Vício em bets: o que diferencia o jogador recreativo do dependente?
Psiquiatra e terapeuta explica quando o hábito de apostar se torna patológico

O transtorno do jogo é um distúrbio psiquiátrico caracterizado pela dependência e perda de controle em relação às apostas. O psiquiatra e psicoterapeuta cognitivo-comportamental Rodrigo Barreto Huguet explica a diferença entre um jogador recreativo e um dependente em bets.
“Existe uma diferença importante entre quem faz uma aposta de forma eventual e quem desenvolve uma dependência. Ela não está no valor apostado nem na frequência isoladamente. O que muda é a relação que a pessoa passa a ter com o jogo”, afirma.
O apostador deve se preocupar quando apostas ocupam cada vez mais espaço na rotina e se tornam necessidade. "A pessoa promete que será a última vez, estabelece limites, mas volta. Perde dinheiro e tenta recuperar imediatamente. Ganha e sente vontade de continuar porque acredita que está em uma sequência de sorte. Aos poucos, o jogo deixa de ser entretenimento e passa a comandar as decisões."
O transtorno do jogo tem como principal sintoma a perda de controle nas apostas. "O dependente não aposta apenas porque quer. Ele sente que precisa apostar, mesmo sabendo das consequências. Muitas vezes, esconde da família, mente sobre os valores envolvidos, faz empréstimos, compromete contas da casa ou utiliza dinheiro que tinha outra finalidade", destaca o psiquiatra.
O apostador compulsivo tem seus pensamentos atados ao jogo durante o dia: “planeja a próxima aposta, relembra perdas, imagina estratégias para recuperar o dinheiro. Isso vai consumindo tempo, energia e atenção”, diz o médico.
Nessas condições, o paciente apresenta mudanças no comportamento. Entre os sinaisestão a irritabilidade ao tentar reduzir as apostas, a perda de interesse por atividades que antes davam prazer e o afastamento de amigos e familiares. “Em muitos casos surgem ansiedade, insônia, sintomas depressivos e um sofrimento que vai muito além da questão financeira”.
Assim que os sintomas surgirem, é necessário buscar ajuda psicológica. O diagnóstico precoce aumenta as chances de recuperação. O tratamento pode envolver psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e, quando indicado, o uso de medicamentos para controlar sintomas associados e reduzir o impulso de jogar.
"É importante entender que o transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno mental e deve ser tratado como tal. A Sociedade Brasileira de Psiquiatria reforça que não se trata de falta de força de vontade nem de um problema de caráter. Há alterações nos mecanismos de recompensa do cérebro que fazem com que a busca pela sensação provocada pela aposta se torne cada vez mais intensa, muito semelhante ao que acontece em outras formas de dependência", destaca o Dr. Rodrigo Barreto Huguet.
Formada em Jornalismo pela Puc Minas, Paula Arantes produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil, Mundo, Orações e Entretenimento no portal da Itatiaia. Atualmente, colabora com a editoria Meio Ambiente. Antes, passou pelo jornal Estado de Minas.



