‘Canetas emagrecedoras’ se popularizam e chegam a 33% dos domicílios brasileiros
Uso de medicamentos injetáveis à base de semaglutida ou trizepatida cresceu nos últimos dois anos e agora muda dinâmicas da sociedade

“Pra gente que é obeso, é libertador”, “é uma coisa muito impressionante, revolucionou”. As frases de pacientes de medicamentos injetáveis para o tratamento de obesidade e diabetes, as famosas ‘canetas emagrecedoras’, revelam uma mudança de paradigma na medicina que provoca mudanças na sociedade brasileira.
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva divulgada em abril deste ano mostra que 62% dos brasileiros afirmam conhecer alguém que fez ou ainda faz uso de medicamentos à base de semaglutida ou trizepatida. O levantamento ainda revela que em 33% dos domicílios os entrevistados relataram ter ao menos um morador que usou ou ainda usa as canetas.
No final do ano passado, esse percentual era de 26%. A pesquisa foi realizada entre 3 e 9 de fevereiro com 1.004 pessoas de todo o país, com amostra ponderada de acordo com o perfil da população brasileira na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A diretora da regional de Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Bruna Galvão, explica que as canetas atuam no estômago reduzindo o esvaziamento gástrico para aumentar a saciedade, e também no sistema nervoso central para diminuir o apetite.
“A gente não gosta do termo ‘caneta emagrecedora’, porque fica parecendo um tratamento estético, quando na verdade é um tratamento de doença, mas acabou se popularizando. Essas canetas vão atuar em alguns hormônios, diferente da sibutramina que atuava somente em neurotransmissores. A semaglutida tem efeito similar ao GLP-1, um hormônio que a gente produz, e a tirzepatida tem efeito de GLP-1 e GIP, outro hormônio”, disse.

Importação cresceu 88%
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que a importação das canetas emagrecedoras em 2025, até então não produzidas em território nacional, saltou 88%, superando produtos tradicionais do comércio internacional como salmão, smartphones e azeite de oliva.
A compra de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro somou US$ 1,6 bilhão, cerca de R$ 9 bilhões. Em 2024, esse valor chegava a US$ 888 milhões. A Dinamarca, sede da farmacêutica Novo Nordisk, liderou a origem dos produtos com 44% do total, cerca de US$ 734,7 milhões (R$ 3,8 bilhões).
Para Marcela Menezes, endocrinologista da Santa Casa em Belo Horizonte, a popularização dos medicamentos se dá pelos efeitos colaterais. “A diferença é que a gente passa a usar a caneta e libera esses hormônios o tempo todo, ao invés de ser só na hora que a gente come. Eles também atuam no centro de recompensa do cérebro, diminuindo o que a gente chama de ruído alimentar”, explicou.
“Outras medicações, como o orlistate, atuavam nas enzimas do intestino depois que você já comeu, funcionando como um detergente que tira a gordura. A grande diferença é a potência dessas medicações em termos de efeito colateral. Agora, a gente tem uma medicação que tem potência, mas que o paciente fica confortável em um processo ‘desconfortável’, que é o emagrecimento”, emendou a especialista.

Quebra de patente e popularização
Em maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Ozivy, primeiro medicamento nacional à base de semaglutida fabricado pela farmacêutica EMS, enquanto em junho a Eurofarma começou a vender suas canetas Poviztra e Extensior com um desconto de quase 50%
Os novos medicamentos surgem na esteira da quebra da patente do Ozempic, da Novo Nordisk no Brasil. Agora, a tendência é de que novas fabricantes disputem o mercado, os preços caiam e os medicamentos se tornem cada vez mais acessíveis para a população.
Um relatório do Itaú BBA projeta que esse setor deve saltar do atual patamar de US$ 1,7 bilhão por ano para US$ 9 bilhões (R$ 46 bilhões) até 2030. Para Menezes, a chegada de novos medicamentos permite que mais pessoas realizem o tratamento, conferindo mais segurança aos processos e inibindo o mercado ilegal.
“Somos otimistas do uso dessa medicação pelo máximo de pessoas possível. Tudo que a gente puder fazer em uma farmacêutica que já tem história, segurança, sempre vai ser melhor. Se esse custo é mais baixo, mais pessoas podem utilizar essa medicação”, declarou.

O doutor Mauro Jácome, especialista em gastroenterologia, endoscopia e cirurgia, explica que o acesso dos pacientes ao tratamento regulado está cada vez mais fácil, trazendo uma modificação cultural na vida dos usuários das canetas emagrecedoras. Segundo ele, já há impactos até no setor de bares e restaurantes.
“Quando é lançado um tratamento tão efetivo, com resultados até comparáveis com resultados cirúrgicos, acesso cada vez mais fácil para os pacientes, possibilidade de quebra de patente, manipulação controlada e regulada, as medicações vão cair no gosto popular. A indústria farmacêutica está aumentando o investimento em pesquisas de novas substâncias para o tratamento da obesidade, e a boa notícia é que novas medicações estão chegando”, disse.
Série especial
Ao longo desta semana, a Itatiaia vai publicar uma série de reportagens mostrando o impacto da difusão dos medicamentos injetáveis na sociedade. As publicações vão abordar as mudanças provocadas em bares e restaurantes, tratamentos estéticos, academias, e até na indústria da moda.
Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.
Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.


