Itatiaia

Como uma empresa brasileira se tornou uma multinacional?

Walker Lahmann, diretor-executivo de Relações Institucionais da Eurofarma, fala sobre a transformação da indústria farmacêutica, internacionalização, inovação e os desafios para ampliar o acesso a medicamentos

Por
Walker Lahmann, diretor executivo de Relações Institucionais da Eurofarma, falou sobre os desafios de preparar a companhia para o futuro • Reprodução | Youtube Itatiaia

A indústria farmacêutica brasileira passou por profundas transformações nas últimas décadas. Para Walker Lahmann, diretor-executivo de Relações Institucionais da Eurofarma, a criação da Anvisa e a Lei dos Genéricos foram dois acontecimentos fundamentais para elevar o nível de regulamentação do setor e abrir espaço para o crescimento das empresas nacionais.

Em entrevista a Leonardo Bortoletto no Itatiaia Negócios Cast, Walker também falou sobre sua trajetória, que começou na Medicina, e explicou como o conhecimento clínico se tornou um diferencial em sua carreira na indústria farmacêutica.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Você começou como médico. Quando é que você percebeu que seu futuro estava na indústria farmacêutica?

Walker Lahmann: Eu fiz Medicina aqui em Belo Horizonte, na UFMG, depois fiz residência de oftalmologia, exerci pelo menos uns dez anos e aí tive a oportunidade de começar a trabalhar em uma empresa farmacêutica.

Quando isso aconteceu, comecei a ver que eu tinha algumas potencialidades interessantes para essa área de negócios, para o mundo corporativo. E aí, após um tempo, fui deixando a prática clínica e me dedicando mais à parte da empresa.

Leonardo Bortoletto: Mas o conhecimento clínico te ajuda nessa visão farmacêutica? É algo que pode ser adquirido por outra habilidade? Como você enxerga isso hoje?

Walker Lahmann: Eu diria que não só ajuda, mas é imprescindível.

Durante a carreira na área farmacêutica que tive, trabalhei em áreas distintas, tanto na parte de marketing, na parte de vendas, na parte de inovação.

Nelas todas, o fato de ter feito Medicina, ter o conhecimento clínico e saber a necessidade do paciente, saber como uma doença funciona, saber o que o médico precisa no dia a dia para ajudar aquele paciente, isso sempre norteou bastante da minha carreira e isso, sem dúvida, é um diferencial muito importante.

Leonardo Bortoletto: Já com uma carreira e uma trajetória extensa, eu te pergunto o que você visualizou que mais mudou na indústria farmacêutica nos últimos anos?

Walker Lahmann: A indústria farmacêutica, notadamente no Brasil, mudou muito nos últimos 30 anos. Primeiro porque há quase 30 anos duas coisas aconteceram no Brasil muito importantes. Primeiro foi a criação da Anvisa. E também a Lei dos Genéricos.

Quando isso aconteceu, quando a Anvisa foi criada e foi feita a Lei dos Genéricos, a regulamentação do Brasil mudou de patamar. Os medicamentos começaram a ter toda essa regulação e hoje os medicamentos produzidos no Brasil, vendidos no Brasil, têm níveis altíssimos de qualidade, como dos países mais desenvolvidos do mundo, graças a esses dois fenômenos, a Anvisa e a Lei dos Genéricos.

Leonardo Bortoletto: Eurofarma começa pequena em 1972, hoje é uma multinacional. O que, para você, foi determinante para chegar ao patamar em que ela está hoje?

Walker Lahmann: Uma série de fatores. A Eurofarma, com mais de 50 anos, nesse período todo, se desenvolveu muito.

Um dos pontos muito importantes, que, sem dúvida, levou a tudo isso, foi o investimento. A Eurofarma sempre investiu muito e continua investindo muito.

A indústria farmacêutica é pautada por inovação. A indústria farmacêutica tem que inovar, tem que investir. São investimentos vultosos. Você tem uma ideia: no ano passado nós investimos 700 milhões de reais em inovação.

Leonardo Bortoletto: E como esse investimento se transforma em inovação?

Walker Lahmann: Nessa trajetória da Eurofarma, a Eurofarma sempre investiu muito em inovação e isso garante que sempre tenhamos mais produtos lançados, produtos novos.

