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Empresa familiar, luxo e inovação: os desafios de liderar a Bamaq após 54 anos de história

Clemente Faria Júnior, presidente da Bamaq e da Lotus Cars Brasil, falou sobre as oportunidades para empresas que conseguem entregar algo além do produto

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Clemente Faria Júnior fala sobre como o consumidor de alta renda busca experiências capazes de gerar pertencimento • Reprodução | Youtube Itatiaia

Há 54 anos no mercado, a Bamaq se consolidou como um dos grupos empresariais mais tradicionais de Minas Gerais. Ao longo desse período, atravessou diferentes ciclos econômicos, expandiu sua atuação para diversos segmentos e manteve uma característica que, segundo Clemente Faria Júnior, continua sendo fundamental: a capacidade de se reinventar.

No Itatiaia Negócios Cast, o presidente da Bamaq e da Lotus Cars Brasil fala sobre empreendedorismo, automobilismo, inovação, experiência do cliente, mercado de luxo e os desafios de liderar uma empresa familiar em um ambiente de constantes transformações.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Se você falasse um pouquinho sobre o DNA da companhia, sobre trajetória e liderança.

Clemente Faria Júnior: Acho que a gente é uma empresa de 54 anos de mercado. Então tem toda uma história, todo um peso que eu carrego todos os dias. Porque não é fácil atravessar 54 anos de mercado, tantas fases da economia, tantas dificuldades. E a gente tem que estar sempre inovando e tornando a empresa sempre uma jovem empresa. Eu acho que esse é o grande desafio que a gente carrega lá com a nossa equipe.

Leonardo Bortoletto: O ambiente empresarial que você sempre viveu facilitou de alguma forma esse trato ou facilitou para o empreendedor Clemente Faria Júnior?

Clemente Faria Júnior: Desde criança eu sempre vivi meu pai envolvido em negócios. Isso era um assunto dentro da minha casa e me ligou uma chavinha para o empreendedorismo. Não sei explicar muito bem como, mas criou aquela boa ambição de tentar fazer, tentar tomar risco. E todo empreendedorismo tem isso. Você precisa tomar risco, colocar a cara. Sem dúvida essa semente foi criada desde criança.

Leonardo Bortoletto: Alguns amigos em comum dizem que você é um craque no automobilismo. Qual é o tamanho da influência que isso te deu na liderança e na competitividade?

Clemente Faria Júnior: Eu comecei a correr com sete anos de idade. Meu pai também era piloto e isso influenciou muito a minha formação. Hoje eu vejo que desenvolvi várias habilidades muito cedo por causa do esporte. Eu viajava sozinho para competir, ia para São Paulo, para o Sul do país. E quando você está em um ambiente de competição, ele é muito parecido com um ambiente empresarial. Você precisa observar seus concorrentes, entender onde eles estão melhores do que você, ter humildade para aprender e melhorar. Você também precisa conviver com diferentes pessoas. Tem o chefe de equipe, a federação, os patrocinadores, a equipe que trabalha no carro. Você precisa motivar as pessoas, criar engajamento e buscar resultados. Tudo isso tem muito a ver com empreendedorismo. Nós temos três pilares muito importantes na nossa cultura empresarial que vieram dessa experiência com o esporte: ambição, bom relacionamento e humildade. A humildade para entender o que o concorrente está fazendo melhor e aprender com isso. O bom relacionamento com colaboradores, fornecedores e clientes. E a ambição, que é aquilo que nos tira da inércia e nos faz buscar algo maior. Muito do que eu coloco em prática hoje eu aprendi no esporte, dos sete aos vinte anos de idade.

Leonardo Bortoletto: Mas você não largou o automobilismo 100% aos 20 anos?

Clemente Faria Júnior: Aos 20 anos foi a fase em que eu realmente desisti de ser profissional. Até aquele momento eu tinha certeza absoluta de que queria chegar à Fórmula 1 e acreditava muito nisso. Depois peguei uma fase difícil da economia e tomei uma decisão. Eu gostava tanto do empreendedorismo quanto do esporte. Escolhi seguir pelos negócios e vejo que foi uma decisão acertada. Sou muito bem resolvido com isso e continuo envolvido com o automobilismo, mas hoje como hobby.

Leonardo Bortoletto: Perdemos um piloto, ganhamos um empreendedor. Um empreendedor que está à frente de várias marcas importantes. Fala um pouco sobre esse desafio.

Clemente Faria Júnior: É muito desafiador. A indústria e o mundo evoluem muito rápido. Hoje estamos em mercados em que a velocidade da inovação é enorme. Há vinte anos dificilmente um cliente saberia de um lançamento que aconteceria na Alemanha. Hoje ele muitas vezes descobre antes da própria equipe comercial. O cliente está extremamente conectado. Ele acompanha lançamentos, acompanha testes, acompanha novidades em tempo real. Isso aumenta muito o desafio para as empresas. Mas, ao mesmo tempo, para quem gosta de inovação e gosta de ser constantemente desafiado, isso também é muito estimulante.

