Alzheimer: novo medicamento consegue retardar a doença, mas não a interrompe

Leqembi, aprovado no Brasil, atua sobre placas no cérebro e mostra benefícios em estudos científicos

A aprovação do medicamento Leqembi pela Anvisa marca um novo capítulo no tratamento da doença de Alzheimer no Brasil. Diferente das terapias tradicionais, que apenas aliviam sintomas como perda de memória e confusão mental, o novo remédio atua diretamente em um dos mecanismos centrais da doença e consegue desacelerar sua progressão em pacientes no estágio inicial.

Especialistas em neurologia e farmacologia ouvidos pelo site de notícias g1 avaliam que o avanço é significativo, mas destacam que o medicamento não representa uma cura. Ele oferece mais tempo e qualidade de vida, desde que seja usado em pessoas que atendam a critérios médicos rigorosos e sob acompanhamento constante.

O Leqembi age contra a beta-amiloide, uma proteína que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer e forma placas associadas à degeneração dos neurônios. O medicamento é um anticorpo que ajuda o organismo a reduzir essas placas, retardando o avanço dos danos cerebrais.

Estudos

A eficácia do Leqembi foi comprovada em um grande estudo publicado em 2022 na revista científica New England Journal of Medicine. A pesquisa acompanhou 1.795 pessoas entre 50 e 90 anos diagnosticadas com Alzheimer em fase inicial. Os participantes receberam infusões do medicamento a cada duas semanas ao longo de 18 meses.

Ao final do período, os pacientes tratados apresentaram uma progressão mais lenta do declínio cognitivo e funcional em comparação com aqueles que não receberam o fármaco. Isso significa que memória, raciocínio e capacidade para atividades do dia a dia foram preservados por mais tempo.

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Segundo o pesquisador Eduardo Zimmer, do Hospital Moinhos de Vento, a aprovação no Brasil segue uma tendência internacional. Medicamentos dessa classe já estão disponíveis em dezenas de países e devem se tornar uma opção terapêutica em locais que tenham estrutura adequada para diagnóstico e acompanhamento.

Quem pode usar o Leqembi

O tratamento não é indicado para todos os pacientes com Alzheimer. Ele é recomendado apenas para pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve causada pela doença. Além disso, é obrigatório comprovar a presença de placas beta-amiloide no cérebro, por meio de exames de imagem ou análise do líquor.

Os pacientes também precisam passar por avaliação genética e acompanhamento médico contínuo. Para alguns especialistas, mesmo com possíveis efeitos adversos, o benefício pode compensar. A chance de retardar a evolução para fases mais graves da doença pesa na decisão de iniciar o tratamento.

Efeitos colaterais

Apesar dos benefícios, o uso do Leqembi está associado a riscos. Os principais efeitos colaterais pertencem a um grupo chamado ARIA, alterações detectadas em exames de imagem do cérebro, que podem incluir inchaços e pequenos sangramentos.

No estudo clínico, cerca de um quarto dos participantes apresentou reações relacionadas à infusão. Alterações cerebrais associadas ao amiloide ocorreram em pouco mais de 12 por cento dos casos, geralmente após a primeira dose. Também foram relatados sintomas como dor de cabeça, quedas, tontura e alterações neurológicas específicas.

Por isso, o tratamento exige monitoramento frequente e estrutura especializada para lidar com possíveis complicações.

Preço do Leqembi

Outro desafio é o preço. De acordo com o neurologista Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, o custo anual do tratamento nos Estados Unidos varia entre 25 mil e 30 mil dólares por paciente. Além do medicamento, há gastos com exames, infusões quinzenais e acompanhamento médico especializado.

Para Picarelli, a estratégia ainda está em fase inicial de desenvolvimento. A escolha dos pacientes deve ser criteriosa, considerando riscos, benefícios e condições clínicas individuais.

Impacto

Os testes clínicos indicam que o benefício do Leqembi vai além dos números. As escalas usadas nas pesquisas avaliam funções como memória, orientação, tomada de decisões e autonomia nas tarefas diárias. A melhora ou a desaceleração da perda dessas habilidades tende a refletir diretamente na qualidade de vida.

Na prática, familiares e cuidadores são os primeiros a perceber se houve mudança no dia a dia do paciente. Para os especialistas, esse olhar é fundamental para entender o real impacto do tratamento.

Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

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