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Do campo ao prato: os desafios da produção e comercialização de alimentos no Brasil

Rodolfo Molinari, produtor rural e presidente da Comissão Técnica de Hortaliças e Flores da FAEMG, fala sobre a formação dos preços e o caminho percorrido pelos produtos até o consumidor

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Produtor rural
Para Rodolfo Molinari, a tecnologia pode contribuir também para aproximar o consumidor da origem dos alimentos • Reprodução | Youtube Itatiaia

Com mais de 25 anos de experiência como produtor rural, Rodolfo Molinari acompanha as transformações do agronegócio e os desafios de quem trabalha com hortaliças. Em entrevista a Leonardo Bortoletto no Itatiaia Negócios Cast, ele fala sobre tecnologia, clima, mão de obra, crédito, previsibilidade de mercado e formação de preços.

Ao longo da conversa, Rodolfo explica o que acontece entre o momento do plantio e a chegada dos alimentos ao supermercado e mostra por que o preço pode variar tanto ao longo da cadeia.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Como você é produtor rural desde 2000, o que mais mudou nessa atividade nos últimos mais de 25 anos?

Rodolfo Molinari: Muita coisa. Acho que o mais impactante foi a questão da tecnologia. Nos anos iniciais dos anos 2000, a gente não imaginava drones, GPS, máquinas automatizadas pesadas no campo. Isso hoje é comum. A gente passou por um momento muito rápido de evolução nessa questão da tecnologia, mas também no desenvolvimento de novas variedades, variedades mais resistentes a doenças e mais produtivas.

Houve uma mudança no mercado, no consumidor. Então hoje o produtor não pode só pensar em produzir, mas tem que também pensar em produzir e mostrar como está produzindo. Entra muito a questão da sustentabilidade, de rastreabilidade.

Leonardo Bortoletto: Quando a gente chega no supermercado e simplesmente retira o produto, não imagina a história que está por detrás daquele produto para chegar ali. Qual é o principal desafio hoje, ou os principais desafios, de quem está no campo até chegar no supermercado?

Rodolfo Molinari: É comum a gente dizer que o campo é uma indústria só a céu aberto. Então você tem que produzir o seu produto, mas tem problemas com o clima, problemas burocráticos, de legislações, e você não consegue ter uma previsibilidade de mercado, principalmente no ramo das hortaliças.

Leonardo Bortoletto: Dá um exemplo para quem está acompanhando a gente conseguir entender o tamanho dessa sensibilidade.

Rodolfo Molinari: Chuvas, por exemplo. O excesso de chuva prejudica, apodrece as folhas, o tubérculo não tem uma vida de prateleira tão longa. E isso você não controla. Calor excessivo, a mesma coisa. A falta de água também, você não consegue fazer o desenvolvimento.

Então, o clima, sem dúvida nenhuma, é um dos principais obstáculos para o produtor de hortaliça.

Mas tem a questão de mercado, um excesso de mercadoria. Porque hortaliças, diferentemente de outros produtos, você tem a data para colher. Amadureceu, você tem que colher e vender. Não dá para esperar. Não dá para guardar e falar: “Ah, o preço está ruim, eu vou guardar”. Não tem essa opção.

Leonardo Bortoletto: O Brasil tem condição de produzir hortaliças numa escala maior do que produz hoje? Onde está o gargalo para aumentar essa produtividade?

Rodolfo Molinari: Total. O Brasil tem muita condição de produzir. Aqui em Minas, nós temos regiões que servem de exemplo. A região de São Gotardo, a gente trabalha ali com grandes escalas de produção, acima de mil hectares de alho, de cenoura.

O gargalo, sem sombra de dúvida, é a questão de infraestrutura, a questão de segurança jurídica no campo e acesso a crédito.

São os três que mais devem impactar nesse crescimento, porque as hortaliças têm um valor de produção muito alto por unidade. Então, para você ter uma produção em alta escala, existe uma necessidade de aporte muito grande e, para isso, a gente precisa de crédito.

Leonardo Bortoletto: Hoje a gente tem um produtor profissional no Brasil, a gente ainda tem um produtor tradicional. Ele trata como empresa ou é um negócio menos estruturado?

Rodolfo Molinari: Temos os dois. No nosso caso, acho que 90% ainda é um produtor que a gente considera um produtor de agricultura familiar, dos grandes cinturões.

Esse modelo tradicional está mudando. O produtor precisa se profissionalizar ou acaba saindo do mercado. Os grandes produtores profissionais estão aumentando.

