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Por que o transporte ainda trava o crescimento do Brasil?

Vander Costa, presidente do Sistema Transporte (CNT, SEST SENAT e ITL), afirma que o Brasil precisa ampliar os investimentos em transporte coletivo para oferecer mais eficiência, conforto e previsibilidade

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Vander Costa falou sobre infraestrutura, hidrovias, ferrovias, descarbonização, renovação da frota, competitividade e os caminhos para tornar o transporte brasileiro mais eficiente • Reprodução | Youtube Itatiaia

Infraestrutura, mobilidade, tecnologia, qualificação profissional e competitividade. Esses foram alguns dos temas da conversa entre Leonardo Bortoletto e Vander Costa, presidente do Sistema Transporte (CNT, SEST SENAT e ITL), no Itatiaia Negócios Cast.

Ao longo da entrevista, o executivo explica por que o transporte é um dos pilares da economia brasileira, analisa os impactos de décadas de baixo investimento em infraestrutura e defende a integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias e transporte coletivo para aumentar a competitividade e impulsionar o desenvolvimento do país.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Vander, você é presidente do Sistema Transporte, que reúne CNT, SEST SENAT e ITL. Como funciona essa estrutura?

Vander Costa: A CNT coordena todo o sistema. Ela faz a representação política e institucional do transporte brasileiro, reunindo os modais aéreo, rodoviário, ferroviário e aquaviário, tanto de cargas quanto de passageiros. O SEST SENAT faz parte do Sistema S e é responsável pela formação profissional dos trabalhadores do transporte e também pela área social. Temos clínicas de odontologia, psicologia e nutrição, oferecendo esses serviços gratuitamente aos trabalhadores do setor, já que os empresários contribuem compulsoriamente por meio da folha de pagamento. Já o ITL, Instituto de Transporte e Logística, atua na formação da alta gestão. Trabalhamos com empresários, diretores e presidentes de empresas de transporte, oferecendo cursos de especialização e pós-graduação em parceria com instituições como a Fundação Dom Cabral e também com organizações internacionais, como a Deutsche Bahn, da Alemanha. O objetivo é qualificar quem toma as decisões dentro do setor.

Leonardo Bortoletto: Normalmente vemos o Sistema S voltado para a formação dos trabalhadores. O diferencial é que vocês também investem na formação dos gestores?

Vander Costa: Exatamente. O SEST SENAT cuida da formação do trabalhador, desde a operação até os cargos de gerência. Já o ITL trabalha exclusivamente com a alta gestão, preparando empresários e executivos para administrar empresas de transporte em um ambiente cada vez mais complexo.

Leonardo Bortoletto: O transporte aparece em praticamente todas as entrevistas que fazemos porque está presente em toda a economia. Qual é o tamanho dessa importância?

Vander Costa: O transporte representa aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto, mas sua importância vai muito além desse número. Nós costumamos dizer que o transporte move o Brasil. Se hoje o país possui uma agricultura forte, alguém precisa levar fertilizantes para o campo. Depois da colheita, alguém precisa transportar essa produção até os consumidores, dentro e fora do Brasil. O transporte está presente em toda a cadeia produtiva e é fundamental para que a economia funcione.

Leonardo Bortoletto: O Brasil ainda depende muito do transporte rodoviário?

Vander Costa: Sim. O modal rodoviário continua predominando, tanto no Brasil quanto em boa parte do mundo. Mas a CNT defende o desenvolvimento da multimodalidade. Precisamos trabalhar melhor com ferrovias e hidrovias para reduzir o custo logístico. Ao mesmo tempo, é importante entender que o transporte rodoviário continuará indispensável. A primeira e a última etapa de praticamente toda operação logística são feitas por caminhão. É ele quem leva a mercadoria até o supermercado, até a indústria ou até a casa do consumidor

Leonardo Bortoletto: O Brasil poderia aproveitar melhor outros modais?

Vander Costa: Sem dúvida. Hoje a produção agropecuária mudou muito de localização. Antes estava concentrada nas regiões Sul e Sudeste. Agora ela avançou para o Centro-Oeste e parte do Nordeste. O Brasil possui rios navegáveis com enorme potencial, mas muitos deles ainda não foram transformados em hidrovias. O transporte hidroviário é mais barato, mais eficiente e menos poluente do que o rodoviário. Precisamos aproveitar melhor essa vocação natural do país.

