Poupança perde atratividade e registra mais saques que depósitos pelo 5º ano seguido

Com juros altos e títulos de renda fixa pagando mais, poupança registra mais um ano negativo em 2025

Foram depositados R$ 4,27 trilhões na caderneta em 2025, contra R$ 4,36 trilhões de saques

A poupança brasileira registrou mais um ano negativo com os saques superando os depósitos, o quinto consecutivo. Segundo dados do Banco Central (BC) divulgados na sexta-feira (9), foram depositados R$ 4,27 trilhões na caderneta em 2025, contra R$ 4,36 trilhões de retiradas, resultando em um saldo negativo de R$ 85,6 bilhões no ano.

A evasão de recursos na caderneta foi a maior desde 2023, quando o saldo negativo foi de R$ 87,8 bilhões. Considerando os últimos cinco anos, 2025 também perde apenas para 2022, quando foram R$ 103 bilhões sacados. Em 2021 o saldo foi de R$ 35 bilhões negativos, e 2024 foi de menos R$ 15,4 bilhões.

O fenômeno ocorre em um momento em que a caderneta, uma vez já considerada a porta de entrada para o mundo dos investimentos, perdeu atratividade para os brasileiros. Segundo especialistas, isso ocorre por alguns motivos: a taxa básica de juros elevada favorece outros investimentos de renda fixa, como o Tesouro Direto, e uma população mais educada financeiramente para reconhecer oportunidades seguras no mercado.

Para Rafael Winalda, especialista de renda fixa do banco Inter, os juros elevados tornaram a poupança menos atraente frente a produtos que oferecem rentabilidade superior, risco semelhante e liquidez diária. “Ou seja, o investidor percebeu que não há mais prêmio algum em ficar na poupança”, disse.

O especialista também cita uma pressão de renda nas famílias que tiveram que sacar recursos da poupança para cobrir despesas correntes e reorganizar o orçamento em um cenário de inflação elevada. Assim, a evasão pode ir além de uma estratégia de investimentos. “É natural em um processo de recomposição patrimonial”, emendou.

“Por último, mesmo o investidor mais conservador mudou seu comportamento - passou a aceitar Tesouro Direto, CDBs garantidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito) e fundos simples de renda fixa. A poupança deixou de ser “o ativo padrão” do conservador brasileiro. É uma mudança cultural definitiva: a poupança virou conta de passagem, não mais investimento”, completou Winalda.

Poupança ainda vence a Inflação

Apesar do resultado negativo no ano, a caderneta registrou um dezembro positivo, o primeiro mês em que os saques não superaram os depósitos desde junho. Ao todo, foram R$ 432,8 bilhões investidos por poupadores no mês passado, enquanto foram R$ 427,3 bilhões em saques - um resultado de R$ 5,4 bilhões líquidos.

O estoque total da poupança subiu de R$ 1,01 trilhão em novembro de 2025, para R$ 1,02 trilhão em dezembro, mas ainda está atrás do resultado de 2024 quando o registro foi de R$ 1,03 trilhão. Historicamente, o último mês do ano sempre registra uma entrada líquida positiva de recursos na caderneta, influenciado pelo pagamento de gratificações natalinas.

Outro dado positivo para essa modalidade de investimentos é o fato de que, pelo quarto ano seguido, o rendimento da poupança foi maior que a inflação. Assim, a caderneta cumpre o pressuposto básico de proteger o patrimônio e o poder de compra das famílias da depreciação do índice de preços.

Segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria, a poupança rendeu 8,19% no ano passado, enquanto a inflação acumulada foi de 4,26%, um ganho real de 3,77% para os investidores que aplicaram dinheiro. Porém, ainda há uma perda para o CDI, que no mesmo período teve um ganho real de 9,77%

Leia também

“O dado chama atenção sobretudo pelo contraste com a década passada. Entre 2013 e 2021, a poupança passou longos períodos oferecendo ganhos reais irrisórios ou até negativos, como em 2015, 2019, 2020 e 2021, anos em que o investidor viu o dinheiro render menos do que a inflação, mesmo sem assumir qualquer risco”, explicou o especialista Einar Rivero, da Elos Ayta,

Segundo Einar, essa diferença entre a poupança e o CDI ajuda a explicar o porquê da caderneta não ser considerada uma aplicação eficiente sob a ótica do retorno. “Mesmo produtos conservadores, como fundos referenciados DI que rendem 90% do CDI, teriam apresentado desempenho superior ao da poupança”, emendou.

“Em outras palavras, o investidor não precisa abrir mão de segurança para obter resultados consistentemente melhores. A conclusão é direta: a poupança voltou a proteger contra a inflação, o que não é pouco diante do histórico recente. No entanto, ela continua ficando para trás quando comparada às alternativas mais simples do mercado financeiro”, completou Rivero.

Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.

Ouvindo...