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Transporte, infraestrutura e os desafios da logística brasileira

Gladstone Lobato, presidente da FETCEMG, explica que quando a infraestrutura não acompanha o crescimento da economia, os custos aumentam em toda a cadeia logística

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Gladstone Lobato conta que o transporte rodoviário responde por cerca de 60% da movimentação de cargas no Brasil • Reprodução | Youtube Itatiaia

Infraestrutura, transporte rodoviário, logística, competitividade, tecnologia e qualificação profissional. Esses foram alguns dos temas da conversa entre Leonardo Bortoletto e Gladstone Lobato, presidente da FETCEMG (Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Estado de Minas Gerais), no Itatiaia Negócios Cast.

Ao longo da entrevista, o executivo explica por que o transporte de cargas é um dos pilares da economia brasileira, analisa os impactos da falta de investimentos em infraestrutura e mostra como os custos da logística acabam influenciando diretamente o preço pago pelo consumidor.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Gladstone, você é hoje uma das principais lideranças do transporte de cargas em Minas Gerais, mas como esse setor entrou na sua vida?

Gladstone Lobato: Eu costumo brincar que nasci dentro de um ônibus. Minha família trabalha com transporte desde 1954 e cresci acompanhando esse universo. Depois passei a administrar a transportadora da família e percebi a importância da atuação institucional para defender os interesses do setor. Foi assim que comecei a participar dos sindicatos e, posteriormente, da Federação.

Leonardo Bortoletto: Hoje a FETCEMG representa um setor bastante expressivo.

Gladstone Lobato: Sem dúvida. Em Minas Gerais são cerca de 31 mil empresas de transporte de cargas e logística, que empregam aproximadamente 400 mil trabalhadores. É um setor fundamental para o funcionamento da economia.

Leonardo Bortoletto: Além da Federação, você também preside o Conselho Regional do SEST SENAT. Qual é o papel dessa estrutura?

Gladstone Lobato: O SEST SENAT oferece qualificação profissional, atendimento em saúde, odontologia, psicologia, nutrição e diversas outras atividades voltadas aos trabalhadores do transporte e seus dependentes. O problema é que muitos empresários já contribuem para o sistema, mas ainda deixam de utilizar todos esses serviços.

Leonardo Bortoletto: Então existe uma estrutura pronta, mas que ainda é pouco aproveitada?

Gladstone Lobato: Exatamente. Muitas vezes por falta de informação. O empresário está tão focado na operação da empresa que acaba esquecendo de utilizar benefícios que já fazem parte da contribuição paga pelo próprio setor.

Leonardo Bortoletto: Quando falamos em transporte rodoviário, ainda estamos falando da espinha dorsal da economia brasileira?

Gladstone Lobato: Com certeza. Cerca de 60% de toda a carga transportada no Brasil passa pelas rodovias. Em Minas Gerais, esse percentual ultrapassa 70%. O transporte rodoviário conecta todos os setores da economia. Enquanto tudo funciona, ele passa despercebido. Mas basta parar para que toda a sociedade sinta os impactos.

Leonardo Bortoletto: E isso explica por que o custo do transporte influencia praticamente todos os produtos?

Gladstone Lobato: Exatamente. O transporte está presente em toda a cadeia produtiva. Quando aumenta o diesel, o custo dos pneus, das peças ou quando a infraestrutura dificulta a operação, esses custos acabam chegando ao consumidor.

Leonardo Bortoletto: O que mais prejudica a eficiência da logística brasileira hoje?

Gladstone Lobato: Sem dúvida, a infraestrutura. O transporte depende de rodovias em boas condições para funcionar com eficiência. Quando o caminhão fica parado em congestionamentos ou enfrenta estradas mal conservadas, o custo da operação aumenta e isso acaba afetando toda a cadeia produtiva.

Leonardo Bortoletto: Você costuma citar o Anel Rodoviário de Belo Horizonte como um exemplo desse problema.

Gladstone Lobato: É um dos principais gargalos. Um caminhão que chega pela BR-381 e precisa seguir pela BR-040 pode gastar duas ou até três horas apenas para atravessar Belo Horizonte. Além disso, a pista tem problemas de conservação, sinalização e falta de acostamento. Tudo isso reduz a produtividade do transporte.