Nós temos um centro de inovação, um edifício grande com 700 cientistas que estão lá trabalhando para desenvolver inovações em diversos níveis, seja somente fazer um genérico de qualidade internacional, seja fazer inovação incremental, trazer tecnologias, buscar transferência de tecnologia para o Brasil ou fazer inovação radical, novas moléculas, que é uma coisa que já fazemos no Brasil.

Então, nesses 50 anos, a Eurofarma se destacou muito por isso.

E outro ponto muito importante, a Eurofarma se destacou também muito na internacionalização.

Leonardo Bortoletto: O que me chama a atenção na internacionalização da Eurofarma é que ela não segue um modelo único. Como vocês decidem entre os diferentes caminhos?

Walker Lahmann: Isso existe, um planejamento estratégico que a Eurofarma faz. Nós temos um planejamento estratégico para décadas para frente, ou seja, uma visão de muito longo prazo.

O nosso acionista disse que nós temos que ser uma empresa internacional. Ele sempre diz isso.

E essa estratégia depende de oportunidades, obviamente. Algumas subsidiárias foram abertas por aquisição de uma empresa, outras até por aquisição de produtos e outras nós começamos do zero, com os nossos produtos, começando com uma, duas, três pessoas e abrindo.

Isso depende logicamente do planejamento que foi feito e também de oportunidades que vão aparecendo com o passar do tempo. E nisso nós já estamos em 24 países diferentes.

Leonardo Bortoletto: Como vocês conseguem manter a identidade Eurofarma falando tantas línguas, tantas culturas diferentes?

Walker Lahmann: Isso é sempre um desafio para qualquer empresa que se internacionaliza.

Manter alguns pontos da cultura que realmente são imprescindíveis para que a empresa continue sendo o que ela é e o que ela quer ser, mas logicamente também com adaptações à realidade local.

Cada país é diferente. Hoje nós estamos em 24 países, ou seja, praticamente todos os países da América Latina. Temos uma pequena operação nos Estados Unidos. Temos também duas operações na África e buscando outras mais.

Então, sempre temos que buscar isso, ou seja, a cultura da Eurofarma, os valores da Eurofarma, eles têm que ser mantidos e têm que ser preservados, mas logicamente buscando se adequar às necessidades locais.

Leonardo Bortoletto: Envelhecimento da população é algo que acontece em quase todos os países do mundo. O que isso muda na estratégia da Eurofarma?

Walker Lahmann: Isso requer uma adequação, não só na estratégia da Eurofarma, mas na estratégia de qualquer empresa farmacêutica.

O envelhecimento da população é muito importante no sentido de existir uma mudança no tipo de doença mais prevalente, mais incidente no país.

Algumas doenças como, por exemplo, doenças neurológicas, doenças degenerativas, doenças cardiovasculares, cânceres são muito mais prevalentes em população mais idosa.

Então, com isso, as empresas farmacêuticas, a Eurofarma também, logicamente, adapta o seu portfólio, adapta os seus investimentos pensando que esse desenvolvimento de algumas novas doenças, de algumas novas condições clínicas vai ser acentuado no futuro.

Leonardo Bortoletto: Você está num dos mercados talvez mais competitivos do mundo, a busca por inovação é constante. Como faz hoje a Eurofarma para manter uma equipe inovando sempre continuamente para manter liderança?

Walker Lahmann: Inovação está no cerne da estratégia, qualquer empresa farmacêutica, sem dúvida, da Eurofarma.

Falei também dos nossos 700 cientistas que trabalham inovação e esses, logicamente, trabalham inovação para desenvolvimento de produtos.

Mas inovação não é só isso, Bortoletto. Inovação é muito mais do que desenvolver produtos.

Inovação é a forma de pensar processos, de buscar soluções e de ter a mente aberta para buscar outras coisas. Isso é inovação. Inovação não é só fazer produtos novos.

A Eurofarma, sem dúvida, tem essa visão importante. Tem uma visão também importante na Eurofarma sobre a formação de pessoas, formação de recursos humanos, desenvolvimento de colaboradores dentro da Eurofarma, treinamento de pessoas.

Leonardo Bortoletto: E essa preocupação com a formação de pessoas também aparece em Montes Claros?

Walker Lahmann: Nessa parte de desenvolvimento de pessoas, você sabe que a gente tem essa nossa planta em Montes Claros, uma planta bastante grande que está sendo construída, já está em operação, mas tem partes ainda em construção.

Montes Claros se transformou no novo polo farmacêutico do Brasil.

E, com isso, nós vimos a necessidade de ter profissionais bem formados em Montes Claros, não só para a Eurofarma, mas para o novo polo farmacêutico do Brasil.

