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Cortar palavras

A fim de facilitar a compreensão da mensagem, é sempre bem-vindo priorizar frases curtas e diretas

No auge da 2ª Guerra Mundial, com a Inglaterra prestes a ser invadida, Winston Churchill fez, por escrito, um inusitado pedido aos seus subordinados do Ministério da Guerra:

“Vamos escrever com frases curtas e expressivas, mesmo que elas pareçam coloquiais.

Relatórios escritos da forma que eu proponho podem parecer rudimentares comparados com a superfície do jargão oficial. Mas a economia de tempo será enorme, e a disciplina de demonstrar os temas de forma concisa será uma ajuda ao pensamento claro.”

A advertência cairia muito bem no mundo jurídico, onde os textos são, em regra, prolixos, repetitivos e com palavras e expressões inúteis. Há excessos de adjetivos, advérbios de modo, pares de palavras, voz passiva, expressões em latim, repetições, estrutura sintática complexa, verborragia, linguagem eloquente, etc. Todos os dias nos deparamos com expressões como “é importante ressaltar”, “queremos dizer”, “nesse raciocínio”, “cabe destacar”, dentre outras. Algumas se transformaram quase em cláusula pétrea, como os tradicionais fins das petições: “Nestes termos, pede e espera deferimento”. E assim vamos escrevendo sem saber o que se está a dizer, com os nossos “noutro giro”, “neste diapasão”...

Tais construções não são necessariamente erradas, mas tornam o texto cansativo, enfadonho e até não lido. Recentemente, Ruy Castro advertiu: “O papel aceita tudo, como sabemos. Mas muitos leitores não”.

Daí a importância de cortar as palavras, colocando-se no lugar do leitor, já bastante atarefado, sob pena de a mensagem não chegar ao destinatário.

A fim de facilitar a compreensão da mensagem, é sempre bem-vindo priorizar frases curtas e diretas, evitar o uso do latim, adotar palavras de uso comum e facilmente compreensíveis, sem prejuízo à norma culta.

Outro ponto são as discussões inúteis, como as que mencionam temas já superados, com citações de jurisprudências e fartas doutrinas. Eliminar os excessos é tão importante quanto escrever.

Atento ao problema, o CNJ publicou, no final de dezembro de 2023, um Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples com o objetivo de adotar linguagem direta e compreensível a todas as pessoas na produção das decisões judiciais e na comunicação geral com a sociedade. O documento elenca cinco eixos para concretização, sendo as primeiras a simplificação da linguagem dos documentos e brevidade nas comunicações.

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Há alguns anos, o então advogado Luís Roberto Barroso, hoje Ministro do STF, escreveu um texto chamado “A revolução da brevidade”. O final é hilário:

Quem sabe um dia chegaremos à capacidade de síntese do aluno a quem a professora determinou que escrevesse uma redação sobre religião, sexo e nobreza, mas que fosse breve. Seguindo a orientação, o jovem produziu o seguinte primor de concisão: “Ai, meu Deus, como é bom, disse a princesa ainda ofegante”.

Em relação aos que buscam constar excesso de linguagem nos escritos deste aprendiz, só me resta apoiar em Blaise Pascal: “Se eu tivesse tido mais tempo, eu teria escrito uma carta mais curta”, uma vez que cortar o desnecessário, aprender a simplificar leva tempo, e disso sou calouro.

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Doutor e Mestre em Direito Penal pela UFMG e Desembargador no TJMG. Escreve aqui sobre Literatura, Arte e Direito.
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