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Canetas emagrecedoras transformam o consumo e exigem adaptação de bares e restaurantes

Levantamento da Abrasel mostra que 61% dos empresários do setor já perceberam mudanças no consumo associadas aos medicamentos injetáveis

Por e 
Porções menores são apostas de bares e restaurantes para a nova demanda
Porções menores são apostas de bares e restaurantes para a nova demanda • Freepik

Comer é um dos atos mais prazerosos que conhecemos, indo além da necessidade fisiológica por nutrição e sendo fator cultural de socialização. Mas a popularização das famosas canetas emagrecedoras, medicamentos injetáveis à base de semaglutida ou trizepatida para o tratamento de obesidade e diabetes, está mudando a relação temos com a comida.

Segundo um levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), 61% dos empresários do setor já perceberam mudanças no consumo associadas ao uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro. O levantamento foi feito com 1.417 estabelecimentos associados, aponta que o principal impacto está na redução de pratos principais (56%) e sobremesas (65%).

Dos entrevistados, 64% observaram o crescimento nos pedidos de miniporções, enquanto mais de 70% apontaram maior frequência de escolhas consideradas mais leves. Segundo José Eduardo Camargo, líder de conteúdo e inteligência da Abrasel, essa mudança de comportamento não é necessariamente um ponto negativo.

“A gente tende a encarar como uma oportunidade de captar um público novo. Se você tem um cardápio preparado para atender as pessoas que estão usando caneta emagrecedora, você pode se destacar. Você pode ter uma perda ali, por exemplo, em uma refeição um pouco mais simples, porções menores, mas você pode compensar isso fazendo com que ele volte mais ao seu restaurante”, disse.

O especialista explica que o setor é adaptável às mudanças de consumo, citando como exemplo a entrada da Geração Z no mercado e com poder de compra. Para ele, a procura por saúde e emagrecimento é ‘perene’, independente do método usado pelas pessoas, sendo importante para o empresário ter um poder de adaptação. “Qualquer mudança no comportamento do consumidor, o setor tem que estar preparado para responder”, declarou.

Meias porções e cervejas ‘low-carb’

A transformação já é percebida em diversas redes em Belo Horizonte. É o caso do chef Caetano Sobrinho, paciente de um tratamento com canetas emagrecedoras e dono dos restaurantes Caê e Timbuca, ambos na região Centro-Sul da capital. O empresário percebeu a necessidade de adaptar o cardápio pela demanda dos seus clientes.

Chef Caetano Sobrinho, dono do Caê Restaurante Bar e do Timbucas, adaptou o cardápio a nova realidade • Célio Ribeiro | Itatiaia
Chef Caetano Sobrinho, dono do Caê Restaurante Bar e do Timbucas, adaptou o cardápio a nova realidade • Célio Ribeiro | Itatiaia

“A gente trouxe a ideia da meia porção para o restaurante, pensando muito nesse público que não consegue comer. Eu faço uso da caneta desde janeiro e realmente a gente não consegue comer. Ou come muito pouco, ou não come. A gente foi sentindo muito pela minha vivência e muito pela vivência dos garçons, que foram perguntando para os clientes”, conta.

O empresário também passou a ofertar cerveja sem glúten e com baixas calorias para os clientes. De acordo com a pesquisa da Abrasel, 65% dos empresários notaram alterações nos pedidos de bebidas alcoólicas, enquanto 53% perceberam o crescimento do consumo de opções não alcoólicas.

“As cervejas sem glúten são uma explosão. Tem dia que eu vendo mais sem glúten do que a tradicional, e para quem não tem muito problema com o paladar, acha que é mais ou menos a mesma coisa, é 40% de economia de caloria. São preocupações do mundo moderno, todo mundo quer mais saúde mesmo”, emenda.

“Libertador”

Caetano conta que sua visão sobre comida foi transformada com o tratamento contra a obesidade. O chefe conta que “sofria” para se alimentar e não conseguia se sentir satisfeito com porções normais de comida. “Particularmente me sinto grato por esse momento. Para a gente que era obeso é libertador”.

Realizando o tratamento há seis meses, o chef conta que já consegue comer melhor e não sente efeitos colaterais do uso das “canetinhas”. Para ele, como paciente “não há onde correr”, enquanto, como empresário, ainda existe espaço para adaptação. “É uma doença crônica. Durante muito tempo, a gente que tem problema de obesidade sempre sofreu no ‘emagrece e engorda’. Agora, a manutenção é muito legal”, completou.

A psicóloga Renata Borja explica que o medo de engordar novamente após o término do tratamento com os medicamentos é natural • Célio Ribeiro | Itatiaia
A psicóloga Renata Borja explica que o medo de engordar novamente após o término do tratamento com os medicamentos é natural • Célio Ribeiro | Itatiaia

Segundo a psicóloga Renata Borja, especialista em terapia cognitiva comportamental, comer é uma necessidade básica que funciona como fonte de prazer e estratégia de regulação emocional. Ela explica que o problema surge quando a comida se torna a única forma de se autorregular, gerando um comer compulsivo.

A especialista explica que a medicação ajuda o paciente a tirar a vontade de comer, mas o medo de engordar novamente após o término do tratamento é natural. Para evitar o efeito rebote, a pessoa precisa trabalhar a mente e adquirir novos hábitos e novas formas de se relacionar com a comida.

“Se ela não mudar isso, tirando a caneta, é provável que ela vai engordar novamente. Não é somente um medo, mas a pessoa não mudou os hábitos. A caneta tem de servir para a pessoa aprender a mudar seus hábitos e ver que ela pode comer de outras formas. Comida é uma fonte de prazer, e não tem como não ser uma fonte de prazer”, disse.

Impacto dentro de casa

O impacto dos medicamentos injetáveis também é refletido no consumo dentro de casa. Segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o consumo nos lares brasileiros em valores reais cresceu 1,48% em abril, se comparado com o mês de março, e 3,17% se comparado com o mesmo mês de 2025.

No acumulado do ano, o consumo apresentou crescimento real de 2,18%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Nas prateleiras, os estabelecimentos começaram a sentir os efeitos das canetas emagrecedoras, com clientes comprando menos carboidratos e mais proteínas e produtos fitness.

Segundo o presidente-executivo da Associação Mineira de Supermercados (Amis), Antonio Claret Nametala, essa nova realidade é uma oportunidade para os negócios. “O que as empresas tentam fazer é adaptar o seu mix de produtos, com uma atenção muito grande para os produtos alternativos e saudáveis. Hoje, a gente encontra esses produtos em grande parte dos supermercados”, declarou.

Série especial

Ao longo desta semana, a Itatiaia vai publicar uma série de reportagens mostrando o impacto da difusão dos medicamentos injetáveis na sociedade. As publicações vão abordar as mudanças provocadas em bares e restaurantes, tratamentos estéticos, academias, e até na indústria da moda.

Leia e escute:

  1. ‘Canetas emagrecedoras’ se popularizam e chegam a 33% dos domicílios brasileiros
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Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.

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Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.