Conselho da Copasa aprova alteração estatutária e avança em processo de privatização

Mudança que agora será enviada a uma assembleia de acionistas prevê a criação de uma ação preferencial ‘golden share’, que mantém mecanismos de controle e governança nas mãos do estado

Mudança no estatuto da Copasa mantém prerrogativas de governança do governo estadual mesmo com privatização

A Copasa avança nos trâmites de sua privatização com o anúncio de uma reforma do estatuto social da companhia em comunicado emitido pela diretoria na quinta-feira (29). As alterações incluem a criação de uma ação preferencial conhecida como “golden share”, que mantém mecanismos de controle e governança nas mãos do estado mesmo após a venda das ações à iniciativa privada.

A ação preferencial no modelo golden share era a proposta do governador Romeu Zema (Novo) desde o início das discussões sobre a venda da empresa, ainda em seu primeiro mandato. Com a medida, o Executivo Estadual mantém, por exemplo, a prerrogativa de vetar decisões estratégicas aprovadas pelo conselho da companhia.

A alteração estatutária da Copasa foi comunicada por meio de fato relevante assinado por Adriano Rudek de Moura, diretor-financeiro e de Relações com Investidores da empresa e aconteceu um dia após a definição do modelo de privatização da estatal.

Em aviso aos investidores e ao mercado publicado na quarta-feira (28), a Copasa definiu que a privatização se dará por meio de oferta secundária de ações e que os recursos obtidos com a operação serão destinados ao pagamento da dívida do Estado com a União, hoje avaliada em mais de R$ 180 bilhões.

A oferta secundária das ações implica na venda da participação do estado na Copasa sem a emissão de novos papéis pela companhia. Minas Gerais tem 50,3% das ações da empresa de saneamento. A efetivação das mudanças estatutárias e da criação da golden share estão condicionadas à liquidação da venda das ações estatais.

As mudanças no estatuto já aprovadas pelo conselho agora serão submetidas à avaliação de uma assembleia geral de acionistas.

A privatização da Copasa

A privatização da companhia de saneamento foi aprovada em dezembro do ano passado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) a partir do Projeto de Lei 4.380/2025, enviado à Casa pelo governador. O debate na Casa se deu no âmbito das discussões sobre o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e foi o mais polêmico e arrastado de um pacote com mais de dez propostas.

O PL 4.380/2025 teve sua tramitação precedida por uma atribulada discussão da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 24/2023, também de autoria de Zema, que derrubou a exigência de um referendo popular para autorizar a privatização da Copasa.

A privatização da Copasa, bem como da Gasmig e da Cemig, já integrava a pauta do governo Zema desde o primeiro mandato, mas ganhou novo fôlego com a criação do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Com o projeto permitindo a privatização e federalização de ativos como forma de pagar a dívida com a União, vários projetos da pauta privatista do Executivo andaram na Assembleia após anos parados, incluindo os imóveis do estado.

O Propag prevê que estados refinanciem em 30 anos a dívida com a União e estabelece mecanismos para reduzir os juros cobrados sobre as parcelas. O projeto do Executivo Estadual é ingressar no programa abatendo 20% do estoque devido. Para obter o valor necessário na amortização da dívida, o Executivo enviou projetos para federalizar ou privatizar estatais à Assembleia.

Hoje os juros são indexados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais 4% ao ano. Se o estado conseguir amortizar 20% do estoque da dívida, dois pontos percentuais da cobrança adicional são abatidos.

Outro ponto percentual pode ser abatido com o compromisso de que a economia obtida com essa redução de juros seja reinvestida no estado. O uso do valor que não será pago em forma de dívida deve, portanto, ser aplicado em ações de segurança pública, ensino profissionalizante, infraestrutura e outras áreas nevrálgicas da estrutura do estado. A venda da Copasa é defendida como forma de obter recursos para fazer tais investimentos no primeiro ano de adesão ao Propag.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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