Terras raras podem colocar o Brasil no centro da nova economia mundial
Otto Levy entende que o longo tempo para obtenção de licenças ambientais e os gargalos de infraestrutura reduziram a capacidade de expansão da mineração brasileira

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo e pode ocupar uma posição estratégica na nova economia global. Esses minerais são considerados essenciais para a fabricação de baterias, veículos elétricos, celulares, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas e diversas tecnologias ligadas à transição energética.
No entanto, segundo Otto Levy, diretor de Investimentos da CSN Mineração, o país corre o risco de repetir um erro histórico que é limitar-se à exportação de matéria-prima, deixando de agregar valor e gerar riqueza internamente.
Durante entrevista ao Itatiaia Negócios Cast, o executivo afirmou que o Brasil vive uma janela de oportunidade que pode redefinir o papel da mineração na economia nacional.
"Eu acho que é uma oportunidade muito grande."
Para explicar o potencial desse mercado, Otto faz uma comparação com a história do minério de ferro brasileiro.
Na década de 1990, Brasil e Austrália produziam volumes semelhantes. Enquanto o Brasil produzia cerca de 150 milhões de toneladas por ano, a Austrália extraía aproximadamente 200 milhões de toneladas.
Nas décadas seguintes, impulsionada pela demanda da China, a produção australiana saltou para 1,2 bilhão de toneladas, enquanto a brasileira chegou a cerca de 400 milhões de toneladas.
Segundo Otto Levy, se o Brasil tivesse acompanhado o mesmo ritmo de crescimento da Austrália, o resultado econômico teria sido gigantesco.
"Se nesses 20 anos nós tivéssemos crescido o que a Austrália cresceu, significaria uma entrada maior de recursos de US$ 1,2 trilhão, que é o valor da dívida interna do Brasil."
Para o executivo, a diferença não ocorreu por falta de recursos naturais.
"Nós temos reserva e temos reserva de melhor qualidade."
Na avaliação dele, fatores como o longo tempo para obtenção de licenças ambientais e os gargalos de infraestrutura reduziram a capacidade de expansão da mineração brasileira.
"Em média, um licenciamento leva de quatro a cinco anos."
Além disso, muitas empresas precisaram construir a própria infraestrutura para viabilizar seus projetos.
"As grandes mineradoras tiveram que construir suas próprias ferrovias e seus próprios portos."
Mas Otto Levy acredita que a maior oportunidade do Brasil está justamente nas terras raras.
Esses minerais passam por três etapas até chegar ao consumidor: a extração, a separação dos elementos químicos e a fabricação dos produtos finais.
Segundo ele, o país já possui a primeira etapa garantida.
"Deus garantiu isso para nós, porque colocou as terras raras aqui."
O desafio agora é dominar as etapas seguintes, que concentram a maior parte do valor econômico.
"A gente precisa adquirir tecnologia para separar esses elementos, porque o valor agregado aumenta de maneira exponencial."
Na avaliação do executivo, o Brasil precisa deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e atrair indústrias capazes de produzir itens de maior valor agregado.
"Por que não fazer as baterias dos carros aqui? Por que não fabricar celulares aqui?"
Questionado sobre o que faria se tivesse poder para definir a estratégia brasileira para as terras raras, Otto Levy foi direto.
"Eu exigiria fazer a separação aqui, sem dúvida."
Segundo ele, depois disso o país deveria identificar os segmentos em que realmente pode competir internacionalmente.
"Nenhum país é competitivo em tudo. Você tem que escolher."
Para isso, defende a criação de um ambiente de negócios capaz de atrair fabricantes para produzir no Brasil.
"Criar um arcabouço legal para atrair esses investimentos para cá."
Na avaliação do diretor da CSN Mineração, desperdiçar essa oportunidade significaria abrir mão de uma das maiores riquezas estratégicas das próximas décadas.
"Se a gente ficar só com o que Deus deu, é pouco diante dos recursos que isso pode gerar para o país."
Ao responder à Pergunta de Ouro do Itatiaia Negócios Cast, Otto Levy voltou ao tema e fez um diagnóstico sobre o aproveitamento da riqueza mineral brasileira.
"Infelizmente, a gente continua exportando oportunidades."
Hoje, segundo ele, a mineração representa cerca de 5% da economia brasileira, enquanto em países como Austrália, Canadá e Noruega esse percentual varia entre 25% e 35%.
Além disso, Otto lembra que o Brasil ainda conhece apenas parte do próprio território.
"Nós temos ainda 50% do nosso subsolo desconhecido. E, dos 50% que conhecemos, não exploramos toda a potencialidade."
Para o executivo, transformar essa realidade depende de planejamento, investimentos e da capacidade de agregar valor aos recursos naturais produzidos no país.
"A gente não pode perder isso porque isso é riqueza do povo brasileiro."
Ao longo da entrevista, Otto Levy também falou sobre competitividade, gestão pública, segurança jurídica, infraestrutura, inovação, sustentabilidade, mineração verde e os desafios para tornar o Brasil mais competitivo diante da nova economia mundial.
O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, com novos episódios às terças-feiras, às 19h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.
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Confira o episódio completo:
Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.