Leonardo Bortoletto: Você acha que essa é a principal mudança do consumidor?

Clemente Faria Júnior: Eu acho que é uma mudança muito importante. Hoje, muitas vezes, o cliente sabe mais do que o próprio vendedor. Principalmente nas marcas premium, ele é muito aficionado pelo produto. Ele acompanha tudo. Hoje você encontra pessoas que ficam na porta das pistas de testes das montadoras tentando fotografar carros camuflados para descobrir o que será lançado. Isso mostra o quanto o consumidor está informado e conectado.

Leonardo Bortoletto: Essas marcas que você representa são marcas premium, Mercedes, Porsche, Lotus, diferenciadas. Elas ainda representam conquista para o consumidor?

Clemente Faria Júnior: Com certeza. Eu acho que o carro continua sendo uma conquista. O brasileiro ainda sonha em comprar um carro. Nós vemos muitos clientes que começaram conosco em modelos de entrada e, ao longo da vida profissional, foram evoluindo, cresceram empresarialmente ou na carreira e passaram a adquirir outros veículos. Isso é muito interessante porque existe uma ligação emocional. O ser humano costuma associar o próprio sucesso ao crescimento que ele teve. Muitas vezes ele estabelece metas pessoais vinculadas a essas conquistas. Às vezes ele pensa: “Quando eu chegar a determinado cargo ou alcançar determinado resultado, vou comprar aquele carro”. Então existe uma relação muito forte entre conquista pessoal e realização.

Leonardo Bortoletto: Eu queria falar um pouco sobre a Lotus. Trazer a Lotus para o Brasil representa um marco.

Clemente Faria Júnior: Sem dúvida. Para mim é um motivo de orgulho muito grande. Eu tenho uma ligação histórica com o automobilismo e a Lotus busca exatamente essa proximidade com quem está à frente da operação. O cliente Lotus é um cliente ultra premium. Ele conversa diretamente com o responsável pela empresa. Ele quer decisões rápidas. É um mercado de nicho. Para nós é uma responsabilidade enorme. Eu estou pessoalmente à frente desse projeto com muito orgulho e muito empenho. Vamos começar com uma flagship em São Paulo e, dentro de um plano de cinco anos, expandir para algumas das principais capitais do Brasil, sempre com atuação nacional.

Leonardo Bortoletto: É comum uma marca premium ter poucas lojas e atender o Brasil inteiro?

Clemente Faria Júnior: Exatamente. Dentro do mercado de luxo, a principal questão é a escassez. O cliente quer saber que está comprando um produto diferenciado, exclusivo e personalizado. Ele quer configurar o carro, participar da construção daquela experiência. No projeto Lotus, por exemplo, cerca de 70% dos carros vendidos serão configurados e encomendados pelos clientes. Não é uma venda tradicional em que a pessoa chega à loja e sai com o carro. A personalização faz parte da experiência. Isso conversa muito com o perfil do cliente Lotus.

Leonardo Bortoletto: Existe espaço no Brasil para marcas globais dessa envergadura?

Clemente Faria Júnior: Sem dúvida. Quando você observa a economia brasileira e olha, por exemplo, para São Paulo, que está entre as cidades com maior quantidade de helicópteros do mundo, percebe o tamanho do poder de compra existente em determinados segmentos. Além disso, o brasileiro é apaixonado por automóvel. Eu acredito que existe espaço para esse mercado e que ele continua crescendo. O cliente de alta renda costuma estar protegido em diferentes cenários. Quando a economia está aquecida, os negócios dele vão bem. Quando os juros estão elevados, muitas vezes seus investimentos também apresentam bons resultados. É um mercado relativamente mais estável. As maiores preocupações normalmente estão ligadas a mudanças regulatórias e ao ambiente político.

Leonardo Bortoletto: Qual é o tamanho da influência da macroeconomia, dos juros e da inflação nos seus negócios?

Clemente Faria Júnior: Influencia bastante. No setor automotivo, mais do que a taxa de juros em si, pesa muito o sentimento do consumidor. Se ele está otimista, feliz e confiante, ele fica mais propenso a comprar. Se está inseguro, ele tende a adiar decisões. Já no mercado de máquinas é diferente. Nesse caso existe uma matemática muito mais objetiva. O cliente está avaliando investimento, orçamento, retorno financeiro. A taxa de juros influencia diretamente a decisão. Quando você tem juros muito altos, acaba inibindo investimentos.

Leonardo Bortoletto: O que podemos esperar da Bamaq para os próximos anos?

Clemente Faria Júnior: Eu gosto muito de dizer que existem momentos de expandir e momentos de parar para olhar para dentro. Nós já fizemos vários movimentos de expansão e agora estamos em um momento de buscar excelência na execução. Existe muita oportunidade de melhoria dentro das empresas. A inteligência artificial está mudando completamente a forma como as organizações funcionam. Hoje estamos olhando muito para dentro e nos perguntando como podemos criar uma experiência totalmente diferenciada para os nossos clientes. Também estamos acompanhando mudanças importantes, como a reforma tributária, que altera a forma como os negócios são feitos no Brasil. Precisamos entender como essas mudanças impactam não apenas a nossa empresa, mas também os nossos clientes.

