O Brasil produz cacau; por que o chocolate continua tão caro?
Matheus Pedrosa, presidente da Fralía Cacau Brasil e presidente do Conselho de Tecnologia e Inovação da FIEMG considera que a crise do cacau amplia as possibilidades para o Brasil no mercado global

O aumento no preço do chocolate chamou a atenção dos consumidores e reacendeu o debate sobre a produção mundial de cacau. No Itatiaia Negócios Cast, Leonardo Bortoletto conversa com Matheus Pedrosa, presidente da Fralía Cacau Brasil e presidente do Conselho de Tecnologia e Inovação da FIEMG, sobre os fatores que provocaram a alta da commodity, os desafios da cadeia produtiva e as oportunidades para o Brasil ampliar sua participação no mercado internacional.
Durante a entrevista, o executivo explica como funciona a cadeia do cacau, desde a produção nas fazendas até a fabricação do chocolate, comenta o crescimento do cultivo em Minas Gerais, fala sobre inovação, indústria 4.0, agregação de valor e defende que o Brasil aproveite o atual cenário mundial para voltar a ocupar posição de destaque entre os maiores produtores de cacau.
Leia a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto: Matheus, eu quero desvendar esse mundo do chocolate com você. Quando a gente fala em cacau, lembra imediatamente do chocolate. Explica um pouco essa estrutura e o que a Fralía faz.
Matheus Pedrosa: O mundo do cacau e do chocolate é realmente apaixonante. Eu fiz carreira no setor de tecnologia da informação e, de repente, fui para o setor de cacau e chocolate. A tecnologia é muito generalista e acaba tocando um pouco de tudo, mas quando entrei nesse universo descobri uma cultura que está no Brasil há bastante tempo, passou por altos e baixos e tem uma história muito rica. O cacau faz parte da literatura brasileira, da história do sul da Bahia, é uma cultura milenar que começou com os povos da Mesoamérica. O chocolate, como conhecemos hoje, surgiu quando os europeus uniram o cacau ao açúcar. Desde então, a indústria evoluiu muito e hoje é gigantesca no mundo inteiro, vivendo um momento de renovação.
Leonardo Bortoletto: Explica como funciona essa cadeia, da fazenda até o chocolate.
Matheus Pedrosa: Existe o produtor rural que cultiva o cacau. O cacau é produzido em árvores, o que torna essa uma cultura bastante interessante do ponto de vista da sustentabilidade. Depois da colheita, as amêndoas passam por um processo de fermentação e secagem ainda na fazenda. A fermentação pode chegar a sete dias e, depois disso, as amêndoas seguem para a indústria. Na indústria fazemos a limpeza, a torra e produzimos os derivados do cacau. Entre eles estão o licor de cacau, que é a massa do cacau, o pó de cacau, a manteiga de cacau e outros derivados, como os nibs. Hoje, apenas cerca de 6% do cacau é efetivamente aproveitado pela indústria. Existe uma riqueza biológica muito grande que ainda precisa ser explorada. Esses produtos seguem para as indústrias de chocolate, biscoitos, sorvetes e outros alimentos. Existe ainda o modelo chamado bean to bar ou tree to bar, em que o produtor cultiva o cacau e fabrica o próprio chocolate.
Leonardo Bortoletto: O processamento do cacau ainda acontece parcialmente fora do Brasil. Qual a importância de aumentar esse processamento por aqui?
Matheus Pedrosa: O Brasil demandaria entre 260 mil e 280 mil toneladas de cacau por ano apenas para abastecer sua indústria de processamento. No melhor ano recente, produzimos cerca de 220 mil toneladas. Ou seja, ainda somos importadores líquidos de cacau. Existe um programa do Governo Federal, o Inova Cacau 2030, que pretende elevar essa produção para mais de 400 mil toneladas até 2030. A partir daí, o Brasil poderá se tornar exportador. Hoje estamos entre o sexto e o sétimo maior produtor mundial de cacau. Todos os países que estão à nossa frente produzem muito mais do que consomem e, por isso, exportam. O Brasil tem um mercado consumidor forte, que absorve praticamente toda a produção nacional. Mas quem entra hoje na cultura do cacau precisa pensar em exportação. Nós já fomos um grande produtor antes da vassoura-de-bruxa e ainda estamos em processo de recuperação. O Brasil ocupa posição de liderança em praticamente todas as grandes commodities agrícolas e o cacau também pode voltar a ocupar esse espaço.
