Belo Horizonte
Itatiaia

O que impede o Brasil de aproveitar todo o seu potencial?

Otto Levy, diretor de Investimentos da CSN Mineração, afirma que o Brasil pode redefinir o papel da mineração na economia nacional

Por
Otto Levy afirma que o Brasil precisa deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e atrair indústrias capazes de produzir itens de maior valor agregado • Reprodução | Youtube Itatiaia

Competitividade, investimentos, mineração, infraestrutura, gestão pública, inovação e planejamento de longo prazo. Esses foram alguns dos temas da conversa entre Leonardo Bortoletto e Otto Levy, diretor de Investimentos da CSN Mineração, no Itatiaia Negócios Cast.

Ao longo da entrevista, o executivo analisa os desafios para tornar o Brasil mais competitivo, explica por que o país ainda não consegue transformar toda a sua riqueza mineral em desenvolvimento econômico, comenta o potencial das terras raras, fala sobre segurança jurídica, ambiente de negócios, sustentabilidade e compartilha as experiências acumuladas ao longo da carreira na iniciativa privada e na gestão pública.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Otto, eu queria começar falando sobre a sua formação em engenharia e o reflexo que ela tem hoje nas tomadas de decisão de gestão. O que a engenharia ensina para o dia a dia da gestão de uma empresa como a CSN?

Otto Levy: A engenharia ensina a ordenar o raciocínio para facilitar a resolução dos problemas. Ela ajuda a transformar um problema complexo em vários problemas menores e mais simples de resolver. Eu diria que é essa a principal contribuição da engenharia para a gestão.

Leonardo Bortoletto: Olhando para sua trajetória, um ponto que chama atenção é a experiência na gestão pública. O que essa etapa trouxe para sua atuação na iniciativa privada?

Otto Levy: Foi uma experiência muito interessante. Na Secretaria de Planejamento de Minas Gerais, pude constatar a capacidade técnica dos servidores públicos. O que torna a administração pública mais lenta não são as pessoas, mas o arcabouço legal, que acaba travando o funcionamento do setor público. Ao mesmo tempo, trabalhar na área pública proporciona uma realização muito grande, porque você consegue impactar positivamente a vida de um número enorme de pessoas.

Leonardo Bortoletto: Hoje, olhando para o gestor brasileiro, você acredita que ele consegue planejar ou o Brasil acaba obrigando todos a reagirem aos acontecimentos?

Otto Levy: O gestor brasileiro é muito bom. O Brasil já superou desafios enormes, como a hiperinflação, mas ainda enfrenta obstáculos que dificultam um planejamento de longo prazo. Aqui, normalmente, o planejamento acaba sendo feito em ciclos mais curtos por causa da insegurança jurídica. Muitas vezes, regras que já estavam estabelecidas são alteradas, e isso reduz a previsibilidade para quem precisa investir.

Leonardo Bortoletto: Isso também interfere no crescimento do país?

Otto Levy: Sem dúvida. Nós ainda não conseguimos destravar todo o potencial de crescimento do Brasil. Existe um desequilíbrio nas contas públicas e uma carga tributária elevada para um país com o nosso nível de desenvolvimento. Quanto maior a tributação, maior também a ineficiência do ambiente econômico e de negócios.

Leonardo Bortoletto: Vamos falar agora sobre mineração. Qual é o principal desafio do setor atualmente?

Otto Levy: Eu diria que o principal desafio continua sendo a regulação. O processo de licenciamento ambiental é muito demorado. Em média, leva de quatro a cinco anos para que um projeto consiga sair do papel.

Leonardo Bortoletto: Uma ideia não fica ultrapassada depois de tanto tempo?

Otto Levy: Em alguns casos, é preciso até redimensionar o projeto. Mas eu sempre digo que o Brasil foi um país abençoado pelos recursos naturais. Para existir mineração, existe apenas uma condição indispensável: é preciso haver minério. Todo o restante são desafios que nós criamos para conseguir desenvolver essa atividade.

Leonardo Bortoletto: A nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental representa um avanço?

