Fundo Rio Doce destina R$ 4,45 mi para consultas a garimpeiros e faiscadores atingidos

Recursos liberados pelo BNDES garantirão participação social de comunidades tradicionais no processo de reparação do desastre da Samarco

Medida faz parte do novo acordo, homologado em dezembro de 2024

Recursos do Fundo Rio Doce, liberados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), permitirão que comunidades tradicionais de faiscadores e garimpeiros participem de consultas públicas sobre as ações de reparação, após o rompimento da barragem da Samarco. A medida faz parte do novo acordo, homologado em dezembro de 2024, e tem como foco ouvir essas populações antes da definição das iniciativas voltadas à reparação dos danos.

Ao todo, R$ 4,45 milhões foram destinados para a realização das consultas. A coordenação ficará com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), e a execução será feita pela Anater, que firmou parceria com a Fundação Ipead, ligada à UFMG, responsável pelo apoio técnico e operacional dos trabalhos.

“Essa nova iniciativa reforça a diretriz de participação social do acordo, de construção de um processo articulado entre o poder público e as populações atingidas para a formulação de medidas coletivas de caráter reparatório que atendam aos anseios da população atingida”, afirmou a diretora de Crédito Digital para Micro, Pequenas e Médias Empresas e Gestão do Fundo do Rio Doce, Maria Fernanda Coelho.

A gerente da Anater para o Novo Acordo do Rio Doce, Adriana Aranha, destacou que 2,9 mil núcleos familiares devem ser alcançados pela consulta. “Nosso foco é garantir que esse processo seja conduzido com transparência e que as atividades formativas e informativas garantam uma compreensão qualificada dos temas, assegurando que a participação social seja plena e efetiva. É uma construção coletiva e participativa que, além de cumprir a determinação legal, objetiva promover a cidadania das pessoas”.

Consulta prévia

A consulta prévia é prevista na Convenção 169, tratado internacional elaborado no âmbito da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ele estabelece um conjunto de direitos dos povos tradicionais. Como o Brasil é um dos países signatários, o dispositivo tem força de lei ordinária federal.

Conforme a Convenção, a consulta prévia, livre e informada é um direito dos povos tradicionais todas as vezes que qualquer medida legislativa ou administrativa for afetá-los diretamente. Ela deve ser realizada, por exemplo, em processos de licenciamento ambiental que envolvam seus territórios, na implementação de políticas públicas de educação e de saúde em que sejam público-alvo e nas medidas que envolvam a salvaguarda de costumes e da cultura de suas comunidades.

Acordo do Rio Doce

Diversas ações estão previstas como parte do processo de consulta prévia, livre e informada do Acordo do Rio Doce. Dentre elas, a identificação, mobilização e mapeamento das comunidades nos territórios afetados; o levantamento de dados socioeconômicos e culturais; a construção conjunta de estratégias de escuta e diálogo; a realização de atividades formativas e informativas para garantir compreensão qualificada sobre os temas da consulta; e a sistematização dos resultados finais para subsidiar medidas coletivas de reparação a serem definidas pelas próprias comunidades.

A consulta deve alcançar cerca de 2,9 mil núcleos familiares, sendo 1,5 mil de faiscadores e 1,4 mil de garimpeiros. Elas integram comunidades distribuídas nas margens dos rios, ao longo dos seis municípios mineiros: Mariana, Acaiaca, Barra Longa, Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Ponto Nova.

Para Sérgio Papagaio, integrante da Associação dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce (Agita), a consulta é um direito conquistado. Ele espera que as demandas da comunidade ganhem atenção. A principal delas, segundo ele, envolve outra medida garantida no novo acordo de reparação: a contratação da assessoria técnica independente que dará suporte aos garimpeiros e faiscadores.

“Isso é fundamental. Sem assessoria, como os garimpeiros tradicionais vão elaborar novos projetos? Precisamos de técnicos nos ajudando. Nossos modos de vida mudaram radicalmente. E hoje tem lugar que a gente nem conseguiria voltar a garimpar, porque se tornaram propriedades fechadas. Cada um se virou como pode. E não é todo mundo que tem a mesma capacidade de adaptação. Muitos garimpeiros ficaram dependendo de cesta básica, de ajuda mesmo. Mas nós nunca perdemos a esperança. Nós ficamos 10 anos lutando pelo direito à assessoria técnica e nós conseguimos no novo acordo”, disse.

Assessorias técnicas

O BNDES também liberou novos recursos para as assessorias técnicas independentes. Escolhidas pelos próprios atingidos, elas atuam para garantir a participação das comunidades no acompanhamento das ações de reparação. A bacia do Rio Doce foi dividida em 18 territórios. Em cada um deles, as populações atingidas puderam escolher uma entidade para assessorá-las. Esse direito também foi garantido para seis comunidades tradicionais, incluindo indígenas, quilombolas, garimpeiros e faiscadores.

Em junho, já haviam sido repassados R$ 5,79 milhões para custear as atividades das assessorias técnicas independentes que atendem as populações de Mariana (MG) e Barra Longa (MG). No final de 2024, mais R$ 67,8 milhões foram liberados em favor de outros 14 territórios onde as entidades já foram escolhidas. O cronograma de desembolsos prevê novas parcelas até 2028, somando R$ 374 milhões.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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