Com isso, nós fizemos contato com as universidades locais, tanto a Universidade de Montes Claros, como também a Universidade Federal de Minas Gerais, para que tivessem cursos específicos, formação de nível superior também, para profissionais que viessem atender às necessidades do polo farmacêutico.

Leonardo Bortoletto: Isso já se tornou realidade?

Walker Lahmann: Sem dúvida. E isso se tornou realidade. Um curso já foi aberto, já tem estudantes no curso. Então já fizemos isso até antes de a gente estar funcionando.

Isso busca, justamente, ter a formação de pessoas mais capacitadas para o mercado de trabalho.

Leonardo Bortoletto: Vacinas. Vacinas são um mercado importante para a Eurofarma. O quão importante ele é para a comunidade global?

Walker Lahmann: Vacina é muito importante, Bortoleto. Nós temos, inclusive, estamos trazendo em parceria com uma empresa internacional uma vacina para chikungunya, que já está em processo de registro e que é uma vacina muito importante para o cenário brasileiro.

Leonardo Bortoletto: Mas você falou de vacina. Pode contar uma história?

Walker Lahmann: Vamos te contar uma história da varíola.

A varíola, no século XX, houve um bilhão de casos de varíola. Desse 1 bilhão, 300 milhões de pessoas morreram.

No final do século XVIII, a varíola era a doença mais importante daquele momento no mundo. Era o terror do mundo.

Um médico inglês uma vez descobriu que tinha um povoado rural. Naquele povoado as pessoas não tinham varíola. A varíola matando milhões de pessoas. Naquele lugar não tinha varíola.

Lá tinha umas vacas que tinham uma doença parecida com a varíola. E ele descobriu que aquela população pequena ali não tinha varíola.

Então, ele pensou que, de alguma forma, aquela doença das vacas protegia da doença humana. O que ele fez? Pegou um pouquinho do pus daquela doença das vacas e vacinou crianças. E as crianças ficaram protegidas da varíola humana.

Inclusive a palavra vacina vem de vaca, do latim.

Depois, aquela vacina foi espalhada para a população e protegia realmente contra a varíola. E no século XX, quando 300 milhões de pessoas morreram de varíola, a OMS fez uma grande campanha de vacinação mundial e, em 1980, a varíola estava extinta do mundo.

Então, possivelmente seus ouvintes talvez nem tenham ouvido falar da varíola, mas foi a doença, a epidemia mais mortal da humanidade e foi às custas de vacina.

Então, foi ótima sua pergunta para lembrar que todos nós precisamos tomar vacina e que a vacina não protege somente quem toma, mas protege seus filhos, os seus parentes, os seus vizinhos, protege a sociedade.

RAIO X

Leonardo Bortoletto: Pesquisa ou acesso?

Walker Lahmann: O acesso decorre da pesquisa.

Os medicamentos são desenvolvidos por empresas que investem muito. Num primeiro momento, eles têm acesso mais restrito, mas depois que os genéricos saem, depois que termina a patente, aí o acesso é garantido para a população. Ou seja, o acesso depende da pesquisa.

Leonardo Bortoletto: Brasil ou mundo?

Walker Lahmann: Na indústria farmacêutica, o Brasil tem uma produção de medicamentos muito alta. A produção final, nós produzimos 70% dos medicamentos que nós consumimos no Brasil, uma média maior do que muitos países do mundo.

Então, sem dúvida, esse equilíbrio é importante. Para a Eurofarma, o Brasil, sem dúvida, é o nosso maior mercado, mas a gente olha para o mundo.

Leonardo Bortoletto: Visão de médico ou visão de executivo?

Walker Lahmann: É o que você me perguntou no começo, Bortoletto. Sem dúvida, toda a formação médica que tive me ajuda muito a direcionar as decisões nesse mundo farmacêutico, que, sem dúvida, tem muito a ver com a Medicina.

PERGUNTAS DE OURO

Leonardo Bortoletto: Nos próximos anos, a população terá mais acesso a tratamento ou eles continuarão restritos a uma parcela menor dos pacientes?

Walker Lahmann: Cada vez mais a população vai ter acesso a medicamento e esse acesso a medicamentos faz com que novas terapias sejam oferecidas e faz com que doenças sejam muito mais bem tratadas.