Leonardo Bortoletto: Quando há problemas no transporte, eles rapidamente ganham repercussão. Por que isso acontece?

Vander Costa: Porque o transporte interfere diretamente na vida das pessoas. Muitas vezes o problema parece ser um caminhão parado na estrada, mas, na verdade, ele evidencia uma deficiência maior da infraestrutura. Além disso, o Brasil ainda privilegia muito o transporte individual. Se investíssemos mais em metrôs, trens urbanos, VLTs e corredores exclusivos para ônibus, teríamos menos congestionamentos e uma mobilidade muito melhor.

Leonardo Bortoletto: O principal entrave continua sendo a infraestrutura?

Vander Costa: Sim. O Brasil investe menos de 1% do PIB em infraestrutura, enquanto países como China e Índia investem entre 3% e 4%. Durante décadas deixamos de investir em ferrovias, hidrovias e outras estruturas importantes. O resultado é que o caminhão precisou assumir sozinho uma demanda cada vez maior. Não foi uma escolha pelo transporte rodoviário. Foi consequência da falta de investimentos nos demais modais.

Leonardo Bortoletto: E qual é o impacto disso para quem está em casa?

Vander Costa: O consumidor paga mais caro pelos produtos. Quando utilizamos um sistema de transporte menos eficiente, o custo da operação aumenta. Se conseguirmos ampliar o uso de ferrovias e hidrovias, teremos uma logística mais barata e isso também poderá reduzir o preço pago pelo consumidor.

Leonardo Bortoletto: Quando olhamos para o futuro, qual é o papel da tecnologia dentro do transporte?

Vander Costa: Ela já é determinante em diversos aspectos. Hoje, por exemplo, você consegue acompanhar pelo aplicativo exatamente o horário em que o ônibus vai passar no ponto. Isso traz previsibilidade para quem utiliza o transporte coletivo. No transporte de cargas, já existem robôs operando em centros de distribuição, movimentando pallets e preparando cargas para os caminhões. A separação de mercadorias é automatizada por leitura de código de barras e a emissão de documentos fiscais acontece de forma totalmente integrada aos sistemas das empresas. Leonardo Bortoletto: Essa tecnologia também contribui para a segurança?

Vander Costa: Muito. Hoje caminhões e ônibus possuem sistemas embarcados que monitoram a condução do motorista. Existem câmeras capazes de identificar sinais de fadiga pela movimentação dos olhos e emitir alertas para que ele faça uma parada antes que aconteça um acidente. Em alguns casos, a própria central de monitoramento consegue acompanhar essas informações em tempo real e orientar o motorista a interromper a viagem para descansar. Tudo isso reduz significativamente os riscos nas estradas.

Leonardo Bortoletto: O conforto dos veículos também mudou bastante?

Vander Costa: Mudou completamente. Hoje um caminhão moderno oferece um nível de conforto superior ao de muitos automóveis. Diversas tecnologias chegaram primeiro aos caminhões, como piloto automático, sistemas eletrônicos de frenagem e recursos de segurança. Os veículos atuais possuem diferentes sistemas de suspensão e amortecimento que se ajustam automaticamente ao peso transportado e até ao peso do motorista, proporcionando mais estabilidade, conforto e segurança durante a viagem.

Leonardo Bortoletto: Isso reforça a importância da renovação da frota?

Vander Costa: Sem dúvida. Sempre defendemos que os programas de renovação de frota incentivem a compra de veículos novos, mas também retirem de circulação os veículos muito antigos. Além de serem menos seguros, eles consomem mais combustível, emitem mais poluentes e apresentam desempenho inferior aos modelos atuais. Renovar a frota significa aumentar a produtividade, reduzir acidentes e melhorar as condições ambientais do transporte brasileiro.

Leonardo Bortoletto: A descarbonização também passou a fazer parte das prioridades do setor?

Vander Costa: Sim. É um tema permanente. Uma das medidas que defendo é a criação de um IPVA progressivo, estimulando a substituição de veículos antigos por modelos mais modernos. Um caminhão fabricado há trinta ou quarenta anos transporta uma quantidade muito menor de carga consumindo praticamente o mesmo volume de combustível de um caminhão atual. Além disso, os veículos mais modernos emitem até 95% menos poluentes do que aqueles produzidos décadas atrás.

Leonardo Bortoletto: Então renovar a frota pode ser uma medida mais eficiente do que outras alternativas para reduzir emissões?