Leonardo Bortoletto: O mercado brasileiro também está mudando em relação ao percentual de cacau presente no chocolate.
Matheus Pedrosa: Foi aprovada uma nova lei que define o percentual mínimo de cacau para que um produto possa ser chamado de chocolate. A partir de maio do próximo ano, será necessário ter pelo menos 35% de sólidos de cacau. Hoje existem produtos, como alguns achocolatados, que têm menos de 10% de cacau. A nova legislação traz mais clareza para o consumidor. Ao mesmo tempo, é importante entender que existem diferentes mercados. O chocolate com maior teor de cacau é um produto mais caro. O Brasil ainda consome, em média, cerca de 3,5 quilos de chocolate por pessoa ao ano. Na Alemanha, esse número chega perto de 10 quilos. Ainda temos muito espaço para crescer. Cada produto atende um público diferente. Não é razoável imaginar que todo consumidor migrará para produtos premium. O importante é compreender toda a cadeia e respeitar os diferentes segmentos do mercado.
Leonardo Bortoletto: Como Minas Gerais entra nesse cenário? O estado está crescendo na produção de cacau?
Matheus Pedrosa: Essa história é muito interessante. Alguns anos atrás, meu pai tinha uma indústria de chocolate e decidiu produzir o próprio insumo. Na época, quando eu disse que ia trabalhar com cacau em Minas Gerais, me chamaram de doido. No meio do caminho descobri que tinha mais gente com a mesma ideia. Hoje Minas Gerais vem crescendo. Antes praticamente não existia produção de cacau no estado. A partir das pesquisas conduzidas pelo professor Vitor Maia, da Unimontes, iniciadas em 2011 e retomadas em 2014, com apoio da FAPEMIG, começou um trabalho consistente no Norte de Minas. Hoje já existem cerca de 700 hectares plantados na região, com aproximadamente 350 a 400 hectares em plena produção. Nós temos procurado comprar toda a produção que sai do Norte de Minas. Além dessa região, já vemos interesse em outras áreas do estado. Em torno de Três Marias há produtores estudando o cultivo. Em Raul Soares existe um programa de incentivo da prefeitura, que está até distribuindo mudas. Eu acredito muito no potencial de Minas Gerais. O estado já é muito forte no agronegócio e pode se tornar também uma referência no cacau. A adaptação do cacau ao semiárido do Norte de Minas é outro ponto importante. As principais doenças da cultura são provocadas por fungos e umidade. No semiárido, com irrigação e alta incidência de sol, essas condições praticamente não existem. Isso cria uma plataforma de alta produtividade, sem necessidade de desmatamento e totalmente alinhada às exigências ambientais internacionais. Todas as regiões de Minas vêm demonstrando interesse em conhecer melhor o cultivo do cacau. Hoje já falamos em sistemas modernos de produção, inclusive em pleno sol, além do tradicional sistema cabruca, desenvolvido em simbiose com a Mata Atlântica.
Leonardo Bortoletto: Você conhece o mercado de tecnologia há muitos anos. Onde a tecnologia entra hoje na cadeia do cacau?
Matheus Pedrosa: Quando deixei o mercado de tecnologia para trabalhar com cacau, achei que tinha encerrado esse ciclo da minha vida. Depois fui convidado pelo presidente Flávio Roscoe para assumir o Conselho de Tecnologia e Inovação da FIEMG justamente com a proposta de aproximar a tecnologia da indústria. Na Fralía, a tecnologia faz parte da estratégia da empresa. Cerca de 80% do processamento mundial de cacau está concentrado em três grandes multinacionais. Essas empresas possuem mais de 90% do mercado brasileiro. Nós não vamos competir em volume. Precisamos competir com tecnologia, inovação e novos produtos. Existe uma riqueza biológica enorme no cacau que ainda pode ser explorada. Ao mesmo tempo, estamos construindo uma nova indústria em São Gonçalo do Rio Abaixo, que vai triplicar nossa capacidade de produção já dentro do conceito de Indústria 4.0, com processos modernos e foco em produtividade.
Leonardo Bortoletto: Hoje existem linhas de crédito e incentivos para quem deseja investir em tecnologia na cadeia do cacau?