Leonardo Bortoletto: As decisões demoram mais porque existe todo um processo. Como tomar as melhores decisões?

Rodolfo Molinari: O produtor muitas vezes está no escuro. Ele trabalha muito no feeling, na tradição, na história que ele tem e também existe um efeito manada. Se determinado produto foi bom no ano passado, ele aumenta a área.

O ideal seria ter previsibilidade de mercado e uma relação melhor com o consumidor e com o revendedor.

Leonardo Bortoletto: Quando você fala em previsibilidade, está falando de contratos?

Rodolfo Molinari: Sim. Muito pouco existe nesse segmento. Em hortaliças folhosas, cenoura, cebola, contratos são muito raros. A batata é um pouco diferente, principalmente pela indústria, que tem contratos com fábricas de batata pré-frita.

Leonardo Bortoletto: O comprador acaba se aproveitando dessa fragilidade do produtor?

Rodolfo Molinari: Existem compradores que fazem isso, mas também existem muitas variáveis. Você não tem previsibilidade de volume.

Existe uma falta de conexão entre o campo e o mercado. Você não consegue saber quando vai ter um pico de consumo.

Então a gente precisa alinhar melhor essas cadeias e criar instrumentos que tragam previsibilidade. Hoje é muito no escuro.

Leonardo Bortoletto: E a falta de mão de obra?

Rodolfo Molinari: É um problema de muitos anos. É uma questão geracional e também nacional.

No alho, por exemplo, você precisa de 12 a 14 pessoas por hectare. Minas Gerais tem 8 mil hectares de alho. Então você precisa de mais de 100 mil pessoas. A falta de mão de obra pode determinar a sobrevivência da lavoura.

Leonardo Bortoletto: Existe solução para isso?

Rodolfo Molinari: No curto prazo, sim. Política pública, incentivos e a necessidade de trabalhar registrado ou uma flexibilização da legislação para uma contratação menos rígida.

Leonardo Bortoletto: A tecnologia já consegue substituir parte dessa mão de obra nas hortaliças?

Rodolfo Molinari: Existe tecnologia, mas ela ainda substitui pouco a mão de obra. A tecnologia está muito mais na genética e nas embalagens. No campo, ainda é muito intensiva em mão de obra.

Leonardo Bortoletto: Essa modernização chega mais aos grandes produtores ou também ao médio e pequeno?

Rodolfo Molinari: Principalmente aos grandes, mas algumas coisas chegam aos pequenos também. Existem programas de assistência técnica e gerencial que levam novidade, conhecimento e tecnologia para o pequeno produtor.

Leonardo Bortoletto: O produtor participa da formação do preço?

Rodolfo Molinari: É oferta e demanda. Como não existe contrato, no momento da colheita, se o mercado está cheio, você vende pelo preço que o comprador está pagando. Se o mercado está vazio, você consegue segurar um pouco.

Leonardo Bortoletto: É quase como a loteria.

Rodolfo Molinari: É.

Leonardo Bortoletto: O preço pode mudar muito entre o plantio e a colheita?

Rodolfo Molinari: Pode mudar drasticamente. Na batata, por exemplo, dependendo da quantidade de caminhões que chegam à Ceasa e da demanda, o preço pode mudar no mesmo dia. O telefone tocando é um termômetro de preço.

Leonardo Bortoletto: Por que o consumidor paga caro no supermercado quando o produtor não recebe esse valor?

Rodolfo Molinari: É o sistema, a cadeia. O produtor paga impostos. Depois tem o distribuidor, que acrescenta frete, perdas, custos e impostos. Depois chega ao supermercado, que tem seus custos e sua margem.

É uma cadeia longa e isso acaba aumentando o preço. Mas não dá para simplesmente falar que o supermercado está colocando toda essa diferença no bolso.

Leonardo Bortoletto: O que precisaria mudar?

Rodolfo Molinari: Precisamos encurtar a cadeia quando for possível, reduzir custos e ter uma relação melhor e uma troca maior de informações entre o mercado e o produtor.

Leonardo Bortoletto: Se você tivesse uma caneta de ouro para mudar uma única etapa dessa cadeia, o que mudaria?

Rodolfo Molinari: Eu teria cuidado com essa questão de eliminar intermediários. Em alguns casos, você consegue vender diretamente para o supermercado. Em outros, precisa do distribuidor.

Eu não acabaria com etapas. Eu buscaria regular melhor essas etapas e, principalmente, reduzir a carga de impostos.

Leonardo Bortoletto: Qual é o impacto dos impostos?

