A embalagem da ração pode ser atraente, exibindo fotos de carnes suculentas e vegetais frescos, mas a verdadeira qualidade do alimento está escondida em um parágrafo de letras miúdas: a lista de ingredientes.
No Brasil, a rotulagem de alimentos para animais de estimação é regulamentada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que exige transparência, embora a linguagem técnica muitas vezes confunda os tutores. Aprender a ler o rótulo é a única forma de garantir que você não está comprando “milho com aroma de carne” pelo preço de uma dieta nobre.
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), o rótulo é um documento legal. O Guia de Boas Práticas da associação reforça que todas as informações devem ser verificáveis, mas cabe ao consumidor entender a hierarquia dessas informações.
A Itatiaia listou alguns pontos de atenção para os tutores de pets:
A ordem dos ingredientes
A primeira coisa que você deve saber é que os ingredientes não estão em ordem aleatória. Eles devem ser listados em ordem decrescente de peso. Isso significa que o primeiro ingrediente da lista é o que está presente em maior quantidade no momento da fabricação.
“Se o primeiro ingrediente do rótulo for ‘milho integral moído’ ou ‘farelo de soja’, aquela ração tem uma base predominantemente vegetal e carboidrática”, diz Márcio Brunetto, médico-veterinário, nutrólogo e professor da USP.
“Para cães e gatos, o ideal é que os primeiros itens da lista sejam fontes de proteína de origem animal, como ‘farinha de vísceras de aves’ ou ‘carne mecanicamente separada’, que possuem um perfil de aminoácidos mais completo para a espécie”.
Proteína real vs. subprodutos: qual a diferença?
Um dos termos que mais gera dúvidas é a “farinha de vísceras”. O nome assusta, mas ela pode ser nutricionalmente superior a uma “carne fresca” que perde 70% de seu peso (água) durante o cozimento.
Vivian Pedrinelli, médica-veterinária nutróloga também da USP, esclarece a terminologia técnica: “O tutor deve buscar por fontes de proteína de alta digestibilidade. Termos como ‘subprodutos’ ou apenas ‘proteína hidrolisada’ sem especificar a origem podem mascarar ingredientes de menor valor biológico”, resume.
“Já a ‘farinha de carne e ossos’ geralmente indica uma matéria-prima com maior teor de cinzas (minerais), o que nem sempre é desejável para animais idosos ou com tendência a cálculos renais.”
O triângulo amarelo e os aditivos químicos
Você já reparou em um pequeno triângulo amarelo com a letra “T” na embalagem? Ele indica a presença de ingredientes transgênicos, como milho e soja modificados. O uso de transgênicos é autorizado pelo Mapa, mas muitos tutores optam por dietas “Grain Free” ou livres de transgênicos para evitar resíduos de agrotóxicos específicos usados nessas culturas.
Além disso, atenção aos conservantes. O padrão de mercado por décadas utilizou os antioxidantes sintéticos BHA e BHT. Mas diretrizes da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) mostram uma tendência global pela substituição por conservantes naturais.
“A presença de ‘extrato de alecrim’ ou ‘concentrado de tocopheróis’ (Vitamina E) indica um produto que utiliza tecnologia de conservação natural, geralmente associado a rações de categoria Super Premium, que visam reduzir a carga química no organismo do pet a longo prazo”, relata Pedrinelli.
Níveis de garantia
Além dos ingredientes, existe uma tabela chamada “Níveis de Garantia”. Nela, os tutores devem focar em três pontos principais:
- Proteína bruta (mínimo): indica a quantidade total de proteína, mas não a qualidade (digestibilidade).
- Extrato etéreo (mínimo): é a gordura. Rações com muita gordura são mais palatáveis, mas exigem cuidado com a obesidade.
- Matéria mineral (máximo): quanto menor este número, geralmente melhor é a qualidade dos ingredientes, indicando menos “enchimento” ou ossos triturados.