Vander Costa: Pode, porque é uma solução de aplicação imediata. O Brasil pode avançar com diferentes tecnologias, como eletrificação ou uso de novos combustíveis, mas renovar a frota já produz resultados importantes tanto na redução das emissões quanto no aumento da eficiência operacional.

Leonardo Bortoletto: Quando pensamos no transporte das próximas décadas, o transporte coletivo também faz parte dessa transformação?

Vander Costa: Faz parte e precisa ser prioridade. Para reduzir congestionamentos e emissões, o Brasil deve incentivar o transporte coletivo em vez do transporte individual. Quando uma cidade oferece metrô, trem urbano, corredores exclusivos para ônibus, conforto, segurança e previsibilidade, as pessoas naturalmente deixam o carro em casa. É exatamente isso que acontece em diversos países europeus e não há motivo para que o Brasil não caminhe na mesma direção.

Leonardo Bortoletto: Além da infraestrutura, existe outro desafio que aparece em praticamente todos os setores da economia: a formação de pessoas. Como o SEST SENAT atua nesse processo?

Vander Costa: O SEST SENAT trabalha justamente para qualificar a mão de obra do transporte. Todos os trabalhadores do setor podem fazer cursos gratuitamente, porque esse sistema é financiado pelos próprios empresários. Para a comunidade em geral, os cursos também são oferecidos a um custo bastante acessível. Nós realizamos feiras de empregabilidade e qualificação em diversas regiões do país. Em uma delas, em Teresina, conseguimos preencher mais de duas mil vagas com pessoas da comunidade. Nosso objetivo é preparar profissionais para atender às necessidades do transporte brasileiro.

Leonardo Bortoletto: Pensando nos próximos vinte anos, um dos grandes desafios parece ser atrair os jovens para o setor. Isso realmente preocupa?

Vander Costa: Preocupa muito. Nós desenvolvemos programas para tentar aproximar os jovens da profissão, mas ainda enfrentamos dificuldades. Hoje falta motorista no mercado e o jovem já não demonstra o mesmo interesse que existia no passado.

Leonardo Bortoletto: Na sua avaliação, por que isso acontece?

Vander Costa: Acho que a internet mudou bastante esse comportamento. Antigamente muitos jovens queriam ser motoristas porque viajariam pelo Brasil, conheceriam lugares diferentes. Hoje eles conseguem conhecer o mundo pela internet, sem sair de casa. Também houve mudanças na própria dinâmica familiar. Era muito comum o pai motorista incentivar o filho a seguir a mesma profissão. Nas férias escolares, por exemplo, muitos levavam os filhos nas viagens. Isso praticamente deixou de acontecer. Hoje não vemos mais esse desejo de continuidade da profissão entre as novas gerações.

Leonardo Bortoletto: Ainda não existe uma solução para esse desafio?

Vander Costa: Ainda estamos pesquisando caminhos. Conseguimos atrair jovens para atividades dentro dos centros de distribuição e armazéns porque ali existe muita tecnologia. Mas, especificamente para a profissão de motorista de caminhão, ainda não encontramos uma solução definitiva para despertar esse interesse.

Leonardo Bortoletto: Uma frota mais moderna poderia ajudar nesse processo?

Vander Costa: Sem dúvida. As empresas que possuem caminhões mais novos têm menos dificuldade para contratar motoristas. Os veículos atuais oferecem muito mais conforto, segurança e tecnologia, o que torna a profissão mais atrativa. O problema é que renovar a frota exige investimentos elevados. Hoje um caminhão pode custar mais de um milhão de reais.

Leonardo Bortoletto: Esse desafio de atrair pessoas não é exclusivo do transporte.

Vander Costa: Não. É uma realidade de vários setores. Mas acredito que precisamos criar mecanismos para estimular a qualificação profissional. Os programas sociais são importantes, mas também precisam oferecer caminhos para que as pessoas retornem ao mercado de trabalho. Defendemos que quem recebe benefícios sociais tenha oportunidade de se qualificar. O SEST SENAT está preparado para formar esses profissionais e ajudá-los a ingressar no mercado de trabalho do transporte. Essa ainda é uma proposta que defendemos e esperamos ver avançar.

No quadro Raio X, Vander Costa respondeu perguntas rápidas sobre infraestrutura, logística e qualificação profissional.

Leonardo Bortoletto: Rodovia ou ferrovia?

