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Apesar da falácia de que o carnaval de BH seria uma “novidade” no cenário nacional, a folia na capital mineira teve sua primeira edição em fevereiro de 1897, há mais de um século.
A versão, que consta nos canais oficiais da prefeitura, no entanto, é questionada por alguns historiadores, que afirmam que a inauguração da cidade se deu após esse período. “Costumo dizer que é uma lenda, porque não há comprovação documental de que os trabalhadores desfilaram durante a construção com o rosto sujo, justificando mais tarde o que viriam a ser os blocos caricatos”, explicou o historiador, mestre pela
‘Revitalização’ do carnaval
O fato é que, no início dos anos 2000, passar o carnaval em Belo Horizonte era sinônimo de tranquilidade, com as principais ruas da cidade vazias. A “mudança de chave” veio, de fato, em 2009, como forma de ocupação de uma das principais regiões do município: a
Nesse mesmo ano, o então prefeito de BH,
A determinação foi amplamente rejeitada, dando força ao movimento de 2010 intitulado “
Em maio do mesmo ano, o decreto foi revogado, dando ainda mais força aos blocos já existentes e inspirando a criação de novos.
Direito à cidade e ao espaço público
O carnaval em Belo Horizonte está — e sempre esteve — diretamente ligado à ocupação do
De acordo com ele, o carnaval, não só na capital mineira, começa a refletir o “espelho da sociedade”, já que a festa — ou a sua ausência (embora não completa) — acompanha os contornos e as transformações da cidade. “BH não soube lidar com essa espécie de experiência integral que inclui o popular, mas também as camadas mais poderosas do município. Como lidar com a cidade em sua completude sempre foi uma questão, né? De um lado, um carnaval dito civilizado, ordenado; do outro, um carnaval popular”, explicou.
O historiador classifica a existência de dois tipos de carnaval na capital mineira: um, nas ruas, com desfiles, blocos caricatos e pequenos grupos em regiões específicas da cidade; e outro, em espaços fechados e clubes privados.
No plano que rege a estrutura da cidade de BH, ruas e avenidas são elementos que organizam a paisagem urbana, estimulando a circulação de pessoas, serviços e mercadorias. A “organização” excessiva do município dificulta a ocupação dos espaços públicos, dando lugar às festas privativas.
A capital mineira, que só elege um prefeito em 1947 — cinquenta anos após sua inauguração —, dá poucos passos na
À reportagem, ela atribui que, com a redemocratização do país, a primeira manifestação cultural ligada ao carnaval de BH ocorre por meio da “conquista do centro”, com a tradicional
O bloco Banda Mole é considerado o bloco carnavalesco mais antigo em atividade em BH. Foi criado em 1975 por um grupo de amigos que frequentava o
O nome escolhido — República Independente da Banda Mole — deixava nítidas as intenções e posições políticas do bloco, que defendia a liberdade de expressão, antes mesmo de o termo ganhar a força que tem atualmente, e reivindicava não apenas os desfiles, mas também o direito à cidade.
Carnaval e o interesse público
O renascimento do carnaval após a mobilização e a reivindicação dos espaços, com apoio popular a partir de 2010, impulsionou um crescimento exponencial da festa em Belo Horizonte.
Para a professora e historiadora, a volta das pessoas às ruas da cidade — incluindo turistas e pessoas que não são de BH — cria uma importante ferramenta para que a comemoração passe a ser vista também como um instrumento econômico. “Essa retomada do carnaval é fundamental para mostrar essa outra face da festa, que é um movimento disruptivo, de resistência e, sobretudo, de conquista dos espaços da cidade, tornando-os públicos e não privados de alguns ou de determinadas classes sociais”, finalizou.