Hamster não vive em gaiola pequena: o erro mais comum que encurta a vida do roedor

Para um animal que, na natureza, percorre quilômetros em uma única noite, uma gaiola minúscula não é um lar, mas uma barreira para seus instintos mais básicos

Gaiolas de vários andares conectadas por tubos plásticos, embora pareçam divertidas para humanos, são inadequadas para a ventilação e para a locomoção natural

No imaginário popular, o hamster é o pet “perfeito” para espaços pequenos, embora passem a maior parte do tempo confinado em gaiolas coloridas e plásticas vendidas em pet shops comuns.

A ciência do bem-estar animal tem provado, porém, que o alojamento padrão oferecido a esses roedores é, na verdade, uma das principais causas de estresse crônico, doenças e redução drástica da expectativa de vida.

Para um animal que, na natureza, percorre quilômetros em uma única noite, uma gaiola minúscula não é um lar, mas uma barreira para seus instintos mais básicos.

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), em suas diretrizes sobre a manutenção de animais de estimação, reforça que o ambiente deve permitir que o animal expresse seu comportamento natural. Para hamsters, isso inclui escavar, correr e explorar.

Os tutores não devem subestimar a necessidade de espaço horizontal. Gaiolas de vários andares conectadas por tubos plásticos, embora pareçam divertidas para humanos, são inadequadas para a ventilação e para a locomoção natural.

O médico-veterinário Alessandro de Oliveira, especialista em animais silvestres e exóticos, alerta para as consequências fisiológicas do confinamento restrito:

“O confinamento em espaços reduzidos gera um estado de estresse constante que eleva os níveis de cortisol, enfraquecendo o sistema imunológico do roedor. Além disso, a falta de espaço para se exercitar leva à obesidade e a problemas articulares. Muitos tutores confundem a apatia do animal com ‘mansidão’, quando na verdade o hamster pode estar sofrendo de um quadro de depressão por privação sensorial ou até a chamada paralisia de gaiola, causada pela falta de estímulo motor.”

Leia também

O padrão ouro: espaço contínuo e escavação

Entidades internacionais de proteção aos roedores, como a Hamster Society, do Reino Unido, e a TVT (Tierärztliche Vereinigung für Tierschutz), da Alemanha, estabelecem parâmetros mínimos de área de base (espaço contínuo no chão) que são ignorados pela maioria das fabricantes de gaiolas.

De acordo com o manual de bem-estar da TVT alemã, referência mundial no manejo desses animais:

“O alojamento mínimo para um hamster, independentemente da espécie, deve ter uma área de base contínua de, no mínimo, cinco mil centímetros quadrados (por exemplo, 100 x 50 centímetros). Mais importante que a altura é a profundidade do substrato. Hamsters são animais fossoriais; eles precisam de pelo menos 15 a 20 centímetros de forração para cavar túneis e tocas, comportamento essencial para que se sintam seguros e durmam adequadamente.”

Muitas gaiolas pequenas vêm com rodas de plástico minúsculas. O uso de uma roda com diâmetro insuficiente força o hamster a curvar a coluna para trás enquanto corre, causando danos irreversíveis à medula espinhal.

O especialista em pequenos mamíferos e adestramento de animais, Dante Camacho, enfatiza que o enriquecimento deve ser seguro:

“A roda de exercício deve ser grande o suficiente para que o hamster corra com a coluna totalmente reta. Para um Hamster Sírio, isso significa uma roda de pelo menos 28 cm de diâmetro. Além disso, rodas com grades ou malhas são perigosas, pois podem prender as patas e causar fraturas. O ideal é uma superfície sólida e antiderrapante.”

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

Ouvindo...