Carnaval de BH tem a política no centro da festa em movimento de ocupação da cidade

O ‘renascimento’ do carnaval após a mobilização e a reivindicação dos espaços, a partir de 2010, impulsionou um crescimento exponencial da festa em BH

Cortejo do Então, Brilha! que abre a folia, tradicionalmente, no sábado de carnaval.

O carnaval de Belo Horizonte ganhou força nos últimos anos e hoje já pode ser considerado um dos maiores do país. Em 2025, a prefeitura estima que aproximadamente seis milhões de foliões saíram pelas ruas da cidade entre 15 de fevereiro e 9 de março, movimentando R$ 1,2 bilhão na economia local.

Apesar da falácia de que o carnaval de BH seria uma “novidade” no cenário nacional, a folia na capital mineira teve sua primeira edição em fevereiro de 1897, há mais de um século.

A versão, que consta nos canais oficiais da prefeitura, no entanto, é questionada por alguns historiadores, que afirmam que a inauguração da cidade se deu após esse período. “Costumo dizer que é uma lenda, porque não há comprovação documental de que os trabalhadores desfilaram durante a construção com o rosto sujo, justificando mais tarde o que viriam a ser os blocos caricatos”, explicou o historiador, mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Guto Borges.

‘Revitalização’ do carnaval

O fato é que, no início dos anos 2000, passar o carnaval em Belo Horizonte era sinônimo de tranquilidade, com as principais ruas da cidade vazias. A “mudança de chave” veio, de fato, em 2009, como forma de ocupação de uma das principais regiões do município: a Centro-Sul.

Nesse mesmo ano, o então prefeito de BH, Márcio Lacerda (sem partido), assinou um decreto, em dezembro, proibindo a realização de eventos, como o carnaval, na Praça da Estação, na região Central da cidade.

A determinação foi amplamente rejeitada, dando força ao movimento de 2010 intitulado “ Praia da Estação”, quando centenas de pessoas se uniram, por meio da internet, para se manifestar com roupas de banho e instrumentos musicais em torno do espaço urbano, como afronta à prefeitura, conforme explica a historiadora e professora da UFMG, Regina Helena Alves. “Em forma de enfrentamento e de resistência a essas proibições do prefeito, a gente volta a dominar o espaço público durante o carnaval, festivamente, reconquistando os espaços da cidade”.

Em maio do mesmo ano, o decreto foi revogado, dando ainda mais força aos blocos já existentes e inspirando a criação de novos.

Direito à cidade e ao espaço público

O carnaval em Belo Horizonte está — e sempre esteve — diretamente ligado à ocupação do ambiente urbano da própria cidade. “Imagine: BH é uma cidade que se constrói sobre um plano urbano e que vai ter que lidar, justamente, com o popular. Há um planejamento urbano metrificado que, desde o primeiro momento, precisa lidar com os trabalhadores que começam a formar as primeiras ocupações dentro da avenida do Contorno, mas principalmente nessa primeira periferia que começa a se desenhar na Pedreira Prado Lopes e também na Lagoinha”, disse Guto Borges à Itatiaia.

De acordo com ele, o carnaval, não só na capital mineira, começa a refletir o “espelho da sociedade”, já que a festa — ou a sua ausência (embora não completa) — acompanha os contornos e as transformações da cidade. “BH não soube lidar com essa espécie de experiência integral que inclui o popular, mas também as camadas mais poderosas do município. Como lidar com a cidade em sua completude sempre foi uma questão, né? De um lado, um carnaval dito civilizado, ordenado; do outro, um carnaval popular”, explicou.

O historiador classifica a existência de dois tipos de carnaval na capital mineira: um, nas ruas, com desfiles, blocos caricatos e pequenos grupos em regiões específicas da cidade; e outro, em espaços fechados e clubes privados.

No plano que rege a estrutura da cidade de BH, ruas e avenidas são elementos que organizam a paisagem urbana, estimulando a circulação de pessoas, serviços e mercadorias. A “organização” excessiva do município dificulta a ocupação dos espaços públicos, dando lugar às festas privativas.

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A capital mineira, que só elege um prefeito em 1947 — cinquenta anos após sua inauguração —, dá poucos passos na democracia, já que, em 1964, inicia-se a ditadura militar. “Ao longo da história, Belo Horizonte foi constituindo uma tradição de blocos. Blocos nos bairros, blocos que saíam de suas regiões, mas isso foi completamente proibido após o golpe. Essa tradição dos blocos de bairro, dos ensaios e da saída do bairro com a comunidade daquele lugar foi extinta pela proibição de aglomerações em espaços públicos e foi duramente reprimida”, diz a professora da UFMG.

À reportagem, ela atribui que, com a redemocratização do país, a primeira manifestação cultural ligada ao carnaval de BH ocorre por meio da “conquista do centro”, com a tradicional Banda Mole. “Eles começam a sair nesse período de redemocratização, enfrentam essas proibições e, com a volta da democracia, passamos a ver a regulamentação dos espaços públicos definidos pelo poder público municipal no final dos anos 1990 e no início dos anos 2000", detalha.

O bloco Banda Mole é considerado o bloco carnavalesco mais antigo em atividade em BH. Foi criado em 1975 por um grupo de amigos que frequentava o bairro da Lagoinha.

O nome escolhido — República Independente da Banda Mole — deixava nítidas as intenções e posições políticas do bloco, que defendia a liberdade de expressão, antes mesmo de o termo ganhar a força que tem atualmente, e reivindicava não apenas os desfiles, mas também o direito à cidade.

Carnaval e o interesse público

O renascimento do carnaval após a mobilização e a reivindicação dos espaços, com apoio popular a partir de 2010, impulsionou um crescimento exponencial da festa em Belo Horizonte.

Para a professora e historiadora, a volta das pessoas às ruas da cidade — incluindo turistas e pessoas que não são de BH — cria uma importante ferramenta para que a comemoração passe a ser vista também como um instrumento econômico. “Essa retomada do carnaval é fundamental para mostrar essa outra face da festa, que é um movimento disruptivo, de resistência e, sobretudo, de conquista dos espaços da cidade, tornando-os públicos e não privados de alguns ou de determinadas classes sociais”, finalizou.

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, com passagem pela Rádio UFMG Educativa. Na Itatiaia, já foi produtora de programas da grade e repórter da Central de Trânsito Itatiaia Emive.

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