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Canetas acessíveis podem revolucionar o tratamento da obesidade e mudar consumo

Cada vez mais populares, canetas emagrecedoras estão ficando mais baratas e podem provocar uma transformação nas formas de consumo da sociedade

Por e 
Quebra da patente da semaglutida da farmacêutica Novo Nordisk abre novos caminhos para as canetas emagrecedoras nacionais
Quebra da patente da semaglutida da farmacêutica Novo Nordisk abre novos caminhos para as canetas emagrecedoras nacionais • JOHAN NILSSON/TT News Agency via AFP

A queda da patente da semaglutida, em março, tem potencial para revolucionar o tratamento da obesidade no Brasil e transformar o consumo da sociedade. A medida abriu caminho para que surgissem as primeiras canetas emagrecedoras de farmacêuticas nacionais, proporcionando produtos por valores significativamente menores do que o encontrado em medicamentos importados, como Ozempic e Wegovy, da dinamarquesa Novo Nordisk.

Atualmente, esses medicamentos de semaglutida são encontrados em uma faixa de preço que varia de R$ 1.077,79 a R$ 2.096,66. Para o Mounjaro, caneta a base de tirzepatida da norte-americana Eli Lilly, o preço pode variar de R$ 1.580,31 a R$ 4.104,72. Agora, as canetinhas nacionais podem custar menos de R$ 500, mudando todas as perspectivas da onda fitness que atinge o país nos últimos anos.

A farmacêutica EMS começou a vender em junho a primeira caneta brasileira de semaglutida sintética análoga ao Ozempic, a Ozivy, a partir de R$ 452. Já a concorrente Eurofarma reduziu em até 48% os preços da Poviztra e da Extensior, por meio do programa de descontos EuroCuida, passando a custar entre R$ 309 e R$ 490.

Para o doutor Mauro Jácome, especialista em gastroenterologia, endoscopia e cirurgia, a quebra da patente e a possibilidade de manipulação controlada e regulada faz com que as medicações caiam no gosto popular. Segundo ele, novas medicações promissoras devem chegar ao mercado nos próximos meses.

“É importante entender que esses tratamentos tendem só a aumentar. A indústria farmacêutica está cada vez mais aumentando a quantidade de investimento em pesquisas de novas substâncias para o tratamento da obesidade. A boa notícia é que estão chegando novas medicações, por exemplo, a retadutida, uma mediação promissora que está em fase três de estudo e com resultados promissores”, declarou.

O futuro da medicina

Os bons resultados obtidos no tratamento da obesidade junto com as pouquíssimas contraindicações das canetas emagrecedoras só reforçam o status de “revolução” que o medicamento ganhou. Ainda de acordo com Jácome, as “canetinhas” devem reduzir o número de intervenções como cirurgias bariátricas e tratamentos com balão gástrico, mas ainda não devem promover o fim desses procedimentos.

“Temos que entender que nenhum tratamento é 100% eficaz na medicina. Para alguns pacientes, é importante ter sempre uma segunda ou terceira opção. Para esses casos vão estar reservados a cirurgia bariátrica, o balão gástrico, e também tem o paciente que não quer utilizar nada medicamentos. Momentaneamente, há uma queda [na demanda] desses procedimentos”, completou o especialista.

Juan Bernard destaca os benefícios das canetas emagrecedoras para a medicina • Célio Ribeiro | Itatiaia
Juan Bernard destaca os benefícios das canetas emagrecedoras para a medicina • Célio Ribeiro | Itatiaia

O médico nutrólogo Juan Bernard, diretor do centro intensivo de tratamento da obesidade da Rede Paulo de Tarso, destaca outros benefícios dos tratamentos com canetas emagrecedoras. Segundo ele, no longo prazo é esperado uma redução em casos de doenças como hipertensão e diabetes. “Com isso, a gente espera muito menos infarto, AVC, câncer de fígado. Tudo que é consequência da obesidade, a gente espera uma prevalência muito menor”, explicou.