Otto Levy: Eu considero um avanço importante. Agora precisamos acompanhar como a Justiça vai interpretar essa legislação, porque já existem questionamentos sobre alguns pontos. Também considero muito positivo o marco dos minerais críticos aprovado pela Câmara, que garante a soberania dos recursos minerais brasileiros e cria condições para atrair investimentos privados para esse setor.

Leonardo Bortoletto: Os minerais críticos, especialmente as terras raras, representam realmente uma grande oportunidade para o Brasil?

Otto Levy: Eu acredito que sim. É uma oportunidade muito grande. Basta olhar para o minério de ferro. Na década de 1990, o Brasil produzia cerca de 150 milhões de toneladas por ano, enquanto a Austrália produzia aproximadamente 200 milhões. Os dois países estavam praticamente no mesmo patamar.

Leonardo Bortoletto: E o que aconteceu depois?

Otto Levy: Com a expansão da indústria do aço na China, a Austrália ampliou sua produção para cerca de 1,2 bilhão de toneladas por ano. O Brasil cresceu, mas chegou a aproximadamente 400 milhões de toneladas. Se tivéssemos acompanhado o ritmo da Austrália, o país teria recebido algo em torno de 1,2 trilhão de dólares a mais nesse período, um valor equivalente à dívida interna brasileira.

Leonardo Bortoletto: Nós tínhamos reservas minerais para crescer nesse ritmo?

Otto Levy: Esse é justamente o ponto. Nós temos reservas e, em muitos casos, de qualidade superior às da Austrália.

Leonardo Bortoletto: Então, por que isso não aconteceu?

Otto Levy: Não existe uma única explicação. O tempo necessário para conseguir um licenciamento ambiental foi aumentando ao longo dos anos e a infraestrutura brasileira também não acompanhou esse crescimento. Muitas mineradoras precisaram construir suas próprias ferrovias e seus próprios portos para conseguir escoar a produção.

Leonardo Bortoletto: A infraestrutura ainda é um gargalo para o setor?

Otto Levy: Ainda precisamos investir mais. A própria CSN está ampliando sua estrutura portuária e a MRS também vem investindo para aumentar a capacidade de transporte ferroviário. Quanto maior a eficiência logística, menor a dependência do transporte rodoviário e maior a competitividade da mineração brasileira.

Leonardo Bortoletto: Quando falamos em terras raras, o Brasil possui uma das maiores reservas do mundo, mas a China domina a produção e o beneficiamento. O que falta para o Brasil se tornar um protagonista nesse mercado?

Otto Levy: As terras raras representam uma cadeia de valor composta por diferentes etapas. A primeira é a extração do minério, algo que o Brasil já possui graças às reservas naturais. A segunda é a separação dos elementos que compõem as terras raras, processo que exige tecnologia. Já a terceira etapa é a fabricação de produtos que utilizam esses minerais.

Leonardo Bortoletto: É justamente nessa etapa que está o maior desafio?

Otto Levy: Exatamente. O Brasil precisa adquirir tecnologia para separar esses elementos e, principalmente, criar condições para desenvolver uma indústria capaz de fabricar produtos de maior valor agregado. É aí que está a grande oportunidade. Em vez de apenas exportar matériaprima, poderíamos produzir baterias, componentes eletrônicos e diversos outros produtos de alta tecnologia utilizando recursos que já possuímos.

Leonardo Bortoletto: Então o desafio vai além da mineração?

Otto Levy: Sem dúvida. Essa terceira etapa depende diretamente da competitividade do país. Carga tributária, ambiente regulatório e condições para fazer negócios são fatores que influenciam a decisão das empresas sobre onde investir e produzir.

Leonardo Bortoletto: Em uma cadeia de investimentos como essa, o que mais pesa para uma empresa decidir investir no Brasil? É a tributação, a segurança jurídica ou o ambiente regulatório?

