles vieram para cá apagando e exterminando a gente”, defende.

A mulher foi presa em flagrante durante o braço belo-horizontino do ato marcado para dezenas de cidades brasileiras no último domingo. Com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), no foco das críticas, milhares de pessoas saíram às ruas pelo país para protestar contra o chamado PL da Dosimetria, que revê penas aplicadas a condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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