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Especialistas afirmam que, quando o pigmento é inserido na pele, o corpo o reconhece como uma substância estranha. Isso ativa um mecanismo de defesa que permanece ativo por muito tempo.
Dados reunidos por estudos publicados nas revistas científicas The Lancet e Nature, além de levantamentos do portal alemão Statista, indicam que esse processo biológico pode acompanhar a pessoa durante toda a vida.
O que acontece no corpo quando a tinta entra na pele
Durante a tatuagem, agulhas depositam pigmentos sob a camada superficial da pele. Assim que isso acontece, o organismo passa a tratar essas partículas como invasores.
Parte da tinta é capturada pelo sistema linfático e levada até os gânglios linfáticos, estruturas responsáveis por filtrar substâncias e apoiar o sistema imunológico. Ali, células de defesa chamadas macrófagos tentam degradar e eliminar os pigmentos.
O problema é que muitos desses pigmentos são resistentes à degradação. Quando as células que tentam destruir a tinta morrem, novas células assumem a tarefa e voltam a capturar o pigmento. Esse processo cria um ciclo contínuo que ajuda a explicar por que as tatuagens permanecem visíveis por tantos anos.
De acordo com Viso, esse fenômeno transforma a reação do organismo em algo crônico. Em vez de ser apenas uma resposta temporária, como acontece em uma pequena lesão na pele, o sistema imunológico continua reagindo à presença da tinta por longos períodos.
Pigmentos podem migrar para outras partes do corpo
Pesquisas também investigam o caminho que parte da tinta percorre após a tatuagem. Um estudo publicado na revista científica Arh Hig Rada Toksikol analisou a distribuição dos pigmentos no organismo.
Os pesquisadores estimam que entre 60 por cento e 90 por cento da tinta pode sair da pele e migrar para outras regiões do corpo por meio do sistema linfático e da corrente sanguínea. Entre os locais onde essas partículas podem se acumular estão os gânglios linfáticos, o fígado, o baço e até os pulmões.
O estudo também aponta que algumas tintas podem conter metais pesados e compostos químicos chamados aminas aromáticas. Essas substâncias foram associadas, em determinadas pesquisas, a processos como inflamação crônica, alterações imunológicas e fibrose.
Viso ressalta que a tinta não permanece completamente parada dentro da pele. Ela continua sendo monitorada e processada pelo sistema linfático, o que mantém o ciclo imunológico ativo.
Tatuagens grandes podem aumentar a exposição
O volume de pigmento introduzido no organismo também influencia esse processo. Em tatuagens maiores, a quantidade de tinta que pode migrar para o sistema linfático tende a ser mais elevada.
Estudos citados pelo portal Statista mostram que mais de 12 por cento da população adulta da Europa possui ao menos uma tatuagem. Com o crescimento dessa prática, pesquisadores têm se dedicado a entender melhor seus efeitos biológicos.
Possíveis riscos à saúde
Alguns trabalhos científicos recentes investigam possíveis relações entre certos pigmentos usados em tatuagens e o desenvolvimento de doenças.
Um estudo que analisou gêmeos em pesquisas de coorte e caso controle observou que pessoas com tatuagens de grande dimensão apresentaram risco mais elevado de desenvolver linfoma e câncer de pele em comparação com indivíduos sem tatuagens.
A composição química das tintas também pode influenciar os efeitos no organismo. De acordo com Manuel Viso, diferentes cores possuem composições distintas. O especialista afirma que pigmentos vermelhos parecem provocar maior morte de células do sistema imunológico.
Um relatório da Agência Europeia de Substâncias Químicas alertou para a presença de metais pesados e compostos aromáticos em algumas tintas de tatuagem, substâncias que podem ter potencial cancerígeno.
Um artigo publicado pela revista National Geographic em 2026 também destacou que nanopartículas de tinta e metais pesados podem se acumular nos gânglios linfáticos. Esse acúmulo pode causar alterações celulares e inflamação persistente, fatores que podem aumentar o risco de câncer de pele e linfoma.
Apesar disso, especialistas ressaltam que ainda não existem conclusões definitivas sobre o impacto desses pigmentos em órgãos vitais. Entre os efeitos adversos mais relatados estão reações alérgicas, inflamação prolongada, formação de granulomas e, em casos raros, complicações sistêmicas.
Alguns pigmentos também podem causar sensibilidade quando expostos ao sol ou provocar desconforto durante exames de ressonância magnética.
Regulamentação e cuidados antes de fazer uma tatuagem
Durante muitos anos, a composição das tintas de tatuagem teve pouca padronização. Segundo Manuel Viso, até 2022 não havia uma regulamentação unificada sobre esses produtos na Europa.
A situação começou a mudar com a implementação da regulamentação química REACH pela União Europeia, que passou a controlar os ingredientes utilizados nas tintas. A norma exige que fabricantes informem a composição química e proíbe determinadas substâncias consideradas perigosas.
Além disso, estúdios de tatuagem em vários países precisam seguir regras sanitárias rigorosas, incluindo esterilização de equipamentos, higiene adequada e rastreabilidade dos produtos utilizados.
A principal recomendação dos especialistas é buscar profissionais qualificados e garantir que os materiais utilizados sejam certificados e seguros.