A cerca de um ano e meio das eleições municipais de 2024, o Partido dos Trabalhadores (PT) já começa a debater a estratégia a ser adotada na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Neste momento, segundo apurou a Itatiaia, lideranças de diferentes correntes são simpáticas à ideia de lançar uma candidatura própria.
A hipótese está amparada no “legado” das gestões anteriores da legenda na cidade. O fato de o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ser filiado à agremiação também é levado em consideração.
Embora a construção de uma chapa encabeçada pelo PT seja bem avaliada, interlocutores não descartam uma aliança a postulantes de outros partidos, como o prefeito Fuad Noman (PSD) —
O partido deve montar um grupo de trabalho (GT) para conversar sobre as táticas municipais. Depois dos debates internos, as conversas com outras siglas vão ser intensificadas.
O primeiro passo da etapa externa será tratar com PCdoB e PV, que compõem a federação “Brasil da Esperança”, liderada pelo PT. Pelas regras eleitorais, as forças da coalizão devem caminhar juntas em todas as cidades brasileiras no ano que vem.
“Sem dúvida, o desejo que surge das bases é por candidatura própria, por saber e conhecer o tamanho do PT na construção da democracia brasileira”, diz, à Itatiaia, o presidente da agremiação em BH, Guima Jardim.
“O presidente Lula representa, para nós, a retomada dessa democracia. Com isso, temos a responsabilidade e o entendimento de que o PT não descarta o apoio a candidatura de outro partido, muito embora o desejo latente seja por candidatura própria”, completa.
Além de comunistas e verdes, o PT quer ampliar o cordão de alianças e planeja abrir tratativas com outros partidos à esquerda, como Psol e Rede Sustentabilidade. Legendas do centro à centro-esquerda que estão na base aliada a Lula, a exemplo do PSB, também vão ser consultadas.
Presidente do PT mineiro, o deputado estadual Cristiano Silveira afirma que o partido quer construir as condições ideais para liderar uma chapa em Belo Horizonte, mas pondera que o martelo só será batido mais à frente, quando a conjuntura eleitoral estiver consolidada.
“Temos toda a condição de apresentar nomes. Não vamos impor nada. (São) nomes para a gente abrir a discussão”, explica.
‘Unificação’ do partido é meta
O último petista a disputar a PBH foi Nilmário Miranda, em 2020. Hoje Assessor Especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, ele terminou a disputa em 5° lugar. À época, o partido não firmou alianças e esteve nas urnas com chapa “puro-sangue”.
O nome de Nilmário acabou escolhido em uma votação interna. Rogério Correia, cotado para a eleição do próximo ano, participou das prévias, mas acabou derrotado. Vice-líder do governo Lula na Câmara dos Deputados, o parlamentar não descarta concorrer à sucessão de Fuad, mas prega unidade.
“Avalio, sim, colocar meu nome, desde que isso unifique o PT. E, a partir daí, construir um programa com todas as forças políticas que se articulam em torno de Belo Horizonte”, assinala.
Os petistas chegaram a ter seis representantes na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH). Hoje, têm apenas dois dos 41 assentos. O desempenho na etapa mineira da eleição do ano passado, porém, é considerado positivo. O diretório estadual elegeu 10 deputados federais e 12 integrantes da Assembleia Legislativa. Os números podem pesar a favor de uma candidatura própria.
“O PT é um partido grande, com grandes bancadas federais e estaduais. O presidente Lula tem tido boa avaliação em Minas e venceu no estado”, pontua Cristiano Silveira.
‘Legado’ na ponta da língua
Citações aos períodos do PT na Prefeitura de Belo Horizonte são recorrentemente feitas por filiados para defender a necessidade de protagonismo do pleito do próximo ano. O partido elegeu Patrus Ananias em 1992 e, em 2004, venceu com Fernando Pimentel.
Houve, ainda, a união a Célio de Castro, que venceu a corrida rumo ao prédio da Avenida Afonso Pena em 1996 e 2000 pelo PSB, mas posteriormente se mudou ao PT. No primeiro triunfo de Célio, a legenda de Lula não o apoiou — optou por Virgílio Guimarães. Na reeleição, porém, esteve na chapa ganhadora.
“O PT tem um legado importante na cidade. Governamos a cidade com Patrus Ananias, e foi uma gestão de muita participação popular e uma efervescência social muito grande. (Houve a) reconstrução de Belo Horizonte através de Lei Orgânica, Plano Diretor e Lei de Uso e Ocupação do Solo”, fala Rogério Correia, que também cita os sucessores de Patrus.
“Célio de Castro, por exemplo, foi quem iniciou o processo da bolsa escola, que hoje é o Bolsa Família de Lula. E, depois, Fernando Pimentel, já com o governo Lula, com muitas obras de infraestrutura e moradia popular”, continua.
A ideia da direção do partido é, justamente, utilizar os governos que comandou como espécie de “baliza” para definir os rumos.
“Com essa experiência, vamos dar início a um processo de avaliação das políticas públicas implantadas na capital, de forma territorial, mas também as políticas ambientais, moradia, emprego, renda e segurança pública”, projeta Guima Jardim.
A equação em prol da candidatura própria pode ganhar, ainda, novo fator: a iminência de uma candidatura alinhada a Jair Bolsonaro. O partido do ex-presidente, o PL, se articula
Na opinião de interlocutores ouvidos pela reportagem, a presença de uma força à direita pode contribuir para a polarização da disputa, tal qual aconteceu na eleição presidencial do ano passado. Nesse cenário, o PT ganharia força como contraponto ao bolsonarismo.
Em outra frente, quem também se movimenta para concorrer à Prefeitura de BH é o senador Carlos Viana (Podemos). Ele tem o ex-deputado federal Leonardo Quintão, do MDB,
Conversas ‘em casa’ são essenciais
Quadros ligados ao PT têm espaço na administração de Fuad Noman, que apoiou Lula no segundo turno contra Bolsonaro. A avaliação, neste momento, é que um eventual apoio ao prefeito do PSD não pode ser norteado apenas por uma eventual proximidade a Lula. É preciso, antes, construir localmente uma aliança.
No mês passado, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann,
“Precisamos de disposição para os desafios eleitorais que temos pela frente. Então, a presença é para conversar com o PT, com nossos dirigentes e deputados. Tratar da estratégia para a próxima eleição e da organização partidária. A gente vai ter várias plenárias agora, no segundo semestre, para essa organização dos diretórios municipais”, vislumbrou.