“Não basta curar o corpo”: como o Mater Dei equilibra tecnologia, crescimento e cuidado humano
José Henrique Salvador, presidente executivo da Rede Mater Dei de Saúde, explicou como a companhia usa inteligência artificial na gestão administrativa e na jornada dos pacientes

A saúde se tornou um dos setores mais complexos da economia moderna. Pressão por eficiência, custos crescentes, avanço tecnológico e demanda por atendimento humanizado convivem diariamente dentro dos hospitais brasileiros.
No Itatiaia Negócios Cast, José Henrique Salvador, presidente executivo da Rede Mater Dei de Saúde, fala sobre sucessão familiar, liderança, inteligência artificial e os desafios de preservar o acolhimento humano em uma rede hospitalar em expansão.
Ao longo da entrevista, o executivo detalha a cultura construída pela família Salvador ao longo de mais de 45 anos, comenta erros e aprendizados durante processos de aquisição e explica como a tecnologia pode aproximar médicos e pacientes, e não os afastar.
Leia a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto: Olá, eu sou Leonardo Bortoletto e você está no Itatiaia Negócios Cast, espaço criado pela Itatiaia para aproximar o mundo dos negócios do dia a dia das pessoas. Hoje eu recebo José Henrique Salvador, presidente executivo da Rede Mater Dei de Saúde. José Henrique, seja muito bem-vindo.
José Henrique Salvador: Muito obrigado. É um prazer estar aqui falando nesse microfone da Itatiaia. Para nós é sempre muito especial poder participar de conversas como essa e contar um pouco da história da Rede Mater Dei.
Leonardo Bortoletto: Quero começar falando justamente sobre isso. Qual é o DNA do Mater Dei?
José Henrique Salvador: O Mater Dei é uma empresa fundada em 1980 pelo Dr. Salvador e pela Dra. Norma. No ano passado completamos 45 anos de história. Hoje temos a felicidade de trabalhar com três gerações juntas dentro da empresa. Meus avós continuam muito presentes no dia a dia da instituição. Meu avô é presidente honorário do conselho e minha avó preside o conselho de família. A segunda geração teve papel fundamental na expansão da rede e nós, da terceira geração, temos a responsabilidade de dar continuidade a essa história olhando também para o futuro. Mas existe algo que sempre esteve presente desde o início: o propósito de servir. Nós existimos para servir aos pacientes. Esse sempre foi o centro das decisões da Rede Mater Dei.
Leonardo Bortoletto: Saúde talvez seja um dos negócios mais humanos que existem.
José Henrique Salvador: Sem dúvida. Nosso negócio é um negócio de confiança. Um hospital não sobrevive 45 anos se não conseguir construir confiança junto às famílias nos momentos mais delicados da vida das pessoas. E muitas vezes não basta curar o corpo. As pessoas chegam até nós buscando acolhimento, esperança, conforto emocional. Muitas vezes elas também querem uma cura para a alma. Então a tecnologia é fundamental, mas o aspecto humano precisa continuar no centro do cuidado.
Leonardo Bortoletto: Como equilibrar alta tecnologia e acolhimento humano?
José Henrique Salvador: Esse é um desafio permanente. Nós incorporamos muita tecnologia, seja em softwares, equipamentos ou inteligência artificial. Mas ao mesmo tempo treinamos muito nossas equipes para manter o contato humano. A tecnologia precisa ajudar o profissional de saúde a olhar mais para o paciente, e não menos.
Leonardo Bortoletto: O que diferencia o Mater Dei em um mercado tão competitivo?
José Henrique Salvador: A cultura. O Dr. Salvador sempre teve o hábito de visitar pacientes nos quartos para perguntar pessoalmente como eles estavam sendo atendidos. Com o tempo nós transformamos isso em processo. Hoje nossos diretores e lideranças visitam pacientes regularmente nas unidades para ouvir, entender problemas e acompanhar a experiência das pessoas dentro do hospital. Isso faz parte da cultura do Mater Dei.
Leonardo Bortoletto: E existe também um lado muito forte de disciplina financeira no crescimento da rede.
José Henrique Salvador: Sim. Como boa empresa familiar, sempre tivemos muito cuidado com estrutura de capital, investimentos e sustentabilidade financeira. Crescer é importante, mas crescer de forma sustentável é ainda mais importante.
Leonardo Bortoletto: Você é o primeiro presidente executivo não médico da história do Mater Dei.
José Henrique Salvador: Exatamente. Tivemos duas grandes transições na presidência executiva. Primeiro do Dr. Salvador para o Dr. Henrique e depois do Dr. Henrique para mim. Minha trajetória dentro do Mater Dei começou em 2006 como estagiário. Depois tive experiências fora, passei por instituições como Sírio-Libanês e Albert Einstein, fiz MBA em Columbia, em Nova York, e retornei para assumir posições de liderança dentro da rede. A ideia nunca foi romper com a história da empresa, mas complementar essa história com novas experiências e novas visões.
Leonardo Bortoletto: O que mudou quando você assumiu a presidência executiva?
