Alerta para as férias: como identificar ‘red flags’ em creches e hotéis para cães

A alta na procura durante as férias leva a abertura de estabelecimentos sem o preparo técnico necessário; saiba mais

Locais que aceitam qualquer cão, a qualquer momento, sem uma avaliação comportamental prévia e sem separação por porte/energia, estão dando sorte para o desastre.

A escolha de uma creche ou hotel para cães exige que o tutor seja um “fiscal” atento. O crescimento do setor de cuidados e hospedagem de pets no Brasil levou o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) a publicar diretrizes rigorosas sobre a responsabilidade técnica nesses locais. Segundo o Manual de Responsabilidade Técnica do CFMV, a falta de um médico-veterinário que responda pelo local é a primeira e mais grave “bandeira vermelha”, pois é este profissional quem garante o controle de zoonoses e o bem-estar coletivo.

Esses e outros sinais de alerta, antes ou durante a estadia do cão na creche, devem estar no radar dos tutores para evitar traumas psicológicos e acidentes físicos com o pet. A Itatiaia listou algumas “red flags” (bandeiras vermelhas) para auxiliar o momento de escolha pelo estabelecimento:

A omissão de incidentes

Um grande sinal de alerta é a ausência de relatos negativos. Cães são animais sociais e interações geram conflitos. O especialista em comportamento animal Alexandre Rossi, em entrevista ao G1, alerta para a falsa sensação de perfeição:

“Se a creche nunca relata um desentendimento, ou se diz que o cão se comportou perfeitamente todos os dias, há algo errado. O bom estabelecimento é transparente sobre o comportamento do animal, inclusive relatando se ele ficou triste, se não comeu ou se teve um desentendimento com outro cão.”

O odor e a higiene

O cheiro do ambiente também diz muito. De acordo com o CRMV-SP, em seus guias de orientação para estabelecimentos pet, o uso de produtos adequados é obrigatório para evitar a propagação de viroses como a parvovirose.

Se o local tem um cheiro forte de urina ou, pelo contrário, um perfume excessivo, pode estar ocorrendo falha na desinfecção. O manual técnico orienta que a limpeza deve ser feita com compostos que não agridam o olfato sensível dos cães, como o hipoclorito de sódio em concentrações controladas ou quaternária de amônia.

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A falta de monitoria

Muitas creches mantêm os animais soltos, mas sem supervisão direta. A Federação Brasileira de Adestradores de Animais (FBAA) reforça em seus comunicados que o monitor não deve ser apenas um “faxineiro” da área, mas um observador treinado.

O educador canino Dante Camacho, referência em adestramento positivo, explica em seus materiais educativos e cursos sobre manejo de grupos que a principal “red flag” é a falta de intervenção preventiva:

“Um grupo de cães sem monitoria ativa é uma bomba-relógio. O monitor deve ser capaz de ler os sinais de estresse, como o lamber de focinho ou o rabo baixo antes que a briga aconteça. Se você vê apenas um funcionário para 20 ou 30 cães, a segurança está seriamente comprometida.”

Mudança de comportamento em casa

O termômetro mais real é o próprio cão. Se ao chegar perto da creche o animal apresenta sinais de medo ou se, ao voltar para casa, apresenta sede extrema ou apatia que dura mais de 24 horas, o manejo pode estar sendo inadequado.

Especialistas da Fear Free Pets (certificação internacional de bem-estar) destacam que o cão não deve sofrer “fadiga por estresse": “Muitos tutores acham que o cão voltando ‘exaurido’ é sinal de que brincou muito. Na verdade, pode ser sinal de que o ambiente é barulhento demais e o cão não teve momentos de descanso garantidos, o que eleva o cortisol a níveis prejudiciais”.

Mistura de portes e falta de triagem

Locais que aceitam qualquer cão, a qualquer momento, sem uma avaliação comportamental prévia e sem separação por porte/energia, estão dando sorte para o desastre. Um cão de 30 quilos, por exemplo, pode ferir letalmente um de cinco quilos em uma brincadeira desajeitada.

Checklist de inspeção:

  • Certificado do CRMV: deve estar exposto na recepção com o nome do Veterinário Responsável Técnico.
  • Proporção monitor/cães: o ideal aceito por associações de comportamento é de um monitor para cada 10 a 15 cães, dependendo do porte e energia deles.
  • Triagem real: o local aceitou seu cão sem um teste de sociabilização ou sem pedir a carteira de vacinas? Suspeite.
  • Climatização: áreas de descanso com ventilação e temperatura controlada, especialmente em meses quentes como janeiro.
  • Troca constante de funcionários: a alta rotatividade da equipe impede que os monitores conheçam a fundo a personalidade de cada cão.
Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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