Esquizofrenia: transtorno mental afeta mais de 500 mil brasileiros; entenda diagnóstico
Condição pode comprometer percepção da realidade, mas tem tratamento; especialista alerta que preconceito ainda é um dos principais desafios para pacientes

A esquizofrenia atinge cerca de 24 milhões de pessoas em todo o mundo, o equivalente a aproximadamente uma a cada 300 pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O transtorno mental crônico, considerado raro, afeta a forma como o paciente pensa, sente, percebe a realidade e se comporta dentro dela.
No Brasil, estimativas apontam que mais de 547 mil pessoas convivem com o transtorno no país. O dado foi divulgado na pesquisa “Prevalence and social determinants of schizophrenia in Brazil: a national population-based analysis”, liderado pelos pesquisadores Ary Gadelha e Carolina Ziebold, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp).
Embora seja frequentemente cercada por estigmas e desinformação, a condição, graças à ciência, pode ser tratada — permitindo que muitos pacientes tenham uma vida funcional e de qualidade, quando são diagnosticados e recebem um tratamento responsável e acompanhamento multiprofissional adequado.
O transtorno mental é frequentemente estigmatizado e associado à violência. Neste cenário, especialistas destacam que os pacientes são mais vítimas do que ameaças, visto que acabam sofrendo preconceitos, exclusões e dificuldades de acesso ao tratamento, por exemplo.
“A maioria das pessoas, a esmagadora maioria não é violenta. Há realmente um estigma. As pessoas que cometem violência no trânsito não são esquizofrênicas. A pessoa que agride alguém por futebol, ou por causa de partido político, não é esquizofrênica e não têm, necessariamente um transtorno psiquiátrico”, conta o professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFMG e presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, Rodrigo Nicolato.
Em entrevista à reportagem, Nicolato destaca: “a vítima, às vezes, é o paciente que, além da doença, precisa enfrentar medo, desinformação e preconceito” — acrescentando que o risco de acontecer episódios de violência, mesmo que raros, aumenta em situações específicas, como a psicose.
Por isso, vamos tentar responder algumas questões sobre esquizofrenia nesta reportagem:
- O que é a esquizofrenia e como funciona o transtorno mental crônico:
- Quais são os sintomas;
- Como é feito o diagnóstico;
- Cura e tratamento.
O que é e como funciona a esquizofrenia?
A esquizofrenia é um transtorno mental grave que altera, muitas vezes, como a pessoa percebe a realidade, organiza o pensamento, sente as emoções e se relaciona com os outros e o mundo. Nicolato explica que pacientes com o transtorno possuem uma alteração circuitária (refere-se a mudanças nas conexões, vias e redes de comunicação entre os neurônios) ligada à percepção, emoção e motivação.
“Essa alteração pode influenciar em delírios e alterações de juízo, que provocam alterações do pensamento. Por exemplo, o delírio de que alguém quer te matar ou que você está sendo perseguido. Também há alucinações que, na esquizofrenia, geralmente, são auditivas e visuais”, explica o presidente da Associação Mineira de Psiquiatria.
O especialista destaca que a esquizofrenia é diferente de transtornos de dupla personalidade. Além disso, a condição é caracterizada como um quadro psicótico, ou seja, uma condição de saúde mental caracterizada pela perda de contato com a realidade, mas nem todo quadro psicótico se enquadra na esquizofrenia.
Quais são os sintomas?
Os sintomas costumam ser divididos em três grupos: sintomas positivos, negativos e alterações cognitivas.
Sintomas positivos:
- Alucinações, principalmente auditivas, como “vozes”;
- Delírios;
- Pensamentos desorganizados;
- Alterações no comportamento.
Sintomas negativos:
- Redução da expressão emocional;
- Isolamento social;
- Dificuldade para sentir prazer;
- Diminuição da motivação e da iniciativa.
Alterações cognitivas:
- Dificuldades de concentração, memória e planejamento das atividades do dia a dia.
A intensidade dos sintomas varia entre os pacientes e pode alternar períodos de crise e de estabilidade.
Como é feito o diagnóstico?
Antes de chegar a um diagnóstico, Nicolato destaca que a esquizofrenia é uma combinação de vulnerabilidades genética, biológica e/ou fatores externos — “como alterações no parto, doenças que a gestante teve, uso de álcool e outras drogas com menos de 21 anos, ambientes estressantes e doenças clínicas podem predispor”, explicou.
Por isso, o diagnóstico para a doença é um processo complexo. O presidente da Associação Mineira de Psiquiatria aponta a importância de descartar quadros orgânicos e uso de drogas no momento em que o transtorno passa a ser investigado.
O diagnóstico para a esquizofrenia, em sua essência, é clínico. Ou seja, realizado por um psiquiatra, com base na avaliação dos sintomas, do histórico do paciente e da exclusão de outras condições que possam provocar manifestações semelhantes.
Não existe um exame laboratorial específico para confirmar a esquizofrenia. Quanto mais cedo o diagnóstico é realizado e o tratamento iniciado, maiores são as chances de controle dos sintomas e preservação da autonomia do paciente.
Geralmente a doença se manifesta no final da adolescência ou no início da vida adulta. Em homens pode aparecer mais cedo, de 18 a 25 anos, enquanto nas mulheres o início tende a ocorrer um pouco mais tarde, entre os 25 e 35 anos.
Existe tratamento para esquizofrenia?
A esquizofrenia é caracterizada como uma doença crônica: não há cura. Porém, o transtorno pode ser controlado por meio de tratamento psiquiátrico e multiprofissional.
“É uma doença crônica, mas não significa não ter esperança. Muitos pacientes conseguem remissão de sintomas, parcial ou total, boa estabilidade, uma recuperação funcional muito boa quando têm o tratamento adequado, acompanhamento contínuo, apoio familiar e social”, contou Nicolato.
O tratamento combina medicamentos antipsicóticos e um acompanhamento multiprofissional, especialmente psiquiátrico e psicoterapêutico. Em alguns casos também é necessário a assistência social e terapia ocupacional, por exemplo, além do apoio familiar.
“No tratamento adequado, muitos pacientes conseguem estudar, trabalhar, construir vínculos afetivos, ter uma vida funcional. Melhora muito quando o tratamento começa cedo, quando há adesão à medicação, além de um suporte familiar e acompanhamento contínuo”, destacou o professor e presidente da Associação Mineira de Psiquiatria.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.




