Ouvindo...

Mudança do clima facilita o aumento da população de ratos urbanos; entenda

Especialistas alertam que o fenômeno não é pontual, e sim um reflexo das transformações ambientais em curso

A ascensão de “espécies oportunistas”, como os ratos, evidencia a fragilidade dos ecossistemas e a urgência de ações para enfrentar as causas estruturais da crise climática

Enquanto a crise climática ameaça espécies e ecossistemas em todo o planeta, alguns animais parecem prosperar nesse novo cenário, como por exemplo os ratos.

Com o aumento das temperaturas, mudanças nos ciclos de chuva e invernos menos rigorosos, esses roedores vêm expandindo seus territórios e aumentando suas populações em diversos ambientes, especialmente nas cidades.

De acordo com um estudo da University College London (UCL), roedores como o rato-preto (Rattus rattus) e o rato-marrom (Rattus norvegicus) demonstram boa capacidade de adaptação a contextos urbanos em transformação.

O aquecimento global tem proporcionado condições ideais para reprodução ao longo de todo o ano, além de ampliar a oferta de alimentos em ambientes degradados.

“Espécies oportunistas como ratos tendem a se beneficiar do distúrbio ecológico causado pelas mudanças climáticas. Isso pode resultar em desequilíbrio de populações e aumento de conflitos com humanos”, afirmou a bióloga Danielle Buttke, do Serviço Nacional de Parques dos EUA, em entrevista à National Park Service.

Adaptação urbana favorece o avanço da espécie

Com maior acesso a lixo, esgoto exposto e restos de alimento, e redução de predadores naturais em centros urbanos, os ratos encontram condições ideais para reprodução.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que essas alterações trazem implicações sanitárias relevantes, já que os roedores são vetores de doenças como leptospirose, salmonelose e hantavirose.

Estudos recentes do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) mostram que roedores nativos também vêm se expandindo em áreas antes dominadas por outros mamíferos, devido a mudanças na vegetação e no clima.

Isso afeta o equilíbrio ecológico, impactando diretamente espécies vulneráveis e a saúde dos ecossistemas.

“A proliferação de espécies oportunistas é um sinal de alerta. Mostra como o ambiente está sendo degradado e favorece animais que não deveriam dominar esses espaços”, destaca o pesquisador Fernando Fernandez, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Proliferação exige monitoramento e prevenção

O aumento da população de ratos representa um risco crescente à saúde pública e exige ações coordenadas entre poder público, cientistas e sociedade.

Além do controle populacional, é preciso atuar sobre as causas: descarte irregular de resíduos, ausência de saneamento e mudanças nos padrões climáticos que favorecem esses animais.

Algumas medidas ajudam a conter esse avanço:

  • Reforçar a coleta e o descarte correto de lixo orgânico e reciclável;
  • Eliminar focos de água parada e entulho, que servem de abrigo e alimento;
  • Investir em saneamento básico e drenagem urbana eficiente;
  • Promover campanhas de conscientização sobre higiene e prevenção de doenças;
  • Monitorar áreas de risco com apoio técnico e científico.
Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.