Para o doutor René Berindoague, cirurgião-geral especialista em bariátrica, as canetas emagrecedores não excluem os procedimentos. Ele ressalta que, por ser uma doença crônica, o tratamento da obesidade não é tão simples quanto os medicamentos injetáveis fazem parecer ser, e ainda há espaço para intervenções cirúrgicas.

“Nos últimos 30 anos, é um tipo de operação que se tornou extremamente segura para os pacientes. Aliado às canetas, os grandes beneficiados são os pacientes. (...) Acreditamos que, no momento atual, a cirurgia não vai acabar. Nós temos visto uma recidiva muito grande de peso depois que os pacientes param de tomar ou aplicar a caneta. Mas como toda ciência, a tendência é que possamos descobrir tratamentos que sejam mais eficazes”, disse.

René Berindoague afirma que as canetas emagrecedoras ainda não excluem outros procedimentos • Célio Ribeiro | Itatiaia
René Berindoague afirma que as canetas emagrecedoras ainda não excluem outros procedimentos • Célio Ribeiro | Itatiaia

A transformação do consumo

A queda no preço das canetinhas e sua popularidade também vão transformar as formas de consumo da sociedade, a começar pela alimentação. Para Henrique Guerra, diretor-executivo da Momo, uma tradicional confeitaria de BH, e usuário do mounjaro, as mudanças que o remédio gerou na sua vida já refletem o comportamento dos clientes da padaria.

O empresário também planeja uma reformulação do cardápio, mantendo as tortas doces por questões culturais. A rede vai lançar uma linha nova de sanduíches naturais, sucos e iogurtes. “A gente tem uma nova proposta a partir do mês de agosto, com um self-service totalmente voltado para a saúde. Serão opções equilibradas, com as proteínas corretas, saladas corretas e carboidratos corretos. Estamos há 37 anos no mercado, para seguir por mais vai ser desafiador nessa revolução da indústria alimenticia”, declarou.

José Eduardo Camargo, líder de conteúdo e inteligência da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), destaca que o setor deve investir em uma solução que, inclusive, nasceu em Belo Horizonte.

“Nós temos uma característica muito interessante que é o restaurante por quilo, que já é naturalmente adaptado a esse tipo de consumo. Esse efeito terá uma característica diferente aqui do que lá fora, onde nos Estados Unidos eles estão muito preocupados com fastfoods”, explicou.

Quem também vê o momento como uma oportunidade é Rodrigo Segurado, vice-presidente executivo da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). O executivo destaca que o mercado consumidor busca mais funcionalidade, valor nutricional e saúde com o impulso dos medicamentos à base de GLP-1.

“As canetas emagrecedoras têm transformado não só o hábito alimentar, como também a forma de pensar e decidir do consumidor por uma alimentação mais saudável. Isso acaba alterando o mix de produtos nas lojas, cai o consumo de álcool, sobe o consumo de proteína. Surge uma oportunidade de vários outros tipos de produtos com valor nutricional ou com desempenhos e aspectos funcionais tem crescido muito no varejo alimentar”, declarou.

Série especial

Ao longo desta semana, a Itatiaia publicou uma série de reportagens mostrando o impacto da difusão dos medicamentos injetáveis na sociedade. As publicações abordaram as mudanças provocadas em bares e restaurantes, tratamentos estéticos, academias, e até na indústria da moda.

  1. ‘Canetas emagrecedoras’ se popularizam e chegam a 33% dos domicílios brasileiros
  2. Canetas emagrecedoras transformam o consumo e exigem adaptação de bares e restaurantes
  3. Mercado de academias e moda ganham impulso com canetas emagrecedoras
  4. Canetas emagrecedoras aumentam a demanda por cirurgias plásticas
  5. Contrabando de canetas emagrecedoras cresce no Brasil; especialista alerta para riscos
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Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.

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Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.