RAIO X

Leonardo Bortoletto: Visão de dono ou profissionalização da gestão?

Clemente Faria Júnior: Os dois. Eu acredito muito em empresas que têm um dono tomando decisões rápidas. Mas também acredito que mesmo empresas familiares precisam passar por processos de profissionalização. Por isso fico com os dois.

Leonardo Bortoletto: Conservadorismo financeiro ou ousadia empresarial?

Clemente Faria Júnior: Também os dois. É impossível crescer sendo totalmente conservador. Mas também é muito perigoso ser excessivamente ousado em um país tão volátil. Eu costumo dizer que todo plano muito ousado precisa ter um plano B.

Leonardo Bortoletto: Mercado brasileiro ou expansão internacional?

Clemente Faria Júnior: Mercado brasileiro. O Brasil é enorme. Ainda existe muita oportunidade para desenvolver aqui. A internacionalização é extremamente complexa. Envolve novas culturas, novas moedas, novas legislações e novas estruturas tributárias. Antes de pensar nisso, acredito que as empresas precisam explorar bem as oportunidades que ainda existem no mercado nacional.

PERGUNTA DE OURO

Leonardo Bortoletto: Hoje é mais difícil construir uma empresa ou manter uma empresa viva?

Clemente Faria Júnior: Eu já construí empresas do zero e também acompanho os desafios de empresas já consolidadas. Mas, sem dúvida, construir do zero é muito mais difícil. Você recebe muitos “nãos”, enfrenta muitas barreiras e precisa manter a energia e a ambição mesmo quando as coisas não acontecem da forma esperada. Depois que o negócio começa a funcionar e ganha escala, vários processos ficam mais fáceis. Por isso, na minha visão, começar do zero continua sendo o maior desafio.

Leonardo Bortoletto: O que quebra mais empresas no Brasil: erro de gestão, vaidade ou o próprio ambiente do país?

Clemente Faria Júnior: Eu acredito que o principal problema continua sendo o erro de gestão. No início da minha trajetória empresarial trabalhei muito próximo de pequenas e médias empresas e vi isso acontecer inúmeras vezes. Muitas empresas quebram porque não fazem as contas corretamente. Acham que vender é suficiente e acabam esquecendo de analisar margem, qualidade da venda, capital de giro e rentabilidade. A vaidade também pode aparecer depois, mas normalmente o problema começa com um erro de gestão.

RESPONDE AÍ, CHEFE

Pergunta enviada por Roberto Yi, presidente da Daikin Brasil:

Roberto Yi: Como você enxerga a inteligência artificial dentro das empresas? Ela realmente vai substituir profissionais?

Clemente Faria Júnior: Esse é um tema que está na cabeça de todos os empreendedores e executivos. Quando vemos projeções para os próximos vinte ou trinta anos, realmente existe um certo receio em relação à substituição de algumas funções. Mas eu encaro isso de forma positiva. A tecnologia existe para melhorar a qualidade de vida das pessoas e aumentar a produtividade. Eu tenho utilizado essas ferramentas e incentivado nossas equipes a testar e aprender. Acredito que haverá mudanças importantes dentro das empresas, mas não vejo apenas pelo lado da substituição. Novas funções serão criadas e outras deixarão de existir. Foi exatamente o que aconteceu com a internet. Antes dela não existiam milhares de cargos que hoje fazem parte da realidade das empresas. Por isso, vejo a inteligência artificial como uma oportunidade de evolução e estou bastante otimista com o que está por vir.

CONSELHOS FINAIS

Leonardo Bortoletto: Que conselhos você deixaria para quem quer construir negócios sólidos no Brasil?

Clemente Faria Júnior: O primeiro é entender qual produto ou serviço realmente faz diferença para o seu cliente. Quando uma empresa nasce, é comum começar a aceitar todo tipo de demanda. Um cliente pede uma coisa, outro pede outra, e você acaba tentando fazer de tudo. O problema é que, muitas vezes, você perde o foco e deixa de saber exatamente onde está a sua principal competência. Eu já vivi isso e continuo vendo isso acontecer com frequência. O segundo ponto é tomar muito cuidado com a dor do crescimento. Muitas empresas crescem rapidamente, criam novas estruturas, aumentam níveis hierárquicos e acabam se afastando dos clientes. São problemas silenciosos. Quando a empresa percebe, já perdeu clientes, gerou insatisfação e criou dificuldades que poderiam ter sido evitadas. Por isso, é preciso crescer com atenção e sem perder a proximidade com aquilo que realmente gera valor para o cliente.

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, com novos episódios às terças-feiras, às 19h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Confira a entrevista completa:

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.