Entenda quem são os dingos, os cães selvagens ‘sagrados’ na Austrália

Espécie é considerada sagrada por povos nativos do país; a população de dingos é maior que a de humanos na ilha em que turista canadense foi encontrada

Em locais isolados como K’gari, essa conexão é ainda mais forte, pois a ilha abriga uma das linhagens mais “puras” da espécie, livre do cruzamento com cães europeus que ocorreu em outras partes do país

A morte da turista canadense Piper James na Ilha de K’gari e a decisão do governo de Queensland de sacrificar a matilha envolvida no episódio trouxeram à tona um debate que remonta milênios: o lugar do dingo na natureza e na cultura australiana.

Para um visitante desavisado eles possam parecer cães domésticos de pelo dourado, mas os dingos são predadores descendentes de lobos asiáticos que chegaram ao continente há cerca de cinco mil anos, provavelmente trazidos por navegadores, de acordo com o Departamento do Meio Ambiente, Turismo, Ciência e Inovação (em inglês, Department of the Environment, Tourism, Science and Innovation, DETSI).

Desde então, eles se tornaram os “guardiões” do ecossistema australiano, ocupam o topo da cadeia alimentar e têm características bem visíveis que os afastam dos cães comuns, como o fato de não latirem, pois preferindo uivos melódicos. Ainda de acordo com o DETSI, eles também têm uma flexibilidade física que os permite escalar árvores e rochas com agilidade.

Para os povos tradicionais da Austrália, a relação com o dingo é profunda, segundo o Museu Nacional da Austrália. Eles são seres sagrados, figuras centrais na espiritualidade e no “Tempo do Sonho”, a cosmologia que explica a criação do mundo. Historicamente, esses animais viviam em conexão com as comunidades nativas, e serviam como companheiros de caça e sentinelas noturnas.

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Dingos em K’gari

Em locais isolados como K’gari, essa conexão é ainda mais forte, pois a ilha abriga uma das linhagens mais “puras” da espécie, livre do cruzamento com cães europeus que ocorreu em outras partes do país. Mas essa pureza genética e a aura mística que envolve o “cão sagrado” se chocam hoje com práticas do turismo moderno e da ocupação territorial.

Se por um lado são protegidos como espécie nativa essencial para o controle de pragas, por outro são alvo de perseguições em áreas rurais, onde a histórica Cerca do Dingo, uma das maiores estruturas do mundo, tenta separá-los das criações de ovelhas. De acordo com o Museu Nacional da Austrália, K’gari é um exemplo desse conflito: com uma população de dingos que supera a de residentes fixos, a ilha se tornou um palco perigoso onde a curiosidade humana rompe barreiras naturais.

Especialistas explicam, na imprensa australiana, que o hábito de turistas alimentarem os animais para fotos “instagramáveis” destrói o medo instintivo que o dingo tem das pessoas. Ao associarem humanos à comida, os animais se tornam audaciosos e, em situações de estresse ou fome, até agressivos.

Risco de ataques

Apesar de serem sagrados, comumente os dingos são envenenados, presos em armadilhas e abatidos a tiros. Isso acontece por causa dos casos de ataques a humanos e por conta de episódios de ataques a animais nas fazendas do local.

O comitê consultivo do patrimônio mundial de K’gari (KWHAC) avalia que o turismo excessivo na ilha coloca cada vez mais dingos e pessoas em conflito. Alguns turistas alimentam os animais para atraí-los e tirar fotos.

Sue Sargent, presidente da instituição, diz que esta convivência aumenta o risco de ataques e ameaça “destruir” o balanço ecológico da ilha. Bradley Smith, professor sênior da Universidade Central de Queensland, reforça, argumentando que “a menos que se corrija a forma como os humanos na ilha se comportam em relação aos dingos, o problema nunca será resolvido. Portanto, isso (os ataques de dingos) vai acontecer novamente”, disse.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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