Vander Costa: Ambos. Elas são complementares. A ferrovia transporta grandes volumes, mas entre a fábrica, a mina ou a fazenda e o terminal sempre haverá o transporte rodoviário.

Leonardo Bortoletto: Expansão da infraestrutura ou redução do custo logístico?

Vander Costa: As duas coisas caminham juntas. Investir em infraestrutura é justamente o que permite reduzir o custo logístico. Uma rodovia melhor reduz o consumo de combustível e torna o frete mais barato.

Leonardo Bortoletto: Tecnologia ou qualificação profissional?

Vander Costa: Elas também são complementares. A tecnologia só produz resultados quando existem profissionais preparados para utilizá-la.

Na sequência, Vander Costa respondeu às Perguntas de Ouro, enviadas pela audiência da Itatiaia.

Leonardo Bortoletto: O que precisa mudar para que o transporte deixe de ser um obstáculo para o crescimento do Brasil?

Vander Costa: Precisamos ter uma visão voltada para o transporte coletivo, em vez de priorizar apenas o transporte individual. O Brasil precisa investir mais em sistemas de transporte de grande capacidade, como metrôs, trens urbanos e corredores exclusivos para ônibus. Quando o transporte coletivo oferece previsibilidade, qualidade e conforto, as pessoas naturalmente deixam o automóvel e a motocicleta em casa. Isso melhora a mobilidade, reduz congestionamentos e contribui para o desenvolvimento das cidades.

Leonardo Bortoletto: Então a mudança também passa por uma transformação cultural?

Vander Costa: Sem dúvida. Mas essa mudança depende da infraestrutura. Quando o transporte coletivo funciona bem, ele se torna a melhor opção para o cidadão. É o que acontece em vários países da Europa. Lá, muitas famílias utilizam o carro apenas nos finais de semana porque encontram conforto, segurança e eficiência no transporte público durante a semana.

Leonardo Bortoletto: Mais uma Pergunta de Ouro da audiência: por que um país que produz tanto ainda paga caro para transportar seus produtos?

Vander Costa: Porque, nas últimas cinco décadas, o Brasil praticamente deixou de investir em infraestrutura. Houve até um desinvestimento. Tivemos uma redução significativa da malha ferroviária em operação e ainda não aproveitamos o potencial das hidrovias. Também possuímos uma extensa costa marítima, mas a cabotagem ainda é pouco utilizada. Falta vontade política para estimular esses modais e construir um sistema de transporte mais eficiente e competitivo.

No quadro Responde Aí, Chefe, Vander Costa respondeu à pergunta enviada por Jônadan Ma, presidente da Comissão Nacional de Leite da CNA e presidente da Comissão Técnica de Pecuária de Leite da Faemg.

Jônadan Ma: O frete é um dos itens que mais pesa no custo da produção de leite. Como reduzir esse impacto, principalmente nas estradas vicinais, onde as condições de tráfego costumam ser mais difíceis?

Vander Costa: A primeira questão é entender que muitas vezes o valor descontado do produtor é maior do que o efetivamente pago ao transportador. É importante acompanhar esse processo e garantir que os custos sejam transparentes. Do ponto de vista operacional, o caminho passa por tecnologia e infraestrutura. Quando as estradas de terra recebem manutenção adequada, aumenta a produtividade da operação e o custo do frete diminui.

Leonardo Bortoletto: A tecnologia também trouxe ganhos importantes para esse tipo de operação?

Vander Costa: Sem dúvida. No passado, o leite era transportado em latões, o que tornava o custo por litro muito maior. Hoje utilizamos veículos de grande capacidade, capazes de transportar volumes muito superiores com mais eficiência. Quando existe investimento em tecnologia, melhoria das estradas e ganho de produtividade, o custo por litro transportado tende a diminuir, beneficiando toda a cadeia.

Para encerrar a entrevista, Vander Costa deixou um conselho para quem deseja construir carreira no setor de transporte e logística.

Vander Costa: Procure investir em tecnologia e trabalhar com uma frota moderna. Os veículos atuais são mais eficientes, consomem menos combustível, oferecem mais segurança e incorporam recursos que aumentam a produtividade. Quem pretende construir uma carreira no transporte precisa acompanhar essa evolução. O futuro do setor está na inovação, na eficiência operacional e na qualificação permanente.

O episódio completo do Itatiaia Negócios Cast está disponível no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

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