O Carnaval termina, mas o que fica? Entre fotos e vídeos espalhados pelas redes sociais, ou na galeria de celulares alheios, sem um álbum ou pasta que organize tudo, a folia pode acabar se perdendo no tempo — e fica mais difícil lembrar e contar o que foi vivido. Esse ato ajuda a explicar um paradoxo: em meio a
A festa cresceu, mas boa parte do que foi construído ao longo de mais de cem anos segue espalhada em lembranças e arquivos soltos. Afinal, o que você sabe sobre como começou o Carnaval da capital mineira?
O mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e regente de blocos Guto Borges, com o historiador Igor Cardoso, reuniu os registros existentes, de 1889 a 2012, e lançou um financiamento coletivo para publicar um livro sobre essa trajetória do Carnaval na capital.
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A campanha superou as metas iniciais em dois dias. “É quase surreal não haver nenhum trabalho dedicado à história do Carnaval de Belo Horizonte, considerando a dimensão que ele tem hoje”, afirmou. O projeto nasceu de um estudo elaborado para o processo de tombamento do Carnaval como patrimônio imaterial da cidade e agora será adaptado para uma linguagem mais acessível ao público geral.
Guto participa ativamente da retomada da festa desde 2008, quando se aproximou de pessoas que estavam na linha de frente contra o despejo da Escola de Samba Cidade Jardim de sua quadra pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).
“A única escola que ainda mantinha uma quadra estava sendo ameaçada, em 2008, de perder esse espaço. Nós éramos bastante jovens; eu já era ligado ao mundo da música, tinha banda, e também estávamos envolvidos com questões sociais em Belo Horizonte. Foi aí que passamos a conhecer a quadra da Cidade Jardim e começamos a nos dar conta dessa história do Carnaval da cidade”, disse.
Os anos se passaram, e muita gente ainda não conhece esse capítulo - e muitos outros. Guto identifica uma “desigualdade no nível da memória” e afirma que o crescimento recente não foi acompanhado pela preservação de como tudo aconteceu, especialmente quando envolve movimentos populares e periféricos. A consequência dessa perda, segundo ele, é o enfraquecimento da própria festa.
Paralelamente ao que acontecia com a escola de samba, Guto esteve à frente dos primeiros blocos do Carnaval desde o ressurgimento, como Tico Tico Serra Copo, Filhos de Tcha Tcha e Bloco do Peixoto.
O livro percorre diferentes fases da folia: dos primeiros anos, marcados pelos clubes da elite, ao fortalecimento das escolas de samba; depois o declínio nos anos 1990; e, por fim, a retomada a partir de 2009, quando aconteceu a Praia da Estação, na Praça da Estação, no Hipercentro de BH.
Até a publicação desta reportagem, o projeto havia arrecadado mais de R$ 54 mil, de uma meta de R$ 65 mil. Acesse
“O financiamento coletivo tem diferentes formas de participação: A pessoa pode contribuir diretamente com o projeto ou optar pela compra antecipada do livro, que ajuda a viabilizar a publicação e é a modalidade que mais tem despertado interesse. Também há outras recompensas, como cartaz, bandeira e um LP.”
De acordo com Guto, mais de 500 exemplares foram vendidos. “Eu acho que o Carnaval hoje tem essa sede por memória e história”, afirmou.
O registro do presente
Por meio de imagens, desenhos e textos, Lívia Aguiar apresenta um relato pessoal e livre, baseado nas vivências do próprio corpo
Enquanto isso, há quem registre o presente. A multiartista Lívia Aguiar lançou Siricotico: Diário de Carnaval, obra que reúne fotos, poemas, colagens e relatos das vivências nos blocos desde 2011. O projeto começou como um diário, virou zine e depois livro como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Inspirada pela obra ‘Antropologia da Face Gloriosa’, de Artur Omar, ela buscou captar rostos e cenas da festa a partir do olhar de quem está dentro do cortejo.
Para Lívia, documentar é preservar a identidade da festa belo-horizontina. “A gente tem as nossas músicas, as nossas marchinhas. Temos também a tradição de colar adesivinhos nas pessoas, que é algo muito característico de Belo Horizonte, além do caminhão-pipa presente em vários blocos”, disse, destacando também o papel das marcas locais, como
O livro reúne impressões do Carnaval de Belo Horizonte, cidade natal da autora, onde ela participa ativamente da construção da festa desde 2011
“É importante que isso esteja registrado, recebendo luz, sendo visto, para que a gente não perca as características que tornam o Carnaval de BH tão bonito e especial”, acrescentou.
O livro custa R$ 40 e pode ser comprado pelo Instagram da autora (@eusouatoa), com autógrafo, ou nos sites das editoras Bebel Books e Pipoca Press. Lívia também prepara uma apresentação aberta ao público na Praça Pisa da Fulô, no Carlos Prates, como parte da programação de pós (pós)-Carnaval.
Livro sobre a história do Carnaval de BH
Financiamento coletivo: meta de R$ 65 mil
Como apoiar: campanha disponível em plataforma de financiamento coletivo (
Livro ‘Siricotico: Diário de Carnaval’
Onde comprar: Instagram @eusouatoa (com autógrafo) e neste domingo (1º)
Local: Praça Pisa da Fulô, bairro Carlos Prates, em Belo Horizonte
Horário: a partir das 15h30