Da Valda às canetas de semaglutida: como a Eurofarma se prepara para o futuro
Formação de profissionais, renovação de marcas tradicionais e chegada de novas terapias mostram diferentes frentes de transformação da indústria farmacêutica

A indústria farmacêutica precisa olhar para as necessidades de saúde que estão surgindo, mas também para as pessoas, tecnologias e estruturas necessárias para atender a essas demandas. Em entrevista a Leonardo Bortoletto, no Itatiaia Negócios Cast, Walker Lahmann, diretor executivo de Relações Institucionais da Eurofarma, falou sobre os desafios de preparar a companhia para o futuro e destacou a importância de formar profissionais capazes de acompanhar a evolução do setor.
Um exemplo está em Montes Claros, onde a Eurofarma trabalha na implantação de uma nova operação. Segundo Walker, a empresa identificou a necessidade de preparar mão de obra especializada e buscou parcerias com universidades, incluindo a UFMG, para criar uma formação específica para os profissionais que deverão atuar na unidade.
“É uma preocupação nossa que acaba sendo um diferencial”, afirmou Walker. Segundo ele, a iniciativa busca preparar profissionais não apenas para a Eurofarma, mas para o novo polo farmacêutico de Montes Claros. “Nós vimos a necessidade de ter profissionais bem formados em Montes Claros, não só para Eurofarma, mas para o novo polo farmacêutico do Brasil.”
O executivo explicou que o projeto de formação foi colocado em prática antes mesmo de a operação estar completamente funcionando. “Um curso já foi aberto, já tem estudantes no curso”, disse. Para Walker, o objetivo é justamente antecipar a formação de profissionais capacitados para atender às necessidades do mercado.
A preocupação com a formação acompanha uma transformação mais ampla do setor. Walker afirma que o envelhecimento da população deve alterar o perfil das doenças mais prevalentes, com aumento da incidência de problemas neurológicos, doenças degenerativas, cardiovasculares e cânceres.
“Algumas doenças como, por exemplo, doenças neurológicas, doenças degenerativas, doenças cardiovasculares, cânceres são muito mais prevalentes em população mais idosa”, explicou.
Para a indústria farmacêutica, isso significa adaptar investimentos e portfólios às necessidades que devem ganhar importância nos próximos anos. “As empresas farmacêuticas, Eurofarma também, logicamente, ela adapta o seu portfólio, ela adapta os seus investimentos pensando que esse desenvolvimento de algumas novas doenças, de algumas novas condições clínicas vai ser acentuado no futuro”, afirmou Walker.
Da tradição à renovação
Essa transformação também pode ser observada em marcas que já fazem parte da vida dos consumidores há décadas. Um exemplo é a Valda, marca criada na França em 1902 e que chegou ao Brasil em 1914. A marca foi adquirida pela Eurofarma em 2022 e passou a integrar seu portfólio de produtos de venda livre.
Mais de 120 anos após sua criação, Valda passa por uma nova fase. Em 2026, a marca entrou também no mercado de medicamentos com três produtos: V-Jet, V-Tosse e V-Gripe. A iniciativa amplia a atuação da marca no segmento de cuidados respiratórios.
O movimento mostra como uma marca tradicional pode ser utilizada como ponto de partida para novas categorias e ocasiões de consumo. Em comunicado divulgado pela companhia, a Eurofarma afirmou que a estratégia busca preservar o legado da Valda ao mesmo tempo, em que amplia sua relevância para os consumidores.
A marca também registrou crescimento de 35% em unidades vendidas no acumulado de 2026, segundo dados divulgados pela própria empresa.
Novas terapias e a disputa por acesso
Em outra frente está o avanço dos tratamentos com semaglutida. A Eurofarma passou a comercializar no Brasil, em outubro de 2025, Poviztra e Extensior, desenvolvidos a partir de uma parceria com a Novo Nordisk. Poviztra é destinado a indicações relacionadas à obesidade e ao sobrepeso associado a comorbidades, enquanto Extensior é utilizado no tratamento do diabetes tipo 2.
