A cistite em gatos machos deixa de ser um desconforto urinário e se torna uma corrida contra o relógio no momento em que ocorre a obstrução da uretra. Diferente das fêmeas, que têm uma uretra curta e larga, a anatomia do macho tem um canal estreito e longo, o que facilita o entupimento por cristais, muco ou sedimentos.
Quando o gato é impedido de urinar, as toxinas que deveriam ser expelidas retornam para a corrente sanguínea, causando um colapso metabólico em poucas horas. Segundo o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), o atraso no socorro médico em casos de obstrução é uma das principais causas de morte evitável em felinos.
“O reconhecimento imediato de sinais de dor e a busca por assistência profissional são vitais. A obstrução uretral é uma urgência que pode levar ao óbito por complicações sistêmicas, como insuficiência renal aguda e arritmias cardíacas, em um período de 24 a 48 horas”, reforça a entidade em diretrizes de bem-estar.
O perigo real da obstrução não reside apenas na dor local, mas na alteração química do sangue. Dennis Chew, professor emérito da Ohio State University e um dos maiores urologistas veterinários do mundo, detalha esse processo em seus estudos sobre a Doença do Trato Urinário Inferior dos Felinos:
“A incapacidade de excretar urina leva rapidamente à hipercalemia, que é o aumento perigoso dos níveis de potássio no soro. O potássio elevado é cardiotóxico; ele altera a condução elétrica do coração, resultando em bradicardia severa e, eventualmente, parada cardíaca. Antes mesmo de pensarmos em desobstruir a uretra, nossa prioridade clínica absoluta é estabilizar os eletrólitos para salvar a vida do animal.”
No Brasil, Archivaldo Reche Junior, professor da USP e referência em medicina felina, corrobora essa urgência em suas palestras técnicas pela CATP (Conferência Brasileira de Medicina Felina):
“Muitos tutores chegam ao consultório achando que o gato está com prisão de ventre porque ele faz força na caixa de areia. Essa confusão é fatal. O gato obstruído está sofrendo uma autointoxicação. A bexiga distendida causa dor excruciante e, se não for esvaziada por meio de cateterização profissional, pode sofrer ruptura ou causar danos permanentes aos rins.”
Como identificar a emergência
A International Society of Feline Medicine (ISFM), em seu guia de cuidados para tutores, lista os sinais que exigem ida imediata ao hospital veterinário:
- Tentativas improdutivas: o gato entra e sai da caixa de areia repetidamente, fazendo força, mas sem produzir urina (ou saindo apenas gotas com sangue).
- Vocalização intensa: gritos ou miados agudos de dor enquanto o animal tenta urinar.
- Lamber a genitália: o gato lambe o pênis de forma obsessiva devido à irritação e dor local.
- Alteração de postura: o animal fica curvado por longos períodos.
- Prostração e vômito: quando as toxinas atingem níveis críticos, o gato fica apático, para de comer e começa a vomitar, indicando um quadro de uremia avançada.