Leonardo Bortoletto: Essa deficiência da infraestrutura afeta apenas as transportadoras?

Gladstone Lobato: De forma alguma. Ela afeta toda a economia. Vou dar um exemplo: atendemos uma empresa no Vale do Aço utilizando 43 carretas por dia. Se o trecho entre Belo Horizonte e João Monlevade fosse totalmente duplicado, conseguiríamos fazer o mesmo serviço com 31 ou 32 carretas. Estamos falando de cerca de 25% de redução na frota necessária.

Leonardo Bortoletto: Ou seja, são caminhões, motoristas e custos que poderiam ser evitados.

Gladstone Lobato: Exatamente. São menos veículos, menos combustível, menos pneus, menos manutenção e menor tempo de viagem. Tudo isso reduz custos. Quando a infraestrutura melhora, quem ganha não é apenas a transportadora, mas toda a cadeia produtiva e, principalmente, o consumidor.

Leonardo Bortoletto: Muita gente questiona o pedágio. Como o setor vê essa discussão?

Gladstone Lobato: Nós não somos contra pagar pedágio. Somos favoráveis ao pedágio justo. Se houver rodovias duplicadas, segurança, manutenção, atendimento ao usuário e melhores condições de tráfego, o investimento se paga pela redução dos custos operacionais. O problema não é pagar; é pagar sem receber uma infraestrutura de qualidade.

Leonardo Bortoletto: Nos últimos anos, o perfil do motorista também mudou bastante?

Gladstone Lobato: Mudou muito. Os caminhões evoluíram tecnologicamente e hoje oferecem praticamente os mesmos recursos encontrados nos veículos utilizados na Europa. Isso exige um motorista mais preparado para operar equipamentos cada vez mais modernos e sofisticados.

Leonardo Bortoletto: E qual é o papel do SEST SENAT nessa transformação?

Gladstone Lobato: O SEST SENAT investe justamente nessa qualificação. Temos caminhões e ônibus de última geração para treinamento, além de cursos voltados à formação de novos motoristas e à atualização dos profissionais que já atuam no setor. A tecnologia evolui rapidamente e a capacitação precisa acompanhar esse ritmo.

Leonardo Bortoletto: O setor ainda enfrenta dificuldades para contratar novos motoristas?

Gladstone Lobato: Sim. Esse é um desafio que não é exclusivo do transporte, mas em nosso setor ele exige atenção especial. Precisamos atrair mais profissionais, inclusive mulheres, porque a profissão mudou muito. Hoje os caminhões oferecem tecnologia, conforto e segurança muito superiores aos de décadas atrás.

Leonardo Bortoletto: Então aquela imagem do motorista que passa semanas na estrada já não representa toda a realidade do setor?

Gladstone Lobato: Exatamente. Existem operações específicas, rotas programadas e condições de trabalho muito diferentes das que existiam no passado. Mas, independentemente da tecnologia embarcada, continuaremos precisando de pessoas cada vez mais preparadas para operar esses equipamentos.

Leonardo Bortoletto: A tecnologia pode substituir o motorista no futuro?

Gladstone Lobato: Não. Ela será uma grande aliada, mas não substituirá o ser humano. O que vamos precisar é de profissionais mais qualificados para utilizar toda essa tecnologia disponível.

Leonardo Bortoletto: O Brasil está preparado para uma logística mais integrada entre rodovias, ferrovias e portos?

Gladstone Lobato: Nós precisamos parar de discutir caminhão contra ferrovia. Não existe essa disputa. O correto é falar em intermodalidade. Cada modal tem sua função e eles precisam trabalhar juntos.

Leonardo Bortoletto: O caminhão continuará sendo indispensável?

Gladstone Lobato: Sem dúvida. Existe uma frase muito conhecida nos Estados Unidos que diz que "a primeira e a última milha sempre serão do caminhão". Aqui podemos dizer que o primeiro e o último quilômetro também serão do caminhão. O trem não busca a carga na porta da fábrica e o navio não entrega mercadoria na casa das pessoas. Sempre haverá um caminhão conectando essas etapas.

Leonardo Bortoletto: Na sua avaliação, qual é o maior desafio da logística brasileira para os próximos anos?