Otto Levy: A tributação pesa muito. Comparado a países com nível de desenvolvimento semelhante, o Brasil tributa bastante. A reforma tributária pode representar um avanço para a indústria, mas, de forma geral, a elevada carga tributária reduz a competitividade do país. Basta comparar o preço de produtos como automóveis e celulares no Brasil com outros mercados. A diferença é muito grande e está diretamente ligada à infraestrutura e aos tributos.

Leonardo Bortoletto: Se o Brasil não avançar no beneficiamento das terras raras, qual será a consequência?

Otto Levy: Vamos desperdiçar uma enorme oportunidade. Só possuir as reservas já é uma grande vantagem, mas é pouco diante do potencial econômico que esses minerais podem gerar. Se continuarmos exportando apenas a matéria-prima, estaremos deixando de capturar grande parte do valor dessa cadeia produtiva.

Leonardo Bortoletto: O investidor internacional olha para o Brasil hoje com confiança ou ainda com cautela?

Otto Levy: Eu diria que ainda olha com cautela. O Brasil vive em um ambiente democrático e isso é muito importante, mas ainda não pode ser considerado um país totalmente estável. Além disso, convivemos com juros reais muito elevados. Quando uma aplicação financeira oferece uma rentabilidade alta, com baixo risco, torna-se mais difícil justificar investimentos produtivos de longo prazo.

Leonardo Bortoletto: A mineração brasileira está preparada para essa nova era, marcada por tecnologia e inovação?

Otto Levy: Está preparada. Nos minerais tradicionais, como minério de ferro, ouro, manganês e alumínio, o Brasil possui tecnologia de ponta. Somos referência tanto nos processos produtivos quanto nas soluções para disposição de rejeitos.

Leonardo Bortoletto: Depois de Brumadinho, houve uma transformação importante no setor?

Otto Levy: Sem dúvida. A evolução do empilhamento a seco colocou o Brasil entre os países mais avançados do mundo nessa tecnologia. Muitas críticas são feitas ao setor, mas quem conhece a mineração brasileira sabe que hoje utilizamos o que existe de mais moderno em disposição de rejeitos.

Leonardo Bortoletto: E a sustentabilidade?

Otto Levy: Hoje ela deixou de ser um diferencial para se tornar uma obrigação. Sustentabilidade já faz parte do custo de produção. Não é mais possível desenvolver um projeto mineral sem considerar o meio ambiente, as compensações e o relacionamento com as comunidades.

Leonardo Bortoletto: Mesmo com todas essas exigências, ainda é possível manter a atividade economicamente viável?

Otto Levy: É possível, desde que exista planejamento de longo prazo. Mineração não é uma atividade de curto prazo. Países como Austrália e Canadá mostram que é possível desenvolver projetos minerais com mais rapidez e eficiência. Eles conseguem implantar empreendimentos em aproximadamente metade do tempo necessário no Brasil, mantendo elevados padrões ambientais.

Leonardo Bortoletto: O Brasil ainda possui vantagens competitivas nesse cenário?

Otto Levy: Sim. Diferentemente de outras indústrias, a mineração depende da existência do recurso natural. Minério de ferro não pode ser produzido em qualquer lugar do mundo. Hoje, Brasil e Austrália respondem pela maior parte da produção mundial, o que demonstra a importância estratégica desses dois países para o abastecimento global.

Leonardo Bortoletto: Deixa eu te fazer uma pergunta que talvez ninguém tenha feito. Se estivesse nas suas mãos decidir o posicionamento do Brasil em relação às terras raras, o que você faria?

Otto Levy: A primeira decisão seria fazer a separação dos elementos das terras raras aqui no Brasil. Esse é o primeiro passo para agregar valor ao que produzimos.

Leonardo Bortoletto: E depois?

Otto Levy: Depois eu avaliaria em quais aplicações o Brasil realmente pode ser competitivo. Nenhum país consegue ser competitivo em tudo. É preciso escolher os segmentos em que temos condições de disputar mercado e criar um ambiente favorável para atrair esses investimentos.

Leonardo Bortoletto: Como isso poderia ser feito?

