Conheça o ciclo do nitrogênio e por que você não pode colocar peixes no aquário no primeiro dia

Entender o ciclo do nitrogênio é a diferença entre um hobby relaxante e um problema constante de mortalidade de animais

A paciência do aquarista durante essa ciclagem evita a perda de peixes e gastos desnecessários

Um erro comum cometido por iniciantes na criação de peixes é colocar os animais no tanque logo após enchê-lo com água. Esse hábito ignora um processo biológico básico chamado ciclo do nitrogênio. Sem ele, a água se torna tóxica em poucos dias e leva ao que os aquaristas chamam de “síndrome do aquário novo”.

Manuais de biologia aquática e diretrizes de bem-estar, como do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), o preparo do ecossistema é uma etapa indispensável e é o que vai garantir a sobrevivência e a saúde de qualquer espécie aquática.

O ciclo do nitrogênio é o processo de conversão de compostos orgânicos tóxicos em substâncias menos prejudiciais. Tudo começa com a decomposição de restos de comida, plantas e dejetos dos peixes, que geram a amônia. Em um aquário sem a devida maturação, a amônia acumula-se rapidamente, queimando as brânquias e o sistema nervoso dos animais.

O biólogo e especialista em aquarismo Ricardo de Oliveira explica, em orientações técnicas sobre a qualidade da água, que o segredo da vida subaquática está nas bactérias nitrificantes.

"É necessário dar tempo para que colônias de bactérias benéficas se fixem no filtro. Elas são as responsáveis por ‘comer’ a amônia e transformá-la em nitrito e, posteriormente, em nitrato”, esclarece.

Esse período de espera, conhecido como ciclagem do aquário, dura em média de 20 a 30 dias. Durante esse tempo, o aquarista deve manter o filtro e o oxigenador ligados, mesmo sem peixes. Segundo manuais técnicos da Sociedade Brasileira de Aquarismo, o nitrito, que surge no meio do processo, é tão perigoso quanto a amônia, pois impede o transporte de oxigênio pelo sangue do peixe. Essa cadeia de eventos causa sufocamento.

Somente quando os testes químicos indicarem que os níveis de amônia e nitrito estão em zero é que o ambiente é considerado seguro para os primeiros habitantes. A paciência do aquarista durante essa ciclagem evita a perda de peixes e gastos desnecessários.

Para especialistas, o uso de aceleradores biológicos, produtos que contêm cepas de bactérias vivas, pode encurtar esse tempo, mas não elimina a necessidade de testes. Introduzir peixes em uma água “imatura” configura negligência, já que o sofrimento do animal em um ambiente intoxicado é severo.

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A Itatiaia preparou um guia básico para fazer a ciclagem do seu aquário com segurança:

  • Monte o sistema completo

Encha o aquário, instale o filtro com as mídias biológicas (cerâmicas) e mantenha tudo ligado 24 horas por dia.

  • Adicione uma fonte de amônia

Pode ser uma pitada de ração a cada dois dias ou aceleradores biológicos comprados em lojas especializadas para alimentar as primeiras bactérias.

  • Monitore com testes

Utilize kits de testes de amônia e nitrito semanalmente. Você verá os níveis subirem e, após alguns dias, caírem drasticamente.

  • Não troque a água

Durante a ciclagem, evite trocas parciais (TPA), pois isso pode retardar o crescimento das colônias de bactérias.

  • Introdução gradual

Quando o ciclo estiver completo (amônia e nitrito zerados), coloque os peixes aos poucos, para que a biologia do aquário se adapte à nova carga de resíduos.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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