Fugas, brigas e doenças contraídas em hotéis e creches para pets: o que o tutor deve fazer

Em caso de irregularidades ou falta de transparência por parte do estabelecimento, o tutor deve buscar reparação cabível; saiba mais

Caso algo dê errado, o tutor deve agir de forma estratégica para garantir a reparação de danos materiais e morais

Quando um tutor entrega um pet a uma creche e hotelzinho, isso configura, perante a legislação brasileira, um contrato de depósito e uma prestação de serviço de muita responsabilidade. Assim que o tutor deixa o pet no estabelecimento, a direção assume o dever de incolumidade, que significa a obrigação legal de devolver o pet ao tutor exatamente nas mesmas condições de saúde e integridade em que ele foi recebido.

Quando esse pacto de confiança é quebrado por incidentes como fugas, machucados em brigas ou doenças contraídas no local, o tutor é amplamente amparado pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC).

De acordo com o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), os estabelecimentos pet são obrigados a manter um médico-veterinário como Responsável Técnico (RT), profissional que responde eticamente por garantir que o ambiente seja livre de riscos e que os protocolos de manejo sejam seguidos à risca.

A base jurídica para resolver esse tipo de situação está na “Responsabilidade Objetiva”, prevista no Artigo 14 do CDC. Isso significa que, em caso de dano, o estabelecimento responde independentemente da existência de culpa ou da intenção de errar; basta que o tutor comprove que o incidente ocorreu enquanto o animal estava sob a guarda da empresa.

Cláudia Nakano, advogada especialista em Direito Animal e Saúde, esclarece que a proteção ao consumidor é rigorosa contra cláusulas contratuais abusivas. Segundo a especialista, muitas creches tentam se eximir de culpa inserindo termos em que dizem não se responsabilizar por acidentes, mas “qualquer cláusula que exclua a responsabilidade da empresa por danos ao animal é considerada nula de pleno direito, pois o estabelecimento assume o risco do negócio ao cobrar pelo serviço de vigilância e cuidado”.

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Caso algo dê errado, o tutor deve agir de forma estratégica para garantir a reparação de danos materiais e morais.

O primeiro passo é buscar assistência veterinária imediata, preferencialmente em uma clínica de confiança e imparcial, e solicitar um laudo detalhado que descreva as lesões ou sintomas. Na sequência, deve-se reunir evidências, como fotos, vídeos e cópias de conversas em aplicativos de mensagens que comprovem a falha na prestação do serviço.

A Justiça hoje, inclusive em decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ), já reconhece que os animais são seres sencientes e que o vínculo afetivo gera um direito à indenização por danos morais que vai muito além do valor de mercado do animal.

Se a empresa se recusar a arcar com os custos hospitalares ou omitir informações, o tutor tem o direito de registrar um boletim de ocorrência e formalizar uma denúncia no Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), que fiscalizará a conduta do Responsável Técnico.

Para evitar que a situação chegue ao Judiciário, o tutor pode utilizar algumas estratégias de prevenção e registro que servem como prova em eventuais disputas. A Itatiaia listou as principais delas:

  • Exija um documento assinado que detalhe as obrigações da creche, incluindo horários de monitoria e protocolos de emergência.
  • Registre em vídeo o estado do cão no momento da entrega, demonstrando a ausência de lesões prévias.
  • Priorize locais com câmeras em tempo real e saiba que, em caso de incidente, você tem o direito legal de solicitar as gravações.
  • Caso a empresa se recuse a pagar despesas médicas, o envio de uma notificação formal via cartório ou e-mail com aviso de recebimento é o primeiro passo para uma ação judicial.
  • Evite acordos apenas verbais. Formalize feedbacks sobre comportamentos estranhos ou sinais de estresse notados em casa após o daycare.
Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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