O Brasil produz muito leite, então por que ainda importa tanto?
Jônadan Ma, presidente da Comissão Nacional de Leite da CNA, aponta que fortalecer a produção nacional é uma estratégia importante para reduzir a dependência das importações

Produção, tecnologia, gestão, competitividade, importações e o futuro da pecuária leiteira. Esses foram alguns dos temas da conversa entre Leonardo Bortoletto e Jônadan Ma, presidente da Comissão Nacional de Leite da CNA e presidente da Comissão Técnica de Pecuária de Leite da Faemg, no Itatiaia Negócios Cast.
Ao longo da entrevista, o produtor rural explica como o Brasil se tornou um dos cinco maiores produtores de leite do mundo, mas ainda enfrenta dificuldades para competir internacionalmente em razão dos altos custos de produção, da concorrência com produtos importados e da necessidade de fortalecer a cadeia produtiva nacional.
Leia a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto: Jonadan, você é uma das principais lideranças da pecuária leiteira brasileira. Como começou sua relação com o leite?
Jônadan Ma: Venho de uma família de produtores rurais. Meu pai imigrou da China para o Brasil na década de 1960 e iniciou sua atuação na atividade agrícola. Depois que me formei, em 1981, comecei a me aproximar da pecuária leiteira e percebi que o leite era uma excelente oportunidade de negócio. Desde então, passei a trabalhar para desenvolver essa atividade de forma cada vez mais profissional.
Leonardo Bortoletto: O que mais mudou na pecuária leiteira nesses mais de 40 anos?
Jônadan Ma: Mudou praticamente tudo. O Brasil evoluiu muito em tecnologia, produtividade e profissionalização. Hoje convivemos com os melhores padrões do mundo e nos tornamos um dos maiores produtores de leite do planeta. Também surgiram produtores altamente tecnificados, capazes de competir em níveis internacionais.
Leonardo Bortoletto: Hoje o produtor precisa ser mais gestor ou mais produtor rural?
Jônadan Ma: Precisa ser os dois. A gestão é o centro do negócio. Não basta trabalhar apenas por paixão ou tradição. É preciso controlar custos, planejar, investir em tecnologia e administrar a propriedade como uma empresa.
Leonardo Bortoletto: Produzir leite exige muito mais trabalho do que as pessoas imaginam?
Jônadan Ma: Sem dúvida. É uma atividade de dedicação permanente. Trabalhamos 24 horas por dia, sete dias por semana, durante todo o ano. Além da profissionalização, é preciso gostar muito da atividade para permanecer nela.
Leonardo Bortoletto: O Brasil está entre os maiores produtores de leite do mundo. Então por que ainda enfrenta dificuldades?
Jônadan Ma: Porque produzir no Brasil custa caro. Temos um dos maiores custos de produção entre os grandes produtores mundiais. O chamado Custo Brasil reduz nossa competitividade e dificulta o crescimento da atividade.
Leonardo Bortoletto: O produtor consegue repassar esse aumento de custos?
Jônadan Ma: Não. O produtor é um tomador de preços. Ele melhora sua produtividade, busca qualidade e eficiência, mas não define o valor pelo qual venderá o leite.
Leonardo Bortoletto: Mesmo sendo um dos maiores produtores, o Brasil ainda importa leite.
Jônadan Ma: Hoje produzimos aproximadamente 36 a 37 bilhões de litros por ano. Mesmo assim, importamos diariamente milhões de litros equivalentes em leite, principalmente da Argentina e do Uruguai, enquanto nossas exportações ainda são muito pequenas.
Leonardo Bortoletto: Na avaliação de vocês, essa concorrência é equilibrada?
Jônadan Ma: Não. Defendemos que existe prática de dumping. Esse leite chega ao Brasil com preços inferiores aos praticados nos próprios países de origem, criando uma concorrência desleal para o produtor brasileiro.
Leonardo Bortoletto: O que precisa ser feito?
Jônadan Ma: O governo já reconheceu a existência dessa prática. O setor defende medidas que restabeleçam condições iguais de competição para proteger a produção nacional.
Leonardo Bortoletto: A tecnologia mudou a forma de produzir leite?
Jônadan Ma: Mudou completamente. Hoje não apenas tiramos leite; nós produzimos leite. Conseguimos produzir mais, com menos animais, maior eficiência, melhor qualidade e menor impacto ambiental.
Leonardo Bortoletto: Como você imagina o produtor de leite daqui a vinte anos?
Jônadan Ma: Será um profissional cada vez mais preparado, utilizando tecnologia, gestão e inovação. Precisamos criar condições para que os jovens permaneçam no campo e deem continuidade às propriedades familiares.
Leonardo Bortoletto: Como administrar um negócio que depende de fatores como clima, câmbio e mercado?
Jônadan Ma: O caminho é investir em gestão de riscos, planejamento e informação. Quanto maior a profissionalização, maior será a capacidade do produtor de enfrentar essas oscilações.
Leonardo Bortoletto: Se pudesse listar prioridades para fortalecer a pecuária leiteira, quais seriam?
Jônadan Ma: Melhorar o poder de negociação dos produtores, ampliar a capacitação e facilitar o acesso ao crédito e às tecnologias. Esses três fatores são fundamentais para aumentar a competitividade do setor.
No quadro Raio X, Jônadan Ma respondeu perguntas rápidas sobre volume de produção, qualidade, tecnologia, tradição, mercado interno e exportação.
Leonardo Bortoletto: Volume de produção ou qualidade?
Jônadan Ma: Neste momento, volume. Mas, no futuro, qualidade.
Leonardo Bortoletto: Tecnologia ou tradição?
Jônadan Ma: A tradição é importante, mas a tecnologia será decisiva.
Leonardo Bortoletto: Mercado interno ou exportação?
Jônadan Ma: Mercado interno. O Brasil ainda tem muito espaço para crescer atendendo sua própria população.
Na sequência, Jônadan Ma respondeu às Perguntas de Ouro, enviadas pela audiência da Itatiaia.
Leonardo Bortoletto: Por que o leite continua caro para o consumidor se muitos produtores trabalham com margens apertadas?
Jônadan Ma: Porque existe uma cadeia longa entre quem produz e quem compra. Tanto o produtor quanto o consumidor são tomadores de preço. Ao longo dessa cadeia, existem etapas que concentram parte significativa das margens.
Leonardo Bortoletto: O Brasil corre o risco de depender cada vez mais do leite importado?
Jônadan Ma: Corre, se não forem adotadas medidas para combater a concorrência desleal e fortalecer a produção nacional. Quanto maior a dependência das importações, maior também será a vulnerabilidade do país.
No quadro Responde Aí, Chefe, Jônadan Ma respondeu à pergunta enviada por Antônio de Salvo, presidente do Sistema Faemg Senar.
Antônio de Salvo: Qual atividade continuará crescendo em Minas Gerais nos próximos anos?
Jônadan Ma: Tenho convicção de que a pecuária leiteira continuará crescendo. O leite faz parte da identidade de Minas Gerais e o estado reúne tradição, tecnologia e condições para permanecer como o maior produtor de leite do Brasil.
Para encerrar a entrevista, Jônadan Ma deixou dois conselhos para quem deseja investir no agronegócio.
Leonardo Bortoletto: Que orientação você daria para quem deseja construir carreira no agro?
Jônadan Ma: Enxergue o agronegócio como um grande negócio. Invista em gestão, tecnologia, informação e planejamento. Quem atuar com profissionalismo encontrará muitas oportunidades de crescimento em um setor essencial para alimentar uma população cada vez maior.
O episódio completo do Itatiaia Negócios Cast está disponível no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.
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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.