Otto Levy: Criando um arcabouço legal capaz de atrair empresas para produzir aqui. Em vez de exportarmos apenas a matéria-prima, precisamos trazer para o Brasil fabricantes dos produtos finais que utilizam terras raras, como componentes eletrônicos e outras tecnologias. Essa é uma oportunidade que o país não pode desperdiçar.

No quadro Raio X, Otto Levy respondeu três perguntas rápidas sobre crescimento, agregação de valor e tomada de decisões.

Leonardo Bortoletto: Crescimento acelerado ou previsibilidade operacional?

Otto Levy: Crescimento acelerado. O Brasil tem potencial para crescer muito mais. Somos um país rico, mas ainda temos uma população com muitas necessidades. Se conseguirmos manter um crescimento de 5% ou 5,5% ao ano durante uma década, mudaremos o padrão de renda da população e estaremos muito mais próximos de um país desenvolvido.

Leonardo Bortoletto: Exportar minério ou agregar valor no Brasil?

Otto Levy: Agregar valor, sempre que tivermos competitividade para isso. A mineração do futuro está diretamente ligada à sustentabilidade e aos minerais críticos. No caso das terras raras, existe uma oportunidade muito importante para o Brasil desenvolver novas cadeias industriais. Já no minério de ferro, o grande potencial está na produção do chamado minério verde, que permitirá fabricar aço utilizando hidrogênio em vez de carbono.

Leonardo Bortoletto: Visão técnica ou velocidade na tomada de decisão?

Otto Levy: Velocidade na tomada de decisão. Os grandes desafios técnicos já possuem solução. O que falta é decidir mais rápido e executar aquilo que foi planejado.

Na sequência, Otto Levy respondeu à Pergunta de Ouro, enviada pela audiência da Itatiaia.

Leonardo Bortoletto: O Brasil aproveita sua riqueza mineral ou continua exportando oportunidades?

Otto Levy: Infelizmente, ainda exportamos oportunidades. O Brasil possui um patrimônio mineral extraordinário, mas aproveita apenas uma pequena parte desse potencial. Países como Austrália, Canadá e Noruega transformaram a mineração em um dos pilares de suas economias. No Brasil, a atividade representa cerca de 5% da economia. Temos reservas, ainda conhecemos apenas parte do nosso subsolo e exploramos muito menos do que poderíamos.

No quadro Responde Aí, Chefe, a pergunta foi enviada por Flávio Roscoe, presidente licenciado da FIEMG.

Flávio Roscoe: O que a mineração tem feito para que a sociedade conviva melhor com esse importante segmento da economia?

Otto Levy: Minas Gerais reúne uma das maiores potencialidades minerais do mundo. A mineração evoluiu muito nos últimos anos, principalmente com o empilhamento a seco e outras tecnologias que elevaram significativamente os padrões de segurança e sustentabilidade. Além dos minerais tradicionais, o Brasil possui oportunidades importantes com o nióbio, o lítio e as terras raras. Não podemos desperdiçar essa riqueza, porque ela pertence ao povo brasileiro.

Otto Levy também destacou a importância da mineração para o cotidiano da população.

Otto Levy: Na prática, existem apenas duas formas de consumo: aquilo que é plantado ou aquilo que foi minerado. Até mesmo para produzir alimentos é necessário utilizar fertilizantes minerais. A mineração continuará sendo fundamental para o desenvolvimento econômico e para a qualidade de vida das pessoas.

Para encerrar a entrevista, o executivo deixou dois conselhos para quem deseja construir uma carreira em gestão.

Otto Levy: O primeiro é desenvolver a capacidade de resolver problemas. Mais importante do que o conhecimento técnico é saber analisar situações, construir soluções e envolver pessoas nesse processo. O segundo é ter resiliência. Quem trabalha com gestão promove mudanças o tempo todo e precisa estar preparado para enfrentar resistências, persistir e conduzir as transformações necessárias.

O episódio completo do Itatiaia Negócios Cast está disponível no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

Grandes nomes. Grandes histórias. Grandes decisões.

Itatiaia Negócios Cast. Onde líderes se encontram.

Por

Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.