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O agro brasileiro é mesmo como as pessoas imaginam?

Antônio de Salvo, presidente do Sistema Faemg Senar, explica como o campo se transformou nas últimas décadas

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Antônio de Salvo afirma que o pequeno produtor tem grande potencial de aumento de produtividade através de assistência técnica e novas tecnologias • Reprodução | Youtube Itatiaia

Tecnologia, sucessão familiar, produtividade, preservação ambiental, inovação e os desafios de comunicar melhor o agronegócio brasileiro. Esses foram alguns dos temas da conversa entre Leonardo Bortoletto e Antônio de Salvo, presidente do Sistema Faemg Senar, no Itatiaia Negócios Cast.

Ao longo da entrevista, Antônio de Salvo explica como o campo se transformou nas últimas décadas, fala sobre o impacto da tecnologia na produção de alimentos, analisa os desafios enfrentados pelo pequeno produtor rural e defende que o agronegócio brasileiro precisa ser mais conhecido pela sociedade.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Toninho, eu queria começar conversando sobre a vida no campo. Muita gente diz que viver na fazenda é uma faculdade diferente de qualquer outra. O que essa experiência ensinou para você?

Antônio de Salvo: Sou filho, neto e bisneto de produtores rurais. Nasci em Belo Horizonte, mas vivi parte da infância na fazenda, em Curvelo. Depois de me formar em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa, voltei para o campo e percebi que nenhuma sala de aula substitui o aprendizado do dia a dia. A convivência com a natureza, os animais, as lavouras e o clima faz você enxergar a vida de uma maneira diferente.

Leonardo Bortoletto: Existe a ideia de que a vida no campo é mais tranquila. Isso ainda é verdade?

Antônio de Salvo: Ela é diferente, mas não menos intensa. Hoje o campo não é mais aquele ambiente de décadas atrás. A tecnologia acelerou o ritmo da produção. Em muitas regiões do Brasil já são três safras por ano. Não existe engarrafamento, mas existe muito trabalho. Em compensação, você ganha qualidade de vida, contato com a natureza e mais tempo para a família.

Leonardo Bortoletto: Qual é o maior desafio do agro atualmente: aumentar a produtividade ou preparar as próximas gerações?

Antônio de Salvo: O maior desafio é a sucessão familiar. Convencer os jovens a permanecerem no campo não é simples. O caminho passa pela tecnologia. Ninguém quer fazer trabalho pesado, mas muitos querem operar máquinas guiadas por satélite, drones, softwares de gestão e equipamentos de alta tecnologia. Esse é o agro que está surgindo.

Leonardo Bortoletto: E essa transformação já está acontecendo?

Antônio de Salvo: Sem dúvida. Hoje existem drones que monitoram o rebanho, tratores semiautônomos, plantadeiras que fazem leitura do solo em tempo real e sistemas capazes de definir a melhor estratégia para cada safra. O profissional do campo mudou e continuará mudando cada vez mais.

Leonardo Bortoletto: O que mais mudou no agronegócio brasileiro nas últimas décadas?

Antônio de Salvo: A tecnologia foi a maior transformação. Muitas pessoas imaginam que inovação significa apenas máquinas, mas ela também está na nutrição animal, no manejo, na genética e no conhecimento técnico. Foi isso que permitiu ao Brasil aumentar fortemente a produção de alimentos sem ampliar proporcionalmente a área cultivada.

Leonardo Bortoletto: Você comentou que o Brasil conseguiu aumentar muito a produção nas últimas décadas. Como isso aconteceu?

Antônio de Salvo: O grande responsável foi o pacote tecnológico. Muitas pessoas imaginam que tecnologia é apenas uma máquina nova, mas não é. Uma alimentação mais equilibrada para o rebanho, um manejo mais eficiente ou melhorias no conforto dos animais já aumentam significativamente a produtividade. O conhecimento técnico passou a fazer parte da rotina do produtor rural.

Leonardo Bortoletto: O Brasil saiu de aproximadamente 100 milhões para cerca de 350 milhões de toneladas de grãos sem ampliar proporcionalmente a área cultivada. Como explicar esse resultado?