Em junho de 2026, a companhia anunciou novas condições de preço para o portfólio de semaglutida e informou que o programa EuroCuida já contava com mais de 200 mil pacientes cadastrados. A iniciativa combina condições diferenciadas de acesso e acompanhamento da jornada do paciente.
O movimento acontece em um mercado no qual novas terapias vêm ganhando espaço e reforça um dos pontos levantados por Walker durante a entrevista: a indústria precisa acompanhar a evolução das necessidades da população.
Na conversa com Leonardo Bortoletto, ele também destacou que o desenvolvimento de medicamentos exige investimentos elevados. “A indústria farmacêutica é pautada por inovação. A indústria farmacêutica tem que inovar, tem que investir. São investimentos vultosos”, afirmou.
Segundo Walker, a Eurofarma investiu R$ 700 milhões em inovação no ano passado. A empresa mantém um centro de inovação com 700 cientistas trabalhando no desenvolvimento de diferentes soluções.
O executivo explica que esse trabalho vai além da criação de novos medicamentos. “Inovação é a forma de pensar processos, de buscar soluções e de ter a mente aberta para buscar outras coisas. Isso é inovação. Inovação não é só fazer produtos novos.”
Walker também relacionou inovação à necessidade de ampliar o acesso aos medicamentos. No caso dos produtos que perdem a proteção de patente, explicou, a entrada dos genéricos contribui para reduzir os preços.
“Quando termina o período de patente, saem os genéricos e o preço cai drasticamente e, com isso, o acesso da população aumenta também drasticamente”, afirmou.
O executivo citou como exemplo a evolução no tratamento de um tipo de leucemia. Segundo ele, até 2000, a doença apresentava letalidade de 80% em dez anos. Com a chegada de um medicamento e, posteriormente, dos genéricos, o cenário se inverteu: atualmente, 80% dos pacientes estão vivos dez anos após o diagnóstico.
Pessoas, portfólio e inovação
A formação de profissionais em Montes Claros, a renovação de uma marca tradicional como Valda e a atuação em novas terapias com semaglutida são movimentos diferentes, mas apontam para uma mesma questão: como uma indústria se prepara para as necessidades que estão por vir.
Na entrevista ao Itatiaia Negócios Cast, Walker destacou que essa preparação também passa pelo desenvolvimento das pessoas. “Tem uma visão também, importante na Eurofarma sobre a formação de pessoas, formação de recursos humanos, desenvolvimento de colaboradores dentro da Eurofarma, treinamento de pessoas.”
A inteligência artificial também já faz parte desse processo. Ao responder à pergunta enviada por Renata Passos, do Varejão das Tintas, Walker afirmou que a tecnologia tem aplicações importantes na indústria farmacêutica, inclusive no desenvolvimento de novas moléculas.
“Ela tem feito avanços importantes racionalizando os testes que são feitos para que as moléculas consigam ser desenvolvidas em menor tempo, com mais agilidade, com mais assertividade”, explicou.
Segundo o executivo, a Eurofarma já possui programas voltados ao uso da inteligência artificial para aumentar produtividade e eficiência. “Quem não aderir a ela, certamente vai ficar para trás”, afirmou.
Para Walker, a preparação para o futuro também começa pela qualificação individual. Ao falar sobre os conselhos para quem deseja atuar em mercados competitivos, ele resumiu: “Para ter um sucesso profissional, você tem que ter uma boa formação. Você tem que investir em você, investir na sua formação, porque isso já lhe abre as portas para as oportunidades de sucesso.”
Para as empresas, o raciocínio passa pelo investimento em inovação. “O investimento em inovação, que é o que a Eurofarma faz de forma muito contundente, ele sem dúvida é imprescindível e garantidor de sucesso”, afirmou.
No caso da Eurofarma, a preparação para o futuro passa, portanto, por diferentes pontos: formar profissionais antes que eles sejam necessários, renovar marcas que atravessaram gerações, incorporar novas terapias ao portfólio e investir em pesquisa e tecnologia.
O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, que vai ao ar todas as terçasfeiras, às 19h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.
Grandes nomes. Grandes histórias. Grandes decisões.
Itatiaia Negócios Cast. Onde líderes se encontram.
Confira a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.



