Itatiaia

Comércio de rua de BH que tem até cemitério aposta na tradição para manter negócio

Rua Izabel Bueno, no bairro Jaraguá, se transformou um importante corredor comercial de Belo Horizonte

Por e 
Antônio Menezes, conhecido como Toninho, continua trabalhando aos 86 anos • Aline Campolina/Itatiaia

Belo Horizonte, capital mineira de 2,4 milhões de habitantes, tem mais de 11 mil ruas. Ao longo de 128 anos de história, muitas delas se transformaram em verdadeiros corredores comerciais que movimentam a economia, geram empregos e mantêm a tradição de negócios de família. A importância econômica e social desses estabelecimentos é o tema da série especial Comércio de bairro: O empreendedorismo que mantém a tradição e sobrevive em meio à era digital.

Durante uma semana, a reportagem percorreu três ruas em diferentes regiões da cidade: Izabel Bueno (Pampulha), Jacuí (que corta as regiões Leste e Nordeste) e Úrsula Paulino (Oeste). Aos 86 anos, o açougueiro Antônio Menezes, conhecido como Toninho, é a personificação da persistência que mantém vivo o comércio na Rua Izabel Bueno, no bairro Jaraguá, na Região da Pampulha. Com 1,6 km de extensão, a via tem mais de 200 lojas (uma a cada oito metros) e abriga o único cemitério israelita da capital.

Antônio contou à Itatiaia que fundou a Casa de Carnes Jaraguá em 1973. Atualmente, Alessandra Márcia Menezes, 54 anos, caçula dos 11 filhos de Toninho, está à frente do negócio. Além de pai e filha, o primo Emerson Peixoto Leopoldino, 42 anos, ajuda no negócio, mantendo a habilidade para dessossar carne como poucos. O fundador faz questão de dizer que continua trabalhando "de domingo a domingo".

"O segredo para manter um negócio por tanto tempo é a persistência. E Deus tem me ajudado muito para poder continuar a luta", afirma o veterano comerciante, que se emocionou ao contar que precisa da renda do açougue, uma vez que a aposentadoria é insuficiente para arcar com os R$ 4 mil do plano de saúde dele e da esposa.

A história de Antônio confunde-se com a da Rua Izabel Bueno. Ele lembra que, antigamente, os moradores precisavam se deslocar até o Centro da cidade para fazer qualquer compra básica, mas hoje a realidade é outra.

Wellington Rogério do Nascimento, morador da região há 25 anos, concorda com Toninho e ressalta: "A rua não tinha praticamente nada, mas foi crescendo ao longo do tempo". Hoje, a conveniência é o grande atrativo da região, que conta com farmácias, padarias, consultórios e grandes redes de supermercados. "Você não precisa sair, pegar o ônibus para ir para fora. Praticamente pode comprar tudo aqui", comemora.

No entanto, o progresso trouxe desafios para os pequenos empresários. Alessandra, filha de Toninho, destaca a dificuldade de competir com as grandes redes de supermercados. Ela explica que o diferencial do comércio local continua sendo o frescor dos produtos e o atendimento personalizado: "Trabalhar com a carne fresca, a diferença é bem grande do que uma carne hoje que vem na caixa. (...) Parece que eles [supermercados] foram engolindo os açougues pequenos". Toninho compartilha dessa visão, ressaltando que, apesar da concorrência, sua clientela fiel busca qualidade e um atendimento à moda antiga, com direito à boa prosa que só o mineiro tem. "Minha carne é de qualidade, né? (...) Aqui é um pouquinho, mas é tudo fresquinho, sabe? É qualidade", defende.

De funcionário a empreendedor

Luis Eni Viana empreende na Rua Izabel Bueno há 18 anos • Aline Campolina | Itatiaia
Luis Eni Viana empreende na Rua Izabel Bueno há 18 anos • Aline Campolina | Itatiaia

Luis Eni Viana, 57 anos, tem uma loja de ração na rua. O negócio foi aberto há 18 anos, quando ele deixou um emprego de 17 anos em uma loja do mesmo segmento para empreender. Luis considera a Rua Iz

abel Bueno estratégica para o negócio e avalia que o bom relacionamento com os vizinhos é um trunfo para se manter em meio ao avanço do comércio digital.

"O bairro aqui tem muito idoso, então o bom atendimento conta muito", garante o comerciante. Ele acredita que a tendência de fazer tudo no próprio bairro só tende a crescer: "O Centro hoje tem muito trânsito. O pessoal prefere fazer tudo no bairro mesmo. É o futuro de todos nós, é comodidade".

Resiliência

Apesar das dificuldades financeiras e do cansaço físico, o espírito desses comerciantes permanece inabalável. Para o senhor Antônio, cada dia é uma vitória contra o tempo e as mudanças econômicas. Mesmo vendo amigos partirem e enfrentando a solidão da idade, ele encontra forças no trabalho diário. "Graças a Deus. Minha saúde tá boa. Eu não uso remédio, não tomo remédio e sigo tocando o negócio", conclui, com a sabedoria de quem transformou o balcão de um açougue em seu verdadeiro pilar de vida.

A força do comércio em MG

A importância do comércio para a economia é mensurada no estudo A Força dos Pequenos Negócios, elaborado pelo Sebrae Minas. As micro e pequenas empresas (MPEs) do comércio representam 99,3% do total de empresas formais (348 mil) e 72,5% do total da força de trabalho formal em Minas Gerais, com 776 mil empregos gerados diretamente e mais de 1 milhão de forma indireta.

Além desses números, 67,6% do total de salários pagos pelas empresas em Minas Gerais têm origem nas MPEs, totalizando R$ 22,9 bilhões. A participação das micro e pequenas empresas no PIB mineiro é de 35,4%.

Estudo do Sebrae mostra força dos pequenos negócios • Arte Dhandara Entreportes/Itatiaia
Estudo do Sebrae mostra força dos pequenos negócios • Arte Dhandara Entreportes/Itatiaia

A gerente da Unidade de Indústria, Comércio e Serviços do Sebrae, Márcia Valéria Cota Machado, avalia que o comércio de proximidade tem se mostrado um pilar essencial para a economia das cidades, além de fortalecer o território e criar laços de confiança com os moradores.

"Esses empreendedores conhecem melhor o seu cliente, entendem e compreendem suas necessidades e têm um atendimento mais personalizado", afirma Márcia.

Segundo ela, a estrutura reduzida dessas empresas permite uma customização que as grandes redes dificilmente alcançam, o que acaba dinamizando o bairro e retendo a renda na própria localidade. Além do impacto financeiro, há um benefício social direto: "Nós conseguimos gerar emprego localmente porque as pessoas geralmente conseguem trabalhar perto de casa e também o consumidor se sente mais abraçado", disse.

Por

Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.

Por

Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e graduanda em Letras pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG). Foi editora do Jornal da Itatiaia e, atualmente, integra a equipe do portal da Itatiaia como chefe de reportagem.

 

 

Belo Horizonte