Matheus Pedrosa: Existem. No âmbito federal temos o programa Inova Cacau 2030, que prevê aproximadamente R$ 250 milhões em crédito para a produção de cacau. Também existem programas ligados à Nova Indústria Brasil e ao Brasil Mais Produtivo, que possuem linhas específicas para agroindústrias e para valorização da riqueza biológica brasileira. Além do crédito, existem recursos para inovação e pesquisa. Como toda política de fomento, é necessário apresentar projetos estruturados e prestar contas da utilização dos recursos. No Conselho de Tecnologia e Inovação da FIEMG temos trabalhado para fortalecer esse ambiente, principalmente para médias indústrias. A FAPEMIG também desenvolve projetos voltados ao cacau no Norte de Minas e, neste momento, está com o edital Compete Minas aberto, disponibilizando R$ 50 milhões para projetos de inovação e pesquisa. Estamos vivendo um momento com muitas oportunidades de financiamento para inovação. É importante que os empresários conheçam esses programas, porque oferecem condições muito diferentes das praticadas no mercado tradicional. É justamente esse tipo de investimento que pode permitir ao Brasil deixar de exportar apenas matéria-prima e passar a agregar mais valor ao cacau antes de comercializá-lo para outros mercados.
Leonardo Bortoletto: O Brasil vive um momento favorável para crescer na produção de cacau?
Matheus Pedrosa: O Brasil está vivendo um momento que não pode deixar escapar. No cacau, essa oportunidade é muito clara. Hoje, cerca de 70% do cacau produzido no mundo vem da África, principalmente da Costa do Marfim e de Gana. Esses países enfrentam problemas provocados pelas mudanças climáticas, pelo El Niño, por doenças nas lavouras e também por questões estruturais e socioeconômicas. Já existia uma previsão de que a produção mundial entraria em colapso e isso acabou acontecendo no final de 2023. O cacau, que durante muitos anos foi negociado entre US$ 2 mil e US$ 4 mil por tonelada, chegou a atingir US$ 12 mil. Foi um choque entre oferta e demanda. Essa alta provocou uma retração do consumo e os preços recuaram, mas continuam em um patamar elevado, entre US$ 5 mil e US$ 6 mil por tonelada. Ainda é um valor que remunera melhor o produtor e, ao mesmo tempo, exige da indústria uma gestão diferente de uma matéria-prima que passou a ter um valor muito maior. Esse cenário cria uma oportunidade para o Brasil recuperar uma posição de destaque no mercado mundial. Os problemas enfrentados pelos principais produtores africanos não serão resolvidos rapidamente. O Brasil tem terra, tecnologia, estrutura e clima para ampliar a produção. Hoje estamos atrás de países como Equador, Nigéria e Malásia. Não existe motivo para o Brasil ficar atrás desses países na produção de uma fruta tropical como o cacau.
Leonardo Bortoletto: Minas Gerais pode se tornar um polo da indústria do cacau?
Matheus Pedrosa: Eu não tenho dúvida de que Minas Gerais já possui uma grande vocação para essa cadeia. Se ampliarmos a produção de cacau no estado, já existe uma estrutura industrial preparada para consumir essa matéria-prima. Minas possui uma forte indústria de lácteos, uma tradição muito grande na produção de doces, uma importante participação da indústria de sorvetes e também do setor de misturas alimentícias. Quando pensamos na cadeia completa, percebemos que existe uma riqueza muito grande que pode ser desenvolvida aqui em Minas Gerais e no Brasil.
Leonardo Bortoletto: Quais tendências devem impactar positivamente esse mercado nos próximos anos?
Matheus Pedrosa: No setor de alimentos estamos observando uma mudança importante no comportamento do consumidor. O chocolate sempre esteve muito ligado à indulgência, mas acredito que essa característica tende a diminuir. Vamos ver produtos cada vez mais voltados para uma alimentação saudável, com maior concentração de cacau, mais proteínas e fibras. O cacau possui polifenóis, antioxidantes e é um superalimento. Acredito que ele passará por uma reconfiguração dentro da alimentação humana e que essa riqueza biológica abrirá novos caminhos para a indústria.
Leonardo Bortoletto: Essa tendência vale para o mercado interno e também para o mercado internacional?
