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Atingidos tratam como ‘absurda’ proposta da Vale de parcelar acordo de Mariana em 20 anos

Pela proposta, Vale pagaria R$ 4,1 bilhões ao ano à União e aos governos de Minas e Espírito Santo; valor é 12% do lucro médio dos últimos nove anos

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) classifica como “absurda” a intenção da Vale de parcelar o pagamento do novo acordo de repactuação de Mariana pelos próximos 20 anos. Como mostrou a Itatiaia, com um lucro acumulado de R$ 289 bilhões desde 2015 — ano do rompimento da barragem de Mariana — a Vale propôs pagar aos entes públicos algo em torno de R$ 4 bilhões por ano. Isso representa 12% do lucro médio anual da empresa desde a ocorrência da maior tragédia socioambiental do Brasil.

“Dinheiro essas mineradoras têm. E é absurdo que quase nove anos depois, a gente ainda esteja discutindo se eles vão repassar os recursos por mais 12 anos”, diz a integrante da Coordenação Nacional do MAB, Letícia Oliveira sobre o prazo proposto pelo poder público. “Na verdade, o valor deveria ser muito maior que esse, fala-se em R$ 500 bilhões, para, de fato, conseguir fazer a reparação toda que é necessária em toda bacia do Rio Doce e isso tem que ser pago agora, não dá para ficar parcelando. É mais sofrimento para os atingidos”, critica.

Em uma sociedade com a empresa anglo-australiana BHP Billiton, a Vale é proprietária da Samarco, dona da barragem que se rompeu, matou 19 pessoas e despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério na bacia do Rio Doce, atingindo, diretamente, mais de 40 municípios.

Pela proposta apresentada ao governo federal e aos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a mineradora se comprometeu com o pagamento de R$ 103 bilhões — destes, apenas R$ 82 bilhões entrariam nos cofres dos entes públicos, e divididos em 20 anos.

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Atingidos cobram R$ 500 bilhões

Respeitando os critérios que a Vale concordou ao pagar R$ 37,7 bilhões pelo acordo da tragédia de Brumadinho, o MAB defende que a mineradora deveria pagar R$ 500 bilhões pelos danos causados na bacia do Rio Doce e de parte do litoral capixaba.

“Entendemos que, pelo valor que a Vale já aceitou pagar em Brumadinho, pelo tamanho do rompimento da barragem de Fundão, que atingiu 40 municípios e pelo tempo — são quase nove anos — chega-se ao cálculo de R$ 500 bilhões para as empresas pagarem hoje. Temos que pensar, ainda, nos danos futuros”

Desde 2015, a Vale registrou o maior lucro líquido em 2021, quando ao cifra anunciada ao mercado chegou a R$ 121,2 bilhões. No ano seguinte obteve o segundo melhor resultado: R$ 95,9 bilhões. No ano passado, a mineradora fechou o caixa com lucro de quase R$ 40 bilhões — o quarto melhor resultado da série.

Enquanto isso, os atingidos ainda não foram integralmente reparados. A punição aos responsáveis também se arrasta na justiça. Nove anos depois, ninguém está preso por envolvimento no rompimento, que é considerado a maior tragédia ambiental do Brasil.


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Repórter de política na Rádio Itatiaia. Começou no rádio comunitário aos 14 anos. Graduou-se em jornalismo pela PUC Minas. No rádio, teve passagens pela Alvorada FM, BandNews FM e CBN, no Grupo Globo. No Grupo Bandeirantes, ocupou vários cargos até chegar às funções de âncora e coordenador de redação na BandNews FM BH. Na televisão, participava diariamente da TV Band Minas e do BandNews TV. Vencedor de 8 prêmios de jornalismo. Já foi eleito pelo Portal dos Jornalistas um dos 50 profissionais mais premiados do Brasil.
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