José Henrique Salvador: Fizemos algumas mudanças importantes em áreas estratégicas, principalmente em gestão de pessoas. Entendemos que precisávamos fortalecer desenvolvimento de lideranças, avaliação de desempenho e cultura organizacional. Também construímos um novo planejamento estratégico para os próximos cinco anos, deixando muito claro quais são os movimentos prioritários para a empresa. Estratégia é inclusive o que não fazer.
Leonardo Bortoletto: O sistema de saúde ainda é dominado por lideranças médicas. Como você enxerga isso?
José Henrique Salvador: Eu acredito muito na complementaridade. Nem só visão médica, nem só visão administrativa. Quem vem de fora da saúde muitas vezes não entende a importância de respeitar o corpo clínico, ouvir os médicos e construir decisões junto com quem está na operação do cuidado. Ao mesmo tempo, hospitais precisam cada vez mais de gestão profissional, eficiência e visão estratégica.
Leonardo Bortoletto: Vamos falar de inteligência artificial.
José Henrique Salvador: Em 2021 adquirimos participação em uma empresa de tecnologia e IA chamada A3 Data. Desde então desenvolvemos projetos tanto na parte administrativa quanto na jornada dos pacientes. A inteligência artificial pode ajudar a identificar doenças mais cedo, melhorar eficiência e tornar o sistema mais sustentável. Mas existe um ponto que considero ainda mais importante: a IA pode deixar médicos mais humanos. Hoje existe muita burocracia na saúde. Muitos médicos passam metade da consulta olhando para um computador. Com inteligência artificial, conseguimos automatizar parte dessa burocracia e permitir que o médico tenha mais tempo olhando no olho do paciente.
Leonardo Bortoletto: E isso não reduz receita dos hospitais no longo prazo?
José Henrique Salvador: Sob uma visão de curto prazo talvez alguém pudesse pensar isso. Mas nós pensamos no longo prazo. Precisamos de um sistema de saúde sustentável. Se conseguirmos tratar doenças mais cedo e aumentar eficiência, podemos ampliar o acesso da população à saúde suplementar e tornar o sistema mais equilibrado.
Leonardo Bortoletto: Quero entrar agora nos erros. Existe algum aprendizado marcante?
José Henrique Salvador: Existe. Quando começamos nosso ciclo de aquisições, tentamos integrar algumas unidades muito rapidamente. Fizemos mudanças operacionais, sistemas e processos em velocidade alta demais. Hoje eu entendo que primeiro precisamos construir relações e confiança. Depois a integração acontece de forma muito mais saudável. Esse foi um aprendizado importante para nós.
Leonardo Bortoletto: Qual é o plano de voo da Rede Mater Dei?
José Henrique Salvador: Hoje estamos muito focados em fortalecer nossas unidades atuais. Temos operações em Belo Horizonte, Nova Lima, Betim, Contagem, Uberlândia, Goiânia, Salvador e Feira de Santana. Também seguimos avaliando crescimento inorgânico e novas aquisições. E em 2028 vamos inaugurar nossa unidade em São Paulo, no maior mercado de saúde do país.
Leonardo Bortoletto: Vamos ao Raio X. Crescer rápido ou crescer bem?
José Henrique Salvador: Crescer bem. Mas crescer sempre.
Leonardo Bortoletto: Tecnologia ou gente no centro da estratégia?
José Henrique Salvador: Gente. A tecnologia só faz sentido através das pessoas.
Leonardo Bortoletto: Saúde privada como complemento ou protagonista?
José Henrique Salvador: Ela nasceu como complemento, mas pode e deve ter protagonismo maior dentro do sistema.
Leonardo Bortoletto: Pergunta de ouro: ainda existe espaço para cuidado humano em um sistema tão pressionado por custos?
José Henrique Salvador: Sempre existe espaço para evoluir no cuidado humano. O paciente mudou muito. Hoje ele quer participar mais das decisões, entender tratamentos e construir junto o próprio cuidado. Os hospitais precisam estar preparados para isso.
Leonardo Bortoletto: Agora uma pergunta enviada por Euler Fuad, do Supernosso.
Euler Fuad: Como reter pessoas em um mercado cada vez mais desafiador?
José Henrique Salvador: Primeiro: trabalhando muito liderança. Muitas pessoas deixam empresas não pela instituição em si, mas pela liderança direta. Temos investido muito no desenvolvimento da média liderança dentro da Rede Mater Dei. Segundo: entender pequenos benefícios que realmente impactam a vida das pessoas. Às vezes não é apenas aumentar salário. É reduzir o custo de vida, melhorar deslocamento, criar melhores condições de trabalho e desenvolvimento.
Leonardo Bortoletto: Para encerrar: dois conselhos para quem lidera negócios complexos.
José Henrique Salvador: Primeiro: nunca se afastar das bases. Eu tento reservar tempo em todas as unidades para ouvir colaboradores pessoalmente. Segundo: pensar constantemente no desenvolvimento das pessoas. As empresas precisam preparar hoje as lideranças capazes de conduzi-las nos próximos 45 anos.
Leonardo Bortoletto: José Henrique, muito obrigado pela presença.
José Henrique Salvador: Obrigado a você. Foi um prazer participar.
Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.