Matheus Pedrosa: Vale para os dois. Gosto muito de usar o exemplo do café. O Brasil é uma potência na produção de café. Minas Gerais, se fosse um país, seria o terceiro maior produtor de café do mundo. Uma em cada quatro xícaras de café consumidas no planeta foi produzida em Minas Gerais. Mas, quando olhamos para as grandes marcas mundiais de café, não encontramos uma marca brasileira entre elas. No cacau precisamos começar a pensar da mesma forma. O Brasil tem enorme potencial agrícola e pode agregar mais valor ao produto. Não há problema em exportar commodities. O problema é exportar apenas commodities. Temos condições de construir uma cadeia forte, gerar riqueza no país e abastecer o mercado mundial com produtos de maior valor agregado.
No quadro Raio X, Matheus Pedrosa respondeu perguntas rápidas sobre competitividade, inovação e mercado internacional.
Leonardo Bortoletto: Qualidade ou escala?
Matheus Pedrosa: Eu não posso escolher outra opção que não seja qualidade. Se eu for competir em escala, meus concorrentes têm escala global. Então, eu fico com qualidade, aliada à tecnologia.
Leonardo Bortoletto: Tecnologia ou tradição?
Matheus Pedrosa: Não tem jeito de fazer tecnologia sem tradição. Eu escolho tecnologia, mas a partir da tradição. É revisando processos, com consistência, que a gente descobre onde existe tecnologia para otimizar.
Leonardo Bortoletto: Mercado nacional ou expansão internacional?
Matheus Pedrosa: Expansão internacional. Nós precisamos ser um pouco mais atrevidos. O brasileiro precisa parar com a síndrome de vira-lata, porque temos espaço para conquistar no mercado mundial.
Na sequência, Matheus Pedrosa respondeu à Pergunta de Ouro, enviada pela audiência da Itatiaia.
Leonardo Bortoletto: Por que o chocolate ficou tão caro nos últimos meses?
Matheus Pedrosa: A principal razão foi a crise de oferta do cacau. Grande parte da produção mundial está concentrada na África, onde os produtores enfrentam problemas climáticos, doenças nas lavouras e dificuldades na estrutura socioeconômica. Na Costa do Marfim e em Gana, o cacau é comercializado por meio de um monopólio estatal. O produtor entrega a produção ao governo, que opera a comercialização. Esse choque de oferta fez subir o preço do cacau e, consequentemente, de tudo o que envolve cacau e chocolate. Na minha opinião, ainda vamos conviver com uma grande volatilidade pelos próximos anos. Ao mesmo tempo, esse cenário representa uma oportunidade para países como o Brasil ampliarem a produção e conquistarem espaço no mercado mundial.
No quadro Responde Aí, Chefe, Matheus Pedrosa respondeu à pergunta enviada por Amanda Marçal, diretora-superintendente da Ecovias Norte Minas.
Amanda Marçal: Como se manter motivado no papel de liderança com tantos desafios e, mesmo nos momentos difíceis, motivar a equipe e manter o engajamento?
Matheus Pedrosa: Eu acho que motivação é muito boa, mas não acredito em motivação para o dia a dia. Eu acredito em consistência. A melhor forma de manter o time motivado é ter clareza de propósito e processos confiáveis. No dia em que a motivação diminuir, o processo precisa sustentar o trabalho e a clareza do objetivo precisa orientar as decisões. Se você depender apenas da motivação, vai viver em altos e baixos. Eu acredito em processo, consistência e clareza de propósito.
Para encerrar a entrevista, Matheus Pedrosa deixou dois conselhos para quem deseja inovar e empreender na indústria.
Leonardo Bortoletto: Que orientação você daria para quem pretende inovar e fazer algo diferente na indústria?
Matheus Pedrosa: O primeiro conselho é conhecer muito bem o fluxo do dinheiro dentro do negócio. Saber quanto entra, quanto sai e para onde os recursos estão indo. Quando você conhece esse caminho, tudo fica mais fácil. Eu vejo o empresário passando por quatro momentos. Primeiro, o empreendedor, que enxerga a oportunidade e faz acontecer. Depois, o administrador, que cria regras e organiza o negócio. Em seguida vem a governança, quando passa a cuidar da cultura e das pessoas. Por último, o olhar do investidor, avaliando oportunidades de forma mais estruturada. O segundo conselho é colocar paixão e inovação em tudo o que faz. Procure se colocar no lugar do cliente. Passe boa parte do tempo ouvindo quem compra o seu produto ou serviço. É ouvindo o cliente que conseguimos orientar melhor os negócios.
O episódio completo do Itatiaia Negócios Cast está disponível no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.
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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.



