Quarta maior rua de BH preserva comércio que vai de placas esmaltadas a móveis de sucupira
Rua Jacuí, que passa por quatro bairros da capital, não se destaca apenas pelo tamanho

Quarta maior rua de Belo Horizonte, com 4,36 km de extensão, a Jacuí não se destaca apenas pelo tamanho. A rua, que passa por bairros como Floresta, Graça, Nova Floresta, Renascença e Ipiranga, tem comércio pujante, que ajuda na geração de empregos. Para quem nela vive ou trabalha, a Jacuí vai muito além de um corredor de trânsito; é um ecossistema de negócios que sobrevive há décadas por meio da resiliência de famílias e da adaptação às novas tecnologias.
A força do comércio na Rua Jacuí é a segunda reportagem da série “Comércio de bairro: O empreendedorismo que mantém a tradição e sobrevive em meio à era digital”. Dados oficiais do Governo Federal, compilados pelo Sebrae no estudo “A Força dos Pequenos Negócios” mostram que as micro e pequenas empresas (MPEs) mineiras totalizam 1,039 milhão de estabelecimentos, 2,2 milhões de empregos formais e R$ 46,1 bilhões em massa salarial. Nesse cenário, os setores de Serviços e Comércio, juntos, concentram cerca de 70% dos vínculos empregatícios e da massa salarial.
A empreendedora Marise Marselha Silveira, 63 anos, conhece como poucos a força do comércio de bairro. Ela comanda, há quase três décadas, a Placas Marselha, empresa especializada na produção de placas de jazigo, homenagens, ruas e inaugurações. Além disso, a loja é a única em Minas a produzir placas de fotos em porcelana.

A vocação para o negócio vem de família e continua passando de geração em geração, já que a filha de Marise, Camila de Assis Silveira, 39 anos, trabalha com a mãe na loja há 14 anos.
"Já venho de alguns anos trabalhando com placas. Somando tudo, são 36 anos. Trabalhei 10 anos na empresa, que é também da família, e depois a gente montou aqui, há 26 anos”, disse.
Apesar de manter a tradição do atendimento raiz, Camila conta que o WhatsApp representa o maior volume de vendas atualmente, permitindo atender clientes até de fora do Brasil. É a tecnologia aliada à tradição. Mãe e filha são categóricas ao afirmar que o diferencial do trabalho feito por elas reside na durabilidade dos materiais e no atendimento personalizado, algo que elas consideram superior às vendas genéricas encontradas em grandes plataformas de e-commerce.
“A gente tem, nesse tempo todo, um movimento muito bom na loja. De uns anos para cá, a gente vende mais pelo WhatsApp, mas muitos clientes conhecem a gente pela proximidade com o Centro e outros bairros, acho que pela facilidade de vir e também pelos produtos que a gente vende, que não são encontrados em qualquer esquina. Tem uma procura por produtos que, talvez, só a gente faça, como a esmaltação (placas feitas à mão), por exemplo”, diz Marise.
Camila é testemunha de como a tecnologia pode ser aliada da empreendedora. “Antigamente não tinha WhatsApp. Era mais e-mail, telefone e pessoalmente. Mas, hoje em dia, o maior volume de vendas é pelo WhatsApp, online. A gente vende para pessoas até fora do Brasil.”
A boa conversa e a paciência continuam fazendo parte do negócio. “A gente tem um atendimento personalizado, com paciência. É diferente da venda on-line que, talvez, ofereça um produto que não vai ter uma durabilidade tão grande quanto a nossa. Aí a gente tem a paciência de explicar”, comentou Camila, apontando que as placas para jazigo são as mais vendidas.
A resistência da madeira maciça

Mais adiante, na mesma via, o comércio de móveis encontra em Márcio Vignoli Federman, 68 anos, um guardião da qualidade. Presente no endereço desde 1983, Márcio deu continuidade ao negócio fundado por seu pai. Em um mercado dominado por móveis de MDF e aglomerado, a loja de Márcio aposta na madeira sucupira, vinda de Rondônia, conhecida por sua extrema dureza e resistência.
Márcio observa que, embora o comércio on-line tenha retirado clientes das lojas de rua, especialmente após a pandemia de Covid-19, o segredo da sobrevivência é a qualidade. Ele comercializa guarda-roupas, camas e as tradicionais beliches.
Apesar da concorrência, Márcio acredita que o segredo é o foco na necessidade do cliente e na resistência do produto. “Tem que ver mesmo o que o consumidor local precisa e o que os moradores do bairro precisam para montar um negócio que dê sucesso”, aconselha ele.
A conveniência do 'Centro no bairro'
Para os moradores, a pujança da Rua Jacuí traduz-se em comodidade. Douglas Camilo de Oliveira Costa, 50 anos, técnico em radiologia e morador da região, enfatiza que a principal vantagem da via é a autossuficiência. “Você não precisa sair daqui para lugar nenhum”, afirma Douglas, listando a presença de escolas, lojas de móveis, restaurantes, padarias e serviços automotivos ao longo de toda a extensão da rua.
Segundo ele, a Jacuí eliminou a necessidade de deslocamento até o Centro da cidade para compras básicas ou presentes.
O comércio, que se estende desde as proximidades do Minas Shopping até o bairro Floresta, garante que o morador encontre tudo o que precisa com uma simples caminhada, consolidando a rua como um dos pilares econômicos e sociais da capital mineira.
Curiosidade
Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), a maior rua da cidade é a Padre Argemiro Moreira, na Região Nordeste, com 10,68 km de extensão, que passa por treze bairros. Na sequência, aparecem as ruas Padre Pedro Pinto, na Região de Venda Nova, com 5,82 km; Pitangui, com 4,58 km; e Jacuí, com 4,36 km.
Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.
Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e graduanda em Letras pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG). Foi editora do Jornal da Itatiaia e, atualmente, integra a equipe do portal da Itatiaia como chefe de reportagem.




