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Indústria, produtividade e futuro: por que o Brasil ainda não é o país do presente

Flávio Roscoe, presidente licenciado da FIEMG, afirma que conjunto de encargos reduz a competitividade da produção brasileira frente aos produtos importados

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Flávio Roscoe, presidente licenciado da FIEMG, avalia que custos dos encargos acabam sendo incorporados ao preço final dos produtos • Reprodução | Youtube Itatiaia

A indústria foi decisiva para o desenvolvimento de Minas Gerais e continua sendo um dos principais motores da geração de riqueza, emprego e inovação. Para Flávio Roscoe, presidente licenciado da FIEMG, o Brasil reúne condições para crescer muito mais, mas precisa enfrentar desafios como o baixo investimento em infraestrutura, a falta de planejamento de longo prazo e a perda de competitividade da indústria nacional.

No Itatiaia Negócios Cast, o empresário fala sobre a vocação industrial de Minas, o papel do associativismo, produtividade, inteligência artificial, empresas centenárias e os caminhos para tornar o Brasil mais competitivo.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Queria começar com você falando sobre o DNA da indústria aqui. Você que durante muito tempo esteve na liderança desse setor aqui em Minas Gerais.

Flávio Roscoe: A indústria de Minas tem uma vocação histórica muito relevante. Minas Gerais nasceu a partir da mineração e, antes mesmo da indústria de transformação, já tinha uma atividade industrial muito forte. Depois vieram as indústrias têxteis para abastecer as minas e as fazendas, e até hoje temos empresas dessa época, como a AngloGold e a Cedro Cachoeira, que atravessaram mais de um século de história. A indústria mudou o cenário de Minas. Levou energia elétrica para diversas regiões, impulsionou infraestrutura e ajudou a criar uma cultura industrial que permanece até hoje. Minas é forte na siderurgia, no cimento, na indústria alimentícia, automotiva, de tecnologia e em vários outros segmentos. É uma indústria extremamente diversificada e que agrega valor para a sociedade por incorporar tecnologia e exigir mão de obra mais qualificada.

Leonardo Bortoletto: Olhando para a sua trajetória, a gente vê a vida empresarial e depois uma carreira institucional em prol do empresariado mineiro. Quando virou essa chave?

Flávio Roscoe: Logo no início. Sempre tive esse espírito associativista. Faz parte da minha personalidade trocar experiências, ajudar e também aprender com outras pessoas. Aos 23 anos participei da fundação do Sindicato das Indústrias Têxteis de Malhas e aquilo foi um grande aprendizado. Na empresa, muitas vezes, o empresário acaba sendo mais solitário e tomando as decisões sozinho. Já no associativismo isso é impossível. Você precisa dialogar, ouvir opiniões diferentes e construir consensos. Essa experiência acaba tornando o empresário um líder melhor também dentro da própria empresa.

Leonardo Bortoletto: Hoje, com toda a sua experiência, o que mais dificulta a produção no Brasil? O Brasil valoriza a indústria da maneira que ela merece?

Flávio Roscoe: O Brasil é um país extraordinário e justamente por isso comete muitos erros. A gente continua sendo o país do futuro e não o país do presente porque faz escolhas voltadas para o curto prazo. O principal desafio é a correta alocação dos recursos. Quando o país investe bem, multiplica riqueza. Quando investe mal, destrói riqueza presente e futura. Precisamos fazer escolhas pensando no longo prazo, tanto na vida pública quanto na vida privada.

Leonardo Bortoletto: O que nós estamos fazendo de certo e o que estamos fazendo de errado?

Flávio Roscoe: Eu acho que o Brasil abraçou muito rapidamente o populismo mediático. Hoje boa parte da classe política responde às demandas das redes sociais e falta uma visão de país para o futuro. Quando olhamos para a China, por exemplo, vemos um país que planeja os próximos cinquenta anos. Eles fizeram escolhas difíceis, investiram corretamente e hoje colhem os resultados. Enquanto isso, nós ainda discutimos o que deveríamos ter feito ontem e acabamos tomando decisões pensando apenas no impacto imediato.

Leonardo Bortoletto: Você acredita que essa postura dos governos acaba contaminando também o empresariado?

Flávio Roscoe: Com certeza. Quando não existe planejamento de médio e longo prazo, aumenta a insegurança para quem investe. Vivemos em um mundo que muda o tempo todo. Isso exige ainda mais planejamento. Sem uma direção clara, empresas e governos ficam muito mais sujeitos às oscilações do momento. Um exemplo é a infraestrutura. O Brasil reduziu investimentos ao longo das últimas décadas e isso gera estradas insuficientes, portos limitados, energia mais cara e aumento de custos. Tudo que é feito na urgência custa mais caro. Infelizmente continuamos adiando decisões importantes porque elas exigem sacrifícios no presente para gerar benefícios no futuro.

Leonardo Bortoletto: Você citou aqui duas empresas centenárias. O que separa uma empresa centenária das que vão ficando pelo meio do caminho?

Flávio Roscoe: Primeiro, o conjunto de decisões tomadas ao longo dos anos e a cultura empresarial. Mas existe um paradoxo: muitas vezes o maior problema de uma empresa bemsucedida é justamente a sua cultura. Quando ela dá muito certo, a tendência é não mudar. Só que a única certeza que nós temos é que tudo muda. A fórmula que funcionou ontem não necessariamente funciona hoje. As empresas que permanecem são aquelas que conseguiram transmitir uma cultura de adaptação entre as gerações e entenderam que precisam se reinventar constantemente.

Leonardo Bortoletto: A indústria talvez seja um dos setores que mais se transformou nos últimos anos. Qual é o impacto da automação e da inteligência artificial? E até que ponto isso pode ser uma ameaça aos empregos?