Se eu puder te dar um exemplo, até o ano 2000, tem um tipo de leucemia que tinha uma letalidade em 10 anos de 80%. Ou seja, significa que em 10 anos 80% das pessoas morriam.

Quando foi lançado um determinado medicamento, hoje, passou o tempo, esse produto não tem mais patente, foram lançados genéricos, esse produto está disponível para toda a população, o quadro mudou completamente.

Hoje, a letalidade, ou seja, uma vez feito o diagnóstico, em 10 anos, 80% dos pacientes estão vivos, ou seja, inverteu completamente.

Leonardo Bortoletto: O que faz um medicamento custar tanto?

Walker Lahmann: No começo do medicamento, ele realmente tem um preço alto, justamente porque o preço da pesquisa feita para o medicamento, o custo de uma pesquisa é um custo muito alto.

Hoje estima-se que o desenvolvimento de um medicamento deve custar 1 a 2 bilhões de dólares.

Não só no desenvolvimento daquele, mas porque ao lado desse vários outros falharam. Porque são dezenas de testes. Então, logicamente, o custo do desenvolvimento do medicamento é muito alto.

E, no começo, enquanto ainda o medicamento é patenteado, ele tem o custo alto, mas quando termina o período de patente, saem os genéricos e o preço cai drasticamente e, com isso, o acesso da população aumenta também drasticamente.

É isso que a gente faz na Eurofarma. A gente oferece medicamentos com preço justo, aumenta o acesso da população sempre com uma qualidade inquestionável.

RESPONDE AÍ, CHEFE

Renata Passos: Walker, eu tenho uma pergunta para te fazer. Considerando que o mercado farmacêutico é um mercado de tecnologia, adiantada, considerando outros mercados, como vocês têm utilizado a inteligência artificial hoje para potencializar o crescimento da Eurofarma?

Walker Lahmann: Renata, obrigado pela sua pergunta.

A inteligência artificial tem o potencial de transformar o mundo, não só potencial, está transformando o mundo. E, na indústria farmacêutica, ela tem utilidades muito grandes.

Inclusive, algo que falei há pouco com o Bortoletto aqui, exatamente no desenvolvimento de novas moléculas, ela tem feito avanços importantes, racionalizando os testes feitos para que as moléculas consigam ser desenvolvidas em menor tempo, com mais agilidade, com mais assertividade.

Na Eurofarma também temos vários programas disso. Falamos inclusive disso hoje na Eurofarma, como utilizar a inteligência artificial para sermos mais produtivos, mais efetivos.

Tenho certeza que no seu setor também, Renata, a inteligência artificial está transformando e quem não aderir a ela, certamente vai ficar para trás.

CONSELHOS FINAIS

Leonardo Bortoletto: Eu quero aproveitar você aqui, que você deixe para quem está acompanhando dois conselhos bem práticos, bem diretos para quem quer liderar em mercados altamente competitivos, assim como é o seu.

Walker Lahmann: Pensando na pessoa, Bortoleto, pensando no executivo que quer participar desse mercado, eu vou lembrar quando fiz a faculdade de Medicina aqui em Belo Horizonte, na UFMG. Eu lembro que um professor meu me falou o seguinte: na Medicina, qualquer pessoa com boa formação terá uma excelente opção de carreira.

Em outros setores, eu não sei se isso se aplica em 100%, mas algo eu sei: que realmente para ter um sucesso profissional, você tem que ter uma boa formação.

Você tem que investir em você, investir na sua formação, porque isso já lhe abre as portas para as oportunidades de sucesso.

E para as empresas de uma forma geral, eu penso que o raciocínio é muito diferente, ou seja, o investimento em inovação, o que a Eurofarma faz de forma muito contundente, ele, sem dúvida, é imprescindível e garantidor de sucesso.

Leonardo Bortoletto: Walker Lahmann, diretor-executivo de relações institucionais da Eurofarma. Walker, muito obrigado pela tua presença, por essa entrevista maravilhosa.

Walker Lahmann: Obrigado você pelo convite, Bortoleto. Parabéns pelo excelente trabalho que vocês fazem.

Leonardo Bortoletto: Muito bem, você que nos acompanhou até aqui, o meu muito obrigado. Esse foi mais um episódio do Itatiaia Negócios Cast, onde os líderes se encontram.

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, que vai ao ar todas as terçasfeiras, às 19h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

Grandes nomes. Grandes histórias. Grandes decisões.

Itatiaia Negócios Cast. Onde líderes se encontram

 

Por

Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

Belo Horizonte