Antônio de Salvo: Esse crescimento aconteceu graças à tecnologia. Hoje produzimos duas ou até três safras na mesma área e utilizamos técnicas muito mais eficientes do que no passado. Foi a produtividade que cresceu, e não simplesmente a ocupação de novas terras.

Leonardo Bortoletto: Então, de onde vêm as críticas de que o agronegócio desmata para produzir?

Antônio de Salvo: Parte vem do desconhecimento e parte de interesses econômicos e ideológicos. Quando o Brasil aumenta sua participação no mercado internacional, naturalmente passa a competir com outros grandes produtores. A questão ambiental acabou sendo utilizada, muitas vezes, como uma forma de reduzir nossa competitividade.

Leonardo Bortoletto: O Brasil consegue produzir preservando?

Antônio de Salvo: Consegue. A produção cresceu muito sem acompanhar esse crescimento na ocupação de novas áreas. Na pecuária, por exemplo, produzimos mais carne utilizando menos área de pastagem. Isso foi possível graças à tecnologia, ao melhoramento genético e ao aumento da produtividade.

Leonardo Bortoletto: Falta comunicação para mostrar essa realidade?

Antônio de Salvo: Sem dúvida. As pessoas têm uma imagem melhor do agro do que tinham no passado, mas ainda conhecem pouco o que realmente acontece dentro das propriedades rurais. Precisamos comunicar melhor o trabalho desenvolvido no campo e mostrar como o agronegócio evoluiu nas últimas décadas.

Leonardo Bortoletto: Hoje a percepção negativa diminuiu?

Antônio de Salvo: Sim. Pesquisas mostram que a maioria das pessoas tem uma boa imagem do produtor rural. O desafio agora é aproximar ainda mais a sociedade do campo e explicar como produzimos alimentos conciliando produtividade e preservação ambiental.

Leonardo Bortoletto: A genética também teve um papel importante nessa transformação?

Antônio de Salvo: Fundamental. O melhoramento genético permitiu reduzir o tempo necessário para a engorda do gado e aumentar muito a produtividade. Hoje produzimos mais carne na mesma área, utilizando animais geneticamente superiores e sistemas de produção muito mais eficientes do que no passado.

Leonardo Bortoletto: Ainda existe espaço para o Brasil aumentar a produção sem abrir novas áreas?

Antônio de Salvo: Existe muito espaço. Só na pecuária, estimamos entre 35 e 40 milhões de hectares de áreas degradadas ou semidegradadas que podem ser recuperadas. Apenas corrigindo o solo e melhorando o manejo, é possível aumentar significativamente a produção sem necessidade de novos desmatamentos.

Leonardo Bortoletto: Então o potencial de crescimento ainda é muito grande?

Antônio de Salvo: Muito grande. Hoje mais da metade das vacas brasileiras ainda são cobertas por reprodutores sem melhoramento genético. Só de substituir esses animais por reprodutores melhoradores, já conseguiríamos elevar a produção em cerca de 30%, sem ampliar a área utilizada. Se isso vier acompanhado de alimentação adequada e recuperação das pastagens, o ganho de produtividade é ainda maior.

Leonardo Bortoletto: O produtor rural ainda está distante do seu limite de eficiência?

Antônio de Salvo: Principalmente o pequeno produtor. O Brasil ainda tem um enorme potencial para crescer levando tecnologia, assistência técnica e gestão para essas propriedades. Muitas vezes, não falta vontade de produzir, falta acesso ao conhecimento.

Leonardo Bortoletto: Quando falamos em pequeno produtor, de quem estamos falando?

Antônio de Salvo: Em Minas Gerais, consideramos pequeno produtor quem possui até 150 hectares. São cerca de 700 mil produtores rurais no estado e aproximadamente 80% deles se enquadram nessa categoria. É justamente esse público que mais precisa de assistência técnica para aumentar produtividade e renda.

Leonardo Bortoletto: Como o Sistema Faemg Senar atua nesse processo?

