Setor industrial enfrenta "apagão" de mão de obra qualificada
Especialistas alertam para o "apagão" de mão de obra qualificada e para a redução do número de jovens ingressando no mercado de trabalho

Dados da Pesquisa de Escassez de Talentos 2025, do ManpowerGroup, empresa global de recursos humanos, mostram que 81% das empresas brasileiras enfrentam dificuldades para contratar profissionais qualificados. Na indústria, o cenário também preocupa. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), 23% das empresas do setor são fortemente afetadas pela escassez de mão de obra, enquanto quase 80% relatam algum grau de dificuldade para preencher vagas.
O quadro reflete um mercado de trabalho aquecido, com baixos índices de desemprego. Para o economista e professor convidado da Fundação Dom Cabral (FDC), Jorge Arbache, o Brasil vive um verdadeiro "apagão" de mão de obra.
"Temos um apagão de mão de obra em vários níveis, desde o pessoal da linha de produção até cargos de gestão. Vale destacar que a gestão no Brasil é apontada por estudos internacionais como bastante deficiente em relação ao padrão global. Também enfrentamos dificuldades na contratação de engenheiros e de profissionais com maior qualificação", afirma.
Além das dificuldades atuais, o envelhecimento da população brasileira, apontado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a redução do tamanho das famílias tendem a agravar o problema nas próximas décadas. Segundo Arbache, haverá menos jovens ingressando no mercado de trabalho, tornando indispensável o investimento contínuo na qualificação dos trabalhadores.
"Vamos ter menos jovens entrando no mercado de trabalho ao longo dos próximos anos e décadas por causa da desaceleração do crescimento demográfico e, mais adiante, da própria redução da população brasileira. Por isso, será necessário manter os trabalhadores, inclusive os mais velhos, em constante processo de qualificação, porque não haverá outra alternativa", explica.

Além da dificuldade para contratar profissionais qualificados, a indústria também passa por desafios para reter os trabalhadores. O presidente do Sindicato das Indústrias de Carne, Derivados e Frios de Minas Gerais (Sinduscarne), Pedro Braga, afirma que muitas empresas investem na formação de novos colaboradores, mas convivem com uma elevada rotatividade.
"Ultimamente temos contratado muitas pessoas para o primeiro emprego, treinamos e esperamos que elas cresçam na empresa, mas sabemos a realidade do mercado de trabalho com o Bolsa Família e o seguro-desemprego. Muitas pessoas vêm, não se adaptam ao trabalho, saem, recebem o Bolsa Família e o seguro-desemprego, e isso dificulta principalmente quem trabalha com carteira assinada. Alguns segmentos, embora não devessem, acabam contratando sem carteira assinada, e essa mão de obra migra para essas outras atividades", afirma.

Para enfrentar essa situação, Braga destaca que as empresas têm ampliado os benefícios oferecidos aos funcionários e reforçado as ações de integração e retenção.
"A gente vem ampliando benefícios, como plano de saúde, vale-refeição e vale-alimentação. Também investimos na integração do funcionário. Quando ele chega, passa por um processo de onboarding e conta com um padrinho, que acompanha sua adaptação ao longo da jornada", diz.
O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Raphael Lafetá, afirma que outro desafio é atrair os trabalhadores mais jovens para o setor.
"A idade média do trabalhador da construção civil é de 47 anos, ou seja, não é uma mão de obra jovem. Os jovens não estão se interessando pelo mercado de trabalho da construção. Talvez porque ainda seja uma indústria bastante artesanal, que não passou por um salto de padronização e modernização dos processos produtivos, o que reduz seu potencial de atração para esse público", avalia.

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Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.