Flávio Roscoe: Esse debate existe há muito tempo. Quando surgiram os automóveis, diziam que acabariam com o emprego dos carroceiros. Depois vieram os computadores e a mesma discussão aconteceu. A tecnologia sempre aumenta a produtividade e é justamente esse ganho de produtividade que gera riqueza para a sociedade. Quanto mais produtividade, melhor tende a ser a qualidade de vida das pessoas. Sempre digo que, quando um governo anuncia uma medida, a população deveria fazer uma pergunta: ela aumenta ou reduz a produtividade da sociedade? Se aumenta, gera riqueza. Se reduz, compromete renda, desenvolvimento e qualidade de vida.

Leonardo Bortoletto: Muitas pessoas associam produtividade a trabalhar mais. Não é isso, né?

Flávio Roscoe: Pelo contrário. O aumento da produtividade faz com que as pessoas consigam produzir mais trabalhando melhor, e não necessariamente mais. Antes da Revolução Industrial, as pessoas trabalhavam muito, tinham baixa expectativa de vida e pouco acesso a bens e serviços. Foi o desenvolvimento industrial que aumentou a expectativa de vida, melhorou as condições de saúde, ampliou o acesso à tecnologia e elevou a qualidade de vida da população. Toda essa riqueza foi gerada pelo aumento da produtividade proporcionado pelo setor produtivo.

Leonardo Bortoletto: Hoje, olhando para o cenário global, onde o Brasil pode fazer diferença?

Flávio Roscoe: O Brasil tem uma enorme oportunidade na produção de alimentos. Somos um dos países mais preservados do mundo e temos condições naturais extremamente favoráveis. Além disso, nossa agricultura evoluiu graças à tecnologia desenvolvida em conjunto com a indústria. Tratores, sementes, máquinas e métodos de plantio fizeram a produtividade brasileira crescer muito. Essa separação entre indústria e agronegócio é apenas conceitual. Um depende do outro. A indústria fornece tecnologia para o campo e o campo movimenta uma enorme cadeia industrial. Essa combinação coloca o Brasil entre as maiores potências mundiais na produção de alimentos.

RAIO X

Leonardo Bortoletto: Produzir no Brasil ou importar mais barato?

Flávio Roscoe: Produzir no Brasil, sempre. A riqueza fica aqui. Toda vez que optamos por importar, estamos gerando riqueza em outro país. O Brasil precisa criar condições para que quem produz aqui tenha a mesma competitividade dos produtos importados. Se pudermos escolher, que seja sempre a produção nacional.

Leonardo Bortoletto: Crescimento agressivo ou caixa saudável?

Flávio Roscoe: No Brasil de hoje, com juros elevados, caixa saudável. É a opção que garante maior longevidade às empresas. Quando os juros forem baixos, crescer de forma mais agressiva passa a fazer mais sentido. Mas, no cenário atual, preservar caixa é a decisão mais inteligente.

Leonardo Bortoletto: Visão industrial ou visão financeira?

Flávio Roscoe: Visão industrial. Mas nenhuma empresa sobrevive sem as duas. A visão financeira garante a sustentabilidade e permite a expansão. Já a visão industrial é a responsável pelos ganhos de produtividade. E produtividade é o que gera riqueza e faz uma empresa prosperar.

PERGUNTA DE OURO

Leonardo Bortoletto: Por que tanta empresa tradicional está deixando de fabricar no Brasil?

Flávio Roscoe: Pelos custos que o Brasil vem impondo a quem produz aqui. Muitas vezes passou a ser mais interessante importar do que fabricar. Existe o chamado "Custo Brasil oculto", formado por obrigações que não aparecem como impostos, mas que recaem sobre quem produz. Só neste governo, esse custo aumentou em cerca de R$ 150 bilhões por ano. São despesas embutidas na conta de energia e em diversas contribuições criadas pelo governo. Como não são tributos formais, os produtos importados não pagam esses valores e as empresas brasileiras não conseguem retirar esses custos quando exportam. Esse custo acaba sendo incorporado ao preço final dos produtos e reduz a competitividade da indústria nacional. É por isso que, muitas vezes, o mesmo produto fabricado no Brasil custa muito mais caro do que no exterior.

RESPONDE AÍ, CHEFE

Pergunta enviada por Clemente Faria Júnior, presidente da Bamaq e da Lotus Cars Brasil.

Clemente Faria Júnior: Qual é a maior dificuldade na formação dos líderes do futuro, tanto na empresa quanto nas entidades que você lidera?

Flávio Roscoe: O primeiro desafio é encontrar pessoas vocacionadas para liderar. Liderança não pode ser apenas um projeto de poder. O líder precisa querer construir, somar e transformar. Nas empresas, procuro pessoas curiosas, com capacidade de adaptação e vontade permanente de aprender. O conhecimento muda rapidamente e quem deixa de aprender fica para trás. Também valorizo muito a empatia. Bons líderes conseguem enxergar o lado do outro, manter diálogo constante e construir relações de confiança. Para mim, capacidade de aprender e empatia continuam sendo as características mais importantes de um líder.

CONSELHOS FINAIS

Leonardo Bortoletto: Que conselhos você deixaria para quem quer empreender no Brasil de hoje?

Flávio Roscoe: O primeiro é estar atento às mudanças. O mundo está evoluindo em uma velocidade impressionante. Quem está começando um negócio hoje deve incorporar a inteligência artificial desde o primeiro dia. Ela representa uma enorme oportunidade para aumentar produtividade, reduzir custos e entregar mais valor ao cliente. Em qualquer segmento, é preciso inovar para se diferenciar. A inteligência artificial nivelou o ponto de partida para muitas empresas. Quem aprender a utilizá-la melhor sairá na frente.

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, com novos episódios às terças-feiras, às 19h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.