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Condor: A empresa que nasceu com uma escova de dentes e chegou a 2.400 produtos

Alexandre Wiggers, presidente da Condor S.A., defende modelo de gestão baseado em autonomia, confiança e transparência

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Alexandre Wiggers, presidente da Condor S.A., começou a trajetória como office boy e agora comanda companhia com quase R$ 1 bilhão em faturamento • Reprodução | Youtube Itatiaia

Fundada em 1929, a Condor se transformou em uma das maiores indústrias de bens de consumo do Brasil. O que começou com a fabricação de escovas de dente hoje reúne mais de 2.400 produtos, presença em mais de 300 mil pontos de venda, exportações para mais de 20 países e faturamento próximo de R$ 1 bilhão.

No Itatiaia Negócios Cast, Alexandre Wiggers, presidente da Condor S.A., relembra a história da companhia, fala sobre inovação, indústria nacional, gestão de pessoas e compartilha sua trajetória de 38 anos dentro da empresa, iniciada como office boy aos 16 anos.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Como nasceu a Condor?

Alexandre Wiggers: A empresa foi fundada em 1929 por um imigrante alemão que decidiu se estabelecer em São Bento do Sul, em Santa Catarina. Em uma conversa informal surgiu a ideia de produzir algo que as pessoas utilizassem todos os dias. Assim nasceu a escova de dente, primeiro produto da companhia. Depois vieram outros itens ligados à tecnologia de cerdas, como vassouras, escovas de cabelo e pincéis. Com o passar dos anos, a empresa expandiu o portfólio até chegar aos mais de 2.400 produtos atuais.

Leonardo Bortoletto: Quais são os principais números da empresa hoje?

Alexandre Wiggers: A Condor possui 1.780 colaboradores, sendo cerca de 1.350 em São Bento do Sul. Estamos presentes em mais de 300 mil pontos de venda no Brasil, exportamos para mais de 20 países e encerramos 2025 com faturamento de R$ 950 milhões. Nossa meta é ultrapassar R$ 1 bilhão em 2026.

Leonardo Bortoletto: Você começou como office boy e chegou à presidência. Como foi essa caminhada?

Alexandre Wiggers: Eu tinha o sonho de ser jogador de futebol. Quando percebi que não seguiria carreira no esporte, voltei para minha cidade e procurei emprego. A Condor apoiava atividades esportivas e foi assim que surgiu a oportunidade. Entrei como office boy aos 16 anos. Depois fiz carreira na área administrativa, me formei em Contabilidade, passei por praticamente todas as funções da área contábil, assumi gerências, depois diretorias e, em 2012, fui convidado para assumir a presidência da companhia. Hoje são 38 anos de empresa.

Leonardo Bortoletto: O estudo teve papel importante nessa trajetória?

Alexandre Wiggers: Fundamental. Fiz faculdade de Contabilidade, especializações em Controladoria e Finanças, MBA, cursos de Governança Corporativa, Liderança da Inovação e atualmente estou concluindo uma formação em Inteligência Artificial no MIT. Sempre acreditei que a atualização constante é indispensável para acompanhar a evolução das empresas e das equipes.

Leonardo Bortoletto: Em que momento surgiu a possibilidade de se tornar presidente?

Alexandre Wiggers: Na verdade, não era um plano. Eu queria chegar à diretoria dentro da minha área, mas não pensava na presidência. A oportunidade surgiu quando o então presidente precisou se afastar por motivos de saúde e eu assumi interinamente. Foi literalmente de um domingo para uma segunda-feira. Durante aquele período, trabalhando ao lado de uma equipe muito forte, conseguimos entregar bons resultados. Foi ali que percebi que poderia exercer a função de forma definitiva caso os acionistas entendessem que era o melhor caminho para a empresa.

Leonardo Bortoletto: Ter passado por tantos setores ajuda na liderança?

Alexandre Wiggers: Ajuda bastante. Principalmente na construção da confiança e da transparência. Conhecer profundamente a empresa facilita o relacionamento com as equipes. Ao mesmo tempo, também valorizo muito profissionais que vieram de outras empresas e trouxeram novas experiências. Essa combinação costuma ser muito positiva.

Leonardo Bortoletto: Gostar de pessoas é diferencial ou obrigação para um líder?

Alexandre Wiggers: Acho que foi diferencial no passado. Hoje é obrigação. As pessoas reagem de formas diferentes, exigem abordagens diferentes e uma comunicação personalizada. Se você não gosta de pessoas, dificilmente conseguirá liderar de forma consistente.

Leonardo Bortoletto: O que é pior para uma empresa: uma estratégia ruim ou um time ruim?

Alexandre Wiggers: Um time ruim. Uma equipe forte consegue corrigir erros de estratégia. Já uma equipe fraca compromete até mesmo uma boa estratégia. O time levanta a mão, questiona, propõe melhorias e ajuda a empresa a encontrar o caminho correto.

Leonardo Bortoletto: Como manter equipes engajadas durante tanto tempo?

Alexandre Wiggers: Isso passa por autonomia, transparência e confiança. É claro que existe cobrança por resultados, mas é preciso oferecer condições para que as pessoas trabalhem. Na Condor existe uma cultura muito forte de autonomia, metas claras e responsabilidade. Isso ajuda a formar equipes competentes e comprometidas.