Rodolfo Molinari: É difícil dar um número exato porque existem diferentes situações e isenções, mas chega próximo de 30% a 40% ao longo do caminho do produtor até o consumidor.

RAIO X

Leonardo Bortoletto: Produzir mais ou produzir melhor?

Rodolfo Molinari: Melhor. Estudar o mercado, produzir mais por hectare, com menor custo e melhor qualidade.

Leonardo Bortoletto: Tecnologia ou experiência de campo?

Rodolfo Molinari: Os dois. A tecnologia é indispensável, mas você não consegue implementar tecnologia sem a experiência de campo.

Leonardo Bortoletto: Mercado interno ou exportação?

Rodolfo Molinari: Mercado interno. Pela questão da validade dos nossos produtos, por serem perecíveis, é um mercado mais fácil para trabalhar e existe demanda. Alguns produtos a gente nem consegue suprir essa demanda. No caso do alho, por exemplo, nós somos insuficientes na produção de alho no Brasil porque a gente consome e tem que importar.

O mercado externo não é difícil, principalmente para culturas como batata e alho. Como o alho tem um período de safra maior, naquele período, às vezes, a gente acaba exportando para alguns países do Mercosul. Mas, para hortaliças, o mercado interno é, sem dúvida, o carro-chefe.

PERGUNTA DE OURO

Leonardo Bortoletto: O que os consumidores deveriam saber antes de reclamar do preço de um alimento no supermercado?

Rodolfo Molinari: Ele sai do produtor e vai para o distribuidor. Já tem custo de frete, impostos e estrutura desse distribuidor. Para sair do distribuidor e chegar ao supermercado, tem mais custo também, tanto de frete, logística e impostos quanto custo operacional.

Ao chegar ao supermercado, existem as margens e, além de tudo, ainda tem uma perda muito grande. A gente perde muito aí. Alguns produtos, folhosas, alguns legumes que são mais sensíveis, podem chegar a perder 15% na banca.

Então isso tudo acaba influenciando no preço. Muitas vezes o consumidor chega lá e fala: “Ah, mas está caro”. E geralmente essa culpa cai no produtor rural.

E não é o último, é o que menos recebe na estrutura toda da cadeia.

Leonardo Bortoletto: É verdade que tem época certa para comprar determinados alimentos e pagar menos?

Rodolfo Molinari: Sim, principalmente épocas de inverno, que a gente tem uma temperatura mais amena, menos chuva. Você consegue controlar a irrigação, consegue ter maiores produtividades nas hortaliças.

Geralmente, de maio até agosto, setembro, teoricamente a gente tem uma oferta maior de produtos, que acaba impactando no preço, ficando um pouco mais barato para o consumidor final.

RESPONDE AÍ, CHEFE

Alexandre Poni, do Verdemar: Como é que se faz para inovar a qualidade desses produtos de hortifruti? O que o setor pensa hoje? Como é que a gente faz para esse consumidor cada vez saber isso mais?

Rodolfo Molinari: O produtor tem uma necessidade constante de buscar melhorias e inovações. Hoje a gente já tem a rastreabilidade, que é uma ferramenta muito importante para o consumidor final. Através de um QR Code, o consumidor consegue identificar onde esse produto foi produzido e o que foi utilizado na produção dele.

A gente precisa avançar muito ainda no campo. A gente precisa pensar em embalagens mais práticas, mostrar o quanto a gente é realmente sustentável, o que a gente faz para economia de água na irrigação, o que a gente utiliza de produtos biológicos para evitar a utilização de químicos.

Isso já acontece muito no campo e, às vezes, a gente não está conseguindo transmitir isso ao consumidor final. Então a nossa busca é justamente divulgar mais isso, levar para a ponta.

CONSELHOS FINAIS

Leonardo Bortoletto: Rodolfo, dois conselhos que você deixaria para quem quer entrar no agronegócio?

Rodolfo Molinari: O primeiro é que você conheça bem o que é o agronegócio. Se você não é do ramo, entenda primeiro. Vá a algumas áreas, algumas fazendas, faça um bom estudo em relação ao investimento e ao que você pretende fazer.

E o segundo é ter uma estratégia muito bem definida e, principalmente, uma estrutura financeira muito robusta, porque são culturas que demandam alto investimento. Se a gente for usar o crédito no valor dos juros que está hoje, ela fica impraticável, é inviável, não tem como fazer.

Então uma robustez na questão financeira é muito importante.

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, que vai ao ar todos os sábados, às 8h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Confira a entrevista completa:

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

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