Pode levar cachorro para a praia? O que dizem as leis e a medicina veterinária

O respeito às áreas permitidas e a manutenção rigorosa da saúde do pet são o que garantem que esse espaço continue aberto para os animais

Como afirma o CFMV, a saúde única (humana, animal e ambiental) é indissociável: cuidar da higiene do seu cão na praia é cuidar da saúde de todos os banhistas

Com a chegada das férias e das altas temperaturas, é comum o desejo de incluir os cães nos passeios à beira-mar. Mas a resposta para “pode levar cachorro para a praia?” depende de onde você está e do quão em dia está a saúde do seu pet.

No Brasil, não existe uma lei federal que proíbe cães em praias; a competência para legislar sobre o tema é municipal. Enquanto cidades como Rio de Janeiro e Natal possuem praias “pet friendly” delimitadas por lei, outras cidades mantêm proibições rígidas sob pena de multa.

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) alerta que, além da questão legal, a praia oferece riscos biológicos tanto para o animal quanto para os seres humanos, o que exige responsabilidade técnica extrema do tutor.

A principal razão para a restrição de cães nas praias é a prevenção de zoonoses (doenças transmitidas de animais para humanos). A areia da praia, por ser úmida e quente, é o ambiente perfeito para a sobrevivência de parasitas.

O médico-veterinário Paulo Tabanez, especialista em infectologia e membro do conselho consultivo de diversas entidades veterinárias, explica o risco da contaminação ambiental:

“O maior perigo nas praias é a disseminação do Ancylostoma caninum, o verme responsável pelo ‘Bicho Geográfico’ (Larva Migrans Cutânea) em humanos. Mesmo que o tutor recolha as fezes, as larvas podem penetrar na areia e infectar banhistas. Além disso, há o risco da Dirofilaria (verme do coração), transmitida por mosquitos comuns em regiões litorâneas, que é uma doença grave e silenciosa para os cães.”

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Além disso, a praia pode ser um ambiente hostil para a fisiologia canina. O calor excessivo da areia pode causar queimaduras de terceiro grau nos coxins (almofadinhas das patas) e levar à intermação (hipertermia severa), que é uma emergência veterinária.

“Em praias, o calor radiante da areia e o sol direto podem elevar a temperatura interna do cão a níveis fatais em poucos minutos. Outro ponto é que a ingestão de água salgada causa quadros graves de intoxicação por sódio, resultando em vômitos, diarreia e desidratação severa”, explica Maria Alessandra Del Barrio, médica-veterinária.

Antes de colocar as patas na areia, o tutor deve consultar o Código de Posturas do município. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Lei Municipal nº 6.642/2019 permite cães na areia, desde que portando carteira de vacinação e sob controle do tutor.

Já em cidades como Santos (SP), a presença é restrita a horários ou áreas específicas sob fiscalização da vigilância sanitária.

O descumprimento pode gerar multas que variam de R$ 200 a mais de R$ 2 mil, além da retirada compulsória do animal do local.

Guia de conduta para praias permitidas

  • Vacinação e vermifugação: o cão deve estar com V10/V8, raiva e o preventivo de verme do coração em dia.
  • Identificação: coleira com placa de identificação e, preferencialmente, microchip.
  • Hidratação: água fresca disponível o tempo todo, e não permitir o cão beber água do mar.
  • Proteção solar: uso de protetores solares específicos para pets em focinho e orelhas, especialmente em animais brancos.
  • Horários: evite o período entre 10h e 16h. Se a areia estiver quente para a sua mão, está quente para as patas dele.
Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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