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Entenda por que sistema projetado para impedir enchentes falhou em Porto Alegre (RS)

Sistema deveria proteger a cidade até os 6 metros do Guaíba; o máximo que rio chegou foi aos 5,33 metros, mas, mesmo assim, metade dos bairros da cidade foram inundados

Porto Alegre está debaixo d'água há quase 10 dias. A cidade, que está às margens do rio Guaíba, recebe as águas de todos os seus afluentes e foi afetada pelas fortes chuvas no interior do Rio Grande do Sul.

O aumento dos níveis dos rios Taquari e Caí fizeram com que o Guaíba também enchesse e acabasse transbordando pelas ruas da capital gaúcha. Mas isso não era para ter acontecido, pelo menos segundo pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do SUL (UFRGS).

O sistema de comportas, diques e casas de bomba de Porto Alegre conseguiriam, na teoria, proteger a cidade até os 6 metros do Guaíba. O máximo que rio chegou foi aos 5,33 metros, mesmo assim, metade dos bairros da cidade foram inundados. Mas por que o sistema não deu conta de segurar as águas do rio?

Casas de bomba foram inundadas

Fernando Dornellas, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, explica que as 23 casas de bomba da cidade, responsáveis por bombear a água da chuva para fora da cidade e devolver para o rio, estavam funcionando no início das chuvas.

Mas a falta de uma vedação eficiente fez com que a água do Guaíba começasse a entrar nessas estruturas e acabassem inundando as casas de bomba. Com isso, elas precisaram ser desligadas por risco de choque elétrico.

“As casas de bomba têm funcionado e inclusive foram reformadas a pouco tempo. Mas o que não aconteceu é o cuidado com essas partes de vedação e pensar como essas estruturas (galerias, casas de bomba e comportas) funcionariam em um evento como esse. Esse sistema começa na cota de 3 metros e tivemos 5,3 metros. Então, esse sistema teve que segurar essa água (2,3 metros). Mas os pontos vulneráveis que são as comportas e casas de bomba permitiram que a água entrasse na cidade”, explicou.

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Dornellas comenta que as casas de bomba não são feitas para funcionarem debaixo d'água. Por isso, elas tiveram que ser desligadas a medida que eram inundadas. A cidade chegou a ter apenas quatro casas de bomba em funcionamento. Agora, as autoridades já conseguiram religar oito das 23 estruturas feitas para retirar o excesso de água da cidade.

Comportas não funcionaram como deveriam

Além dos problemas nas casas de bomba, uma comporta (uma espécie de portão de metal construído debaixo de um dique) foi destruída na enchente. Mesmo fechada, a estrutura não aguentou a pressão das águas do Guaíba e se rompeu. “A gente teve uma comporta na zona norte, a comporta 14, que foi totalmente destruída. Lá, a gente teve um rio de água entrando pelo dique. Ela fica bem próxima do aeroporto e do estádio do Grêmio. Aquela região toda ficou inundada por conta dessa entrada de água pela comporta 14", conta.

Para entender por que a comporta se rompeu, o professor diz que é preciso saber como ela estava fixada. Já em relação ao problema da vedação das outras comportas e casas de bomba, Dornellas acredita que não seja culpa da falta de manutenção, mas sim que sequer existia uma vedação.

“Falta um elemento de vedação e falta pensar em como aquilo funcionaria tendo dois metros e tanto de água de um dos lados da comporta. A mesma coisa aconteceu em 2015 e no ano passado. Nesses casos, a prefeitura começa a colocar sacos de areia para impedir o vazamento de água. Mas uma comporta de aço que foi dimensionada para isso deveria ser autossuficiente. Ela não necessitaria de algum outro aparato para conseguir impedir a entrada de água”, afirma.

Com a entrada de tanta água, foi impossível bombeá-la para fora de Porto Alegre. Por isso as casas de bomba acabaram sendo inundadas.

"É como se a gente estivesse em um barco furado e tirasse a água dele de canequinha. Se o furo é muito grande, a gente não dá conta de tirar água com canequinha e ele acaba afundando. É isso o que aconteceu com Porto Alegre”, esclarece.

Mesmo se Guaíba baixar, alagamentos podem demorar a acabar

Dornellas explica que para que os alagamentos acabem em Porto Alegre, as casas de bomba precisam ser religadas. A capital gaúcha precisa de uma máquina para bombear a água para fora da cidade porque fica em uma região de planície, no mesmo nível do rio. Então, a cidade precisa da ajuda das bombas para conseguir escoar a água.

Porém, a expectativa é que o Guaíba só volte aos níveis normais em 30 ou 40 dias. Além disso, as casas de bomba ainda precisam estar secas para voltarem a funcionar.

“vai ser lento o processo. Não vai ser semana que vem, nem na outra. Pode acontecer ainda uma coisa inusitada que é o nível do Guaíba estar mais baixo do que o nível da inundação dentro da cidade. Uma das alternativas é tentar abrir as comportas para essa água vazar para fora, mas isso também não é simples. Elas foram fechadas com maquinário. Então, é preciso ir um trator com retroescavadeira para conseguir mover essas comportas, que são bem pesadas. Com a área inundada, é impossível”, explica Dornellas.

Como evitar novas inundações em Porto Alegre?

O professor acredita que todo as comportas, diques e casas de bombas terão que passar por uma revisão, especialmente os pontos de vulnerabilidade, por onde a água entrou. Além disso, será necessário verificar a cota do sistema de diques e muros para saber se realmente essa água ultrapassou a cota, como aconteceu em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Nesse caso, Dornellas explica que um estudo poderá ser feito para saber se é preciso aumentar os muros e diques da região.

Além disso, o cientista chama atenção para a importância de planos de contingência para proteger a população. “Não dá para ter uma vida desconectada do rio. A gente sempre tem que observar ele e ter protocolos de contingência. Para cada nível que o rio aumentar eu tenho que ter preparações. A população precisa estar preparada para uma evacuação emergencial, coisas semelhantes às que já acontecem em barragens”, aponta.

‘Porto Alegre está totalmente despreparada para esse tipo de evento’

Guilherme Marques, professor do IPH-UFGRS e coordenador do núcleo de pesquisa em planejamento e gestão de recursos hídricos, comenta que a as autoridades acreditavam que uma enchente como a que aconteceu em 1941, quando o Guaíba atingiu 4,73 metros (recorde anterior), só se repetiria em 200 ou 300 anos. Mas, com as mudanças climáticas, esses eventos acontecem em um período ainda mais curto.

Em menos de um ano, o Rio Grande do Sul passou por três enchentes importantes: em setembro e novembro de 2023, e em maio deste ano, sendo a última a pior de todas. “O poder público municipal foi muito falho porque ele não levou em consideração vários desses riscos que já vinham sendo avisados. Porto Alegre está em uma região que está sujeita a isso (enchentes) e relatórios e pesquisas sobre mudanças climáticas já estão mostrando que a tendência é de aumento na frequência de eventos extremos”, diz.

Marques conta que Porto Alegre contratou uma consultoria para fazer uma regularização completa no sistema contra enchentes. Foi estimado um custo de R$ 400 milhões para as obras, mas as obras não chegaram a começar.

“Eles acharam muito caro, mas mais caro ainda é o dano das inundações. Faltou do poder público uma uma percepção mais urgente em relação ao risco e preparar a cidade melhor. Com as mudanças climáticas, as cidades têm que se adaptar. Tem que dar uma prioridade maior para manutenção de sistemas contra enchentes, que a gente viu que falhou. Nossas cidades precisam ter um planejamento esse tipo de evento. Não dá mais para a gente negar isso”, finaliza.


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Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.
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