Saiba identificar se o cão realmente gosta da creche que frequenta

O erro mais comum dos tutores é acreditar que um cão que chega em casa e ‘apaga’ por horas amou a experiência

Saber ler os sinais que o cão emite é a única forma que o tutor tem para garantir que o investimento na creche não esteja prejudicando a saúde mental do animal

A popularização das creches caninas trouxe uma solução prática para tutores urbanos, mas gerou um dilema ético e comportamental: nem todo cão possui o perfil para o convívio em grupos de alta intensidade.

O que muitos vendem como “o recreio perfeito” pode ser, para alguns animais, um ambiente de estresse crônico e medo. Saber ler os sinais que o cão emite é a única forma que o tutor tem para garantir que o investimento na creche não esteja prejudicando a saúde mental do animal.

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), em seus guias de conduta e bem-estar, reforça que a liberdade de expressar comportamentos naturais não significa exposição forçada ao estresse. O bem-estar animal é definido pela capacidade do indivíduo de se adaptar ao seu ambiente sem sofrimento.

O erro mais comum dos tutores é acreditar que um cão que chega em casa e “apaga” por horas amou a experiência. No entanto, existe uma linha tênue entre o cansaço físico e o colapso por fadiga sensorial.

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O educador canino Dante Camacho, referência em adestramento positivo e manejo de grupos, explica que o tutor deve observar o comportamento pós-creche:

“Um cão que se divertiu chega em casa relaxado e dorme de forma tranquila. Já o cão que sofreu estresse crônico na creche apresenta uma exaustão diferente: ele pode ficar reativo a sons, ter dificuldade em relaxar profundamente ou demonstrar apatia excessiva”, explica.

“Se o seu cão volta da creche e não quer nem interagir com a família, ele pode estar em um estado de ‘shutdown’ emocional, tentando se recuperar de um ambiente que foi invasivo demais para ele.”

Sinais de que o cão não está adaptado

A etologia canina descreve sinais sutis de que a creche está sendo um fardo. De acordo com a FBAA (Federação Brasileira de Adestramento Animal), os tutores devem monitorar:

  • O cão que amava o local e passa a “travar” na porta ou demonstrar sinais de ansiedade ao ver o carro da creche.
  • Recusa em comer após o dia de creche ou sede excessiva (que pode indicar que ele não se sentiu seguro para beber água perto dos outros cães).
  • O cão começa a rosnar ou avançar em outros cães durante o passeio comum, sinal de que o nível de tolerância social foi esgotado na creche.

O especialista em comportamento animal Alexandre Rossi, em suas diretrizes de convivência, enfatiza que a creche deve ser uma parceira do tutor:

“Se a creche ignora o feedback do tutor ou não possui um protocolo de descanso individualizado, ela está falhando tecnicamente. O primeiro passo é solicitar o cronograma de ‘siesta’. Se o local deixa os cães soltos 100% do tempo sem supervisão ativa para interromper brincadeiras brutas, o risco de traumas é altíssimo. Se a comunicação não flui, a única solução segura é retirar o animal do local.”

Por fim, nem todo cão é “de creche”. Animais mais introspectivos, idosos ou com dificuldades de socialização se beneficiam muito mais de outras modalidades de cuidado.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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