Leonardo Bortoletto: Hoje a Condor opera em quantos negócios?

Alexandre Wiggers: São seis grandes áreas. Limpeza doméstica, higiene bucal, pintura imobiliária, limpeza profissional, beleza e materiais artísticos e escolares. São negócios bastante diferentes, embora tenham origem comum na tecnologia de cerdas que marcou o início da companhia.

Leonardo Bortoletto: Como surgiu a expansão internacional?

Alexandre Wiggers: A exportação começou ainda nos anos 1970. A Condor sempre foi muito competente do ponto de vista industrial e tinha capacidade produtiva disponível. Isso abriu caminho para mercados vizinhos e posteriormente para os Estados Unidos. O movimento nasceu muito mais da eficiência produtiva do que de uma estratégia internacional desenhada desde o início.

Leonardo Bortoletto: Produzir no Brasil ainda vale a pena?

Alexandre Wiggers: Vale. O Brasil tem desafios importantes relacionados à carga tributária e ao custo operacional. Mas nossa estratégia continua sendo produzir aqui. Hoje cerca de 15% do portfólio é importado, principalmente itens complementares que não fazem sentido fabricar internamente. Ainda assim, acreditamos na indústria brasileira e continuamos investindo nela.

Leonardo Bortoletto: E a inovação?

Alexandre Wiggers: A inovação sempre fez parte da história da Condor, mas recentemente criamos uma estrutura dedicada exclusivamente ao tema. Essa área atua de forma transversal, provocando os times, trazendo tendências e acelerando o desenvolvimento de novos produtos, processos e soluções. Hoje a inovação vai muito além do produto.

Leonardo Bortoletto: Sustentabilidade é uma pauta estratégica?

Alexandre Wiggers: Sem dúvida. Temos comitê ESG, participamos de fóruns de discussão e estamos chegando ao sétimo relatório de sustentabilidade. Trabalhamos continuamente os pilares ambiental, social e de governança, buscando cada vez mais transparência e aderência às melhores práticas internacionais.

Leonardo Bortoletto: Como você enxerga os próximos cinco anos da empresa?

Alexandre Wiggers: Nós crescemos mais de 130% nos últimos cinco anos e acreditamos que podemos dobrar novamente de tamanho. Também estamos investindo fortemente na marca Condor, modernizando embalagens, fortalecendo a identidade visual e preparando a companhia para o seu centenário.

Leonardo Bortoletto: Eficiência operacional ou construção de marca?

Alexandre Wiggers: Eficiência operacional. Nossos consumidores tomam muitas decisões diretamente no ponto de venda. Precisamos estar presentes, bem posicionados e competitivos. A marca é importante, mas sem eficiência operacional ela perde espaço.

Leonardo Bortoletto: Produzir no Brasil ou buscar fora para competir melhor?

Alexandre Wiggers: Produzir no Brasil. Complementando com importações quando necessário, mas mantendo a produção nacional como base da estratégia.

Leonardo Bortoletto: Vender mais ou ganhar melhor em cada produto?

Alexandre Wiggers: Vender mais. Trabalhamos com categorias muito dependentes de escala. O volume ajuda a diluir custos e também melhora a rentabilidade.

Leonardo Bortoletto: Quase todo brasileiro já usou um produto da Condor. Como transformar algo simples em algo que marca a vida das pessoas?

Alexandre Wiggers: Acredito que a resposta está na consistência. Estamos há 97 anos presentes na casa dos brasileiros. Muitos produtos existem há décadas porque ajudam as pessoas nas tarefas do dia a dia. Nosso papel é facilitar a vida das pessoas, seja no autocuidado ou no cuidado com a casa. Quando você faz isso de forma recorrente e confiável durante gerações, constrói uma relação duradoura com o consumidor.

Leonardo Bortoletto: Agora vamos com a pergunta enviada por João Marcelo, prefeito de Nova Lima.

João Marcelo: Como o setor privado consegue conviver harmonicamente com o poder público diante das burocracias e limitações existentes?

Alexandre Wiggers: A Condor sempre manteve uma relação muito próxima com o setor público, mesmo sem ter o governo como principal cliente. Atuamos como parte da sociedade civil organizada e buscamos construir ações conjuntas com municípios e estados. Temos uma relação muito forte com a Prefeitura de São Bento do Sul e com o Governo de Santa Catarina. Essas parcerias ajudam no desenvolvimento regional, geram sinergias para a operação da empresa e permitem que também possamos retribuir à comunidade parte do que ela entrega para a Condor ao longo de sua história.

Leonardo Bortoletto: Que conselhos você deixaria para quem deseja crescer profissionalmente dentro de uma empresa?

Alexandre Wiggers: O primeiro é comprometimento. Disponibilidade para aprender, ajudar e estar presente. O segundo é curiosidade. Eu sempre procurei fazer mais do que minha função exigia. Quando era office boy e terminava minhas atividades, procurava ajudar outras áreas da empresa. Essa curiosidade abriu portas e acelerou meu crescimento profissional.

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, com novos episódios às terças-feiras, às 19h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.