Relatos da fronteira: venezuelanos narram realidade que motiva fuga para o Brasil

Com país natal em crise, venezuelanos relatam desvalorização da moeda local e fome como uma ameaça crescente

David Camero vive no Brasil há nove anos e foi á fronteira com a Venezuela receber o sobrinho

Cinco dias após a operação militar dos Estados Unidos em Caracas que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, a fronteira do Brasil com o vizinho sul-americano segue movimentada.

Nesta quarta-feira (7), a reportagem da Itatiaia conversou com venezuelanos que compõem o fluxo de imigrantes que passam por Pacaraima, em Roraima, cidade na fronteira do Brasil com a Venezuela. Nos relatos, eles contam o que os motivou a deixarem seu país natal.

“Para migrar para cá, tive que vender alguns bens que tinha em casa, meu computador, minha bicicleta, muitas coisas que me custaram muito sacrifício mas que, pela situação que a Venezuela está, tive que sair do meu país”, afirmou Eliecer Arturo Pita, que era jardineiro no Instituto Nacional de Servicios Sociales (Inas) em seu país natal.

As reclamações sobre a desvalorização do bolívar, a moeda local, são uma constante entre os refugiados. A situação, que já era periclitante há ao menos uma década, piorou desde a deposição de Maduro.

O salário mínimo na Venezuela segue fixado em 130 bolívares mensais, mas com a depreciação da moeda, o valor que correspondia a cerca de R$ 160 em 2022, hoje vale a cerca de R$ 2,34.

David Camero vive no Brasil há nove anos e recebeu seu sobrinho, recém saído da Venezuela, em Pacaraima. Ele destacou a desvalorização da moeda como um fator crucial para que sua família deixasse o país natal e buscasse novas oportunidades no Brasil.

“O Bolívar aqui não vale nada. Algo como 150 bolívares velem 1 real. Venezuelano faz qualquer coisa, não tem algo específico. O salário mínimo na Venezuela são 4 dólares por semana, uns 16 dólares por mês. Dá para comprar uma cartela de ovos, frango. Não dá para manter uma família”, declarou.

Camero e o sobrinho recém-chegado a Roraima fazem parte de uma comunidade de 733 mil venezuelanos vivendo no Brasil, segundo dados da Plataforma de Coordenação Interagencial para Refugiados e Migrantes da Venezuela (R4V), atualizados em novembro do ano passado.

A plataforma que reúne dados da Organização das Nações Unidas (ONU), ONGs e grupos religiosos mostram que o Brasil é o quarto país que mais recebeu refugiados venezuelanos. Ao todo, mais de 8 milhões de nascidos na Venezuela saíram de sua terra natal.

Veja a lista dos países com mais imigrantes venezuelanos:

  1. Colômbia: 2,8 milhões
  2. Peru: 1,7 milhão
  3. Estados Unidos: 987,6 mil
  4. Brasil: 732,3 mil
  5. Chile: 669,4 mil
  6. Espanha: 602,5 mil
  7. Equador: 440,4 mil
  8. Argentina: 174,8 mil
  9. México: 106 mil
  10. República Dominicana: 99,7 mil

Prisão de Maduro

Nicolás Maduro foi detido na madrugada de sábado (3) em Caracas e foi levado aos EUA junto da esposa Cilia Flores, primeira-dama da Venezuela. O casal é acusado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos por crimes como narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e porte ilegal de armas.

Nesta segunda-feira (5), Maduro se apresentará a um juiz americano em Nova York, que o notificará formalmente sobre as acusações.

Apesar das justificativas calcadas no combate ao narcotráfico, o tema ficou em segundo plano nas declarações de Trump repercutindo a operação na Venezuela.

Em entrevista coletiva realizada horas após a prisão de Maduro, o americano indicou que controlaria temporariamente o governo do país sulamericano e regularia a produção de petróleo venezuelana.

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Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista de política da Itatiaia e podcaster no “Abrindo o Jogo”. Mestre em ciência política pela UFMG e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México). Na Itatiaia desde 2006, já foi apresentadora e registra no currículo grandes coberturas nacionais, internacionais e exclusivas com autoridades, incluindo vários presidentes da República. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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