Antônio de Salvo: Hoje atendemos cerca de 55 mil produtores rurais com assistência técnica e gerencial. Ainda é uma parcela pequena diante da demanda, mas o objetivo é ampliar esse atendimento e transformar a realidade do pequeno produtor, levando tecnologia, gestão e melhores práticas para dentro das propriedades.

Leonardo Bortoletto: Como você imagina o agronegócio brasileiro em 2050?

Antônio de Salvo: Será um agro ainda mais tecnológico. As propriedades tendem a ganhar escala, utilizar cada vez mais inteligência artificial, agricultura de precisão, drones e automação. O profissional do campo precisará dominar tecnologia tanto quanto conhece a produção rural.

Leonardo Bortoletto: Esse avanço tecnológico também ajuda a atrair os jovens?

Antônio de Salvo: Sem dúvida. O jovem quer inovação. Hoje o campo oferece desafios ligados à engenharia, tecnologia, inteligência artificial, análise de dados e automação. O agronegócio está se tornando um ambiente multidisciplinar e isso desperta o interesse das novas gerações.

No quadro Raio X, Antônio de Salvo respondeu três perguntas rápidas sobre inovação, preservação e visão de mercado.

Leonardo Bortoletto: Tradição ou inovação?

Antônio de Salvo: Inovação. A tradição tem seu valor, mas quem não inovar ficará para trás. As empresas que conseguem unir experiência e inovação terão ainda mais vantagens competitivas.

Leonardo Bortoletto: Produção ou preservação?

Antônio de Salvo: Não existe mais essa separação. Hoje não é possível produzir sem preservar. O Brasil é um exemplo disso. Conseguimos ampliar a produção mantendo grande parte do território preservado, embora muitas pessoas ainda desconheçam essa realidade.

Leonardo Bortoletto: Visão de produtor ou visão de mercado?

Antônio de Salvo: As duas. O produtor precisa olhar para dentro da porteira para aumentar a produtividade, mas também precisa acompanhar o mercado. Não adianta produzir mais se não houver demanda. É preciso planejar, conquistar novos mercados e entender o comportamento do consumidor.

Na sequência, Antônio de Salvo respondeu à Pergunta de Ouro, enviada pela audiência da Itatiaia.

Leonardo Bortoletto: O agro brasileiro é tão rico quanto as pessoas imaginam?

Antônio de Salvo: Não. Existe uma confusão entre agropecuária e agronegócio. O agronegócio engloba toda a cadeia produtiva — fabricantes de máquinas, insumos, defensivos, tecnologia, logística e distribuição. Já a agropecuária é a produção dentro da porteira. Muitas pessoas olham para o crescimento do agronegócio e acreditam que toda essa riqueza fica com o produtor rural, mas não é assim. As margens da produção são muito menores do que a maioria imagina.

No quadro Responde Aí, Chefe, Antônio de Salvo respondeu à pergunta enviada por Flávio Roscoe, presidente licenciado da FIEMG.

Flávio Roscoe: O que você faria diferente no final do dia? O que você faria diferente do que fez hoje ou no passado recente?

Antônio de Salvo: Eu teria participado mais ativamente da representação dos produtores rurais. Sempre nos preocupamos em aumentar a produção, melhorar a qualidade dos alimentos e apoiar o desenvolvimento do campo, mas poderíamos ter dedicado mais esforço para representar esses homens e mulheres e mostrar à sociedade a importância do trabalho que realizam. Hoje tenho a convicção de que precisamos fortalecer cada vez mais essa representação e continuar trabalhando para melhorar a vida de quem produz no campo.

Para encerrar a entrevista, Antônio de Salvo deixou dois conselhos para quem deseja empreender no agronegócio.

Antônio de Salvo: O primeiro conselho é abandonar o achismo. O agronegócio exige conhecimento técnico e gestão profissional. Quem não conhece o setor deve buscar qualificação ou contar com profissionais preparados. O segundo é entender que o agro oferece enormes oportunidades, mas elas pertencem a quem investe em tecnologia, planejamento e capacitação para tomar decisões cada vez mais técnicas.

O episódio completo do Itatiaia Negócios Cast está disponível no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.