Gladstone Lobato: É fazer a infraestrutura crescer. Precisamos mobilizar governos e a sociedade para tirar do papel projetos importantes, como rodovias, ferrovias e contornos viários. Não podemos aceitar obras estratégicas paradas durante anos por causa da burocracia. Isso reduz nossa competitividade e aumenta o custo da produção brasileira.

Leonardo Bortoletto: Esse problema é mais de gestão pública ou das empresas?

Gladstone Lobato: Na minha opinião, é principalmente do poder público. O governo é muito burocrático e lento. Muitas vezes falta agilidade para executar projetos que são fundamentais para o desenvolvimento do país.

Leonardo Bortoletto: Você percebe alguma evolução? Gladstone Lobato: Sim. Minas Gerais avançou com novas concessões rodoviárias e isso representa um passo importante. Sempre que há um projeto bem estruturado e investimentos consistentes, a infraestrutura melhora e toda a sociedade é beneficiada.

No quadro Raio X, Gladstone Lobato respondeu três perguntas rápidas sobre infraestrutura, integração entre os modais e qualificação profissional.

Leonardo Bortoletto: Ferrovia ou rodovia?

Gladstone Lobato: Ambos. Cada modal tem sua função. Não existe disputa entre caminhão e ferrovia. Eles se complementam e precisam trabalhar de forma integrada para tornar a logística brasileira mais eficiente.

Leonardo Bortoletto: Crescimento da demanda ou melhoria da infraestrutura?

Gladstone Lobato: Melhoria da infraestrutura. Nossa estrutura atual já não acompanha o crescimento da produção. Se não investirmos em rodovias, ferrovias e logística, a economia continuará perdendo competitividade.

Leonardo Bortoletto: Tecnologia ou mão de obra qualificada?

Gladstone Lobato: Mão de obra qualificada. A tecnologia já existe e evolui constantemente. O grande desafio é preparar pessoas para utilizá-la da melhor forma possível.

Na sequência, Gladstone Lobato respondeu às Perguntas de Ouro, enviadas pela audiência da Itatiaia.

Leonardo Bortoletto: Quem paga a conta da logística ineficiente: as empresas ou o consumidor?

Gladstone Lobato: O consumidor. As transportadoras trabalham com margens muito pequenas e não conseguem absorver aumentos de custos, como diesel, pneus, peças e manutenção. Tudo isso acaba sendo repassado ao longo da cadeia até chegar ao preço final dos produtos.

Leonardo Bortoletto: Por que tudo fica mais caro quando o transporte enfrenta dificuldades?

Gladstone Lobato: Porque o transporte está presente em todos os setores da economia. Qualquer aumento de custo ou problema operacional acaba impactando toda a cadeia produtiva e, inevitavelmente, chega ao consumidor final.

No quadro Responde Aí, Chefe, Gladstone Lobato respondeu à pergunta enviada por Antônio de Salvo, presidente do Sistema Faemg Senar.

Antônio de Salvo: Temos muitos desafios dentro do nosso setor. Na sua visão, qual é o caminho que devemos seguir para manter o transporte competitivo, produtivo e lucrativo para quem trabalha nesse segmento?

Gladstone Lobato: O primeiro passo é investir continuamente na qualificação das pessoas. Precisamos preparar melhor nossos profissionais, cuidar da saúde dos trabalhadores e acompanhar a evolução tecnológica do setor. Ao mesmo tempo, é fundamental fortalecer as entidades representativas e continuar cobrando investimentos em infraestrutura. Só com profissionais capacitados, tecnologia e rodovias mais eficientes conseguiremos tornar o transporte mais competitivo e contribuir para o desenvolvimento do país.

Para encerrar a entrevista, Gladstone Lobato deixou dois conselhos para quem deseja empreender no setor de transporte.

Leonardo Bortoletto: Que orientação você daria para quem pretende construir carreira ou abrir uma empresa no transporte?

Gladstone Lobato: O transporte exige profissionalismo. Não é um setor para amadores. É preciso estudar o mercado, conhecer profundamente a operação e fazer um planejamento financeiro rigoroso. Também é fundamental manter capital de giro suficiente para enfrentar os prazos de recebimento e evitar assumir dívidas além da capacidade da empresa. No transporte, planejamento e gestão fazem toda a diferença.

O episódio completo do Itatiaia Negócios Cast está disponível no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

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