Há 86 anos, em 1938, a Tupinambás, no centro de Belo Horizonte, era uma das ruas mais movimentadas da capital. Não demorou muito para que um clássico e raiz boteco, café e restaurante (tudo junto ao mesmo tempo) ali instaurado se tornasse um dos pontos boêmios da região, funcionando como local de encontro de jornalistas, artistas, esportistas, escritores e políticos da cidade. Naquele balcão à beira da rua, toda a freguesia comparecia para tomar uma dose de cachaça, uma cerveja ou comer algo durante as noites agitadas de BH. E assim começou a história do Café Palhares.
No início, o estabelecimento esteve sob a administração do Seu Neném, o João Ferreira. Funcionando 24h por dia, de domingo a domingo, o Café Palhares se consolidou com um dos balcões mais famosos da capital e casa de importantes e curiosos acontecimentos da ainda jovem BH.
Naquele momento, além das bebidas, incluindo a tradicional cachacinha mineira, o local servia um clássico cachorro-quente, que fazia bastante sucesso entre os frequentadores. E seguiu assim até que um outro prato começou a chamar a atenção da clientela: curiosamente, um do tipo PF - com arroz ovo e linguiça -, que era, na verdade, o jantar dos funcionários do estabelecimento.
Entre um cliente e outro, alguns começaram, então, a pedir aquela comida. Entre um cliente e outro, alguns começaram, então, a pedir aquela comida. Embora ela não fosse uma opção do cardápio, o Café Palhares, como um clássico estabelecimento de hospitalidade e cordialidade mineira, a servia àqueles que a pediam.
Aos poucos, aquela refeição foi se tornando tão popular que, após tanto insistirem, o local resolveu incorporá-la no cardápio, concretizando o que viria a se tornar um dos mais icônicos e tradicionais pratos de Belo Horizonte - o famoso KAOL.
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Ser mineiro é comer um KAOL
O prato que, antes, era apenas o jantar dos funcionários se tornou o carro-chefe do Café Palhares, disponível no cardápio e com nome próprio: KAOL, título concebido pelo Seu Neném em parceria com o escritor e radialista Rômulo Paes.
O K é de KACHAÇA, representando o costume da época de tomar uma dose antes das refeições para “abrir o apetite"; o A, de ARROZ; o O, de OVO; e o L, de LINGUIÇA. Mas, se você está se perguntando por que K ao invés de C, já que o correto é cachaça, a resposta está na licença poética concedida por Rômulo Paes. Segundo ele, o K daria mais pompa ao nome do prato, além de, claro, proporcionar uma peculiaridade autêntica e única ao local.
E com o passar dos anos, o KAOL foi se aperfeiçoando. A partir da década de 70, ganhou farofa e couve e, nos anos 80, o torresmo. Uma mistura dos quitutes mais tradicionais da culinária mineira, compondo um prato farto e perfeito para agradar os gostos e necessidades daqueles que circulavam pelo agitado centro de BH.
Um prato eternizado entre as tradições de Belo Horizonte
Hoje, mesmo depois de quase 90 anos desde o início da história do Café Palhares, o estabelecimento continua sendo um dos restaurantes de calçada mais famosos da capital, além de ter se consagrado como um símbolo da tradição mineira e da história de BH.
Atualmente, a gestão já se encontra na terceira geração: sob o comando de André Palhares, neto do Seu Neném. João Lúcio e Luiz Fernando, filhos do Seu Neném, também se dedicam, desde a década de 1970, ao negócio.
E como era de se esperar, o KAOL segue sendo o prato mais famoso: é um clássico PF, prato feito perfeito para alimentar todos os trabalhadores, turistas e fregueses no geral que, em meio à agitação do dia-a-dia do centro de BH, buscam por um almoço saboroso e farto.
Além do arroz, da farofa, da couve e do torresmo, hoje, o prato pode ser acompanhado de pernil, carne cozida, dobradinha, língua e a tradicional linguiça. E por cima, ainda vai o delicioso molho especial, com receita secreta, herdada da época do cachorro-quente do Café Palhares.
Em seus 40m², com 22 bancos, um balcão histórico e, agora, a mais recente área sob a calçada, com mesas e banquetas, são servidos mais de 400 pratos de KAOL diariamente. O prato criado e eternizado no coração da capital mineira continua a atrair tanto os moradores de Belo Horizonte quanto os turistas de diversas regiões do Brasil e do mundo que buscam conhecer a gastronomia mineira em sua mais pura, autêntica